O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst

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Como eu li em alguns momentos, é impossível ler ao “O caderno rosa de Lori Lamby”,de Hilda Hilst, como se um bloco de gelo estivesse diante das frases. Simplesmente somos jogados diante do texto belamente obsceno da escritora, que nos provoca. É como se ela quisesse testar no moral, nossos desejos. Quais são suas reações diante dos relatos lascivos de uma garota de 8 anos? Você ousaria dizer que sentiu desejo?

Impassível eu não fiquei, já que a escrita erótica de Hilda nos faz ir além do livro que estamos lendo. Confesso que também senti tristeza por Lori, uma criança que se vê em um mundo de sexo por influências dos pais cafetões. Então tem esse jogo de desejo, de sentimentos que tentamos não sentir por conta da moral, mas há também a compaixão pela inocência da menina prostituída tão cedo.

A escritora

A escritora

O livro é escrito em forma de diário, com ótimas ilustrações de Millôr Fernandes, traz os erros de escrita de uma criança de oito anos, o que não impede do texto ter diversas referências a escritores consagrados na literatura erótica, como Henry Miller ou Georges Bataille, obviamente grafados de forma “errada”.

Este foi meu primeiro livro de Hilda, embora conheça textos de poesia dela e tenha conhecimento sobre sua importância em diversos estilos literários. Com certeza foi um bom começo, porque eu sempre li sobre ela, li algumas poesias, mas nunca tinha lido uma obra inteira.

Busquem Hilda. Vale muito a pena.

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Azul é a cor mais quente

Trecho da matéria que li no G1:

A Imovision, distribuidora de “Azul é a cor mais quente”, divulgou um comunicado nesta terça-feira (25) em que critica as empresas que estão se recusando a produzir o Blu-ray do filme francês.

E mais:

“A Imovision procurou a empresa brasileira Sonopress, que replica seus títulos em Blu-ray, mas a mesma se recusou e ainda alegou que nenhuma outra empresa faria o serviço. A Imovision então contatou a SONY DADC, que também se recusou a produzir o Blu-ray do filme, por considerar o conteúdo inadequado devido às cenas de sexo, apesar do filme já ter sido classificado para maiores de 18 anos”, diz o texto.

Aí eu penso o quanto  a internet é maravilhosa, que já não precisamos ficar nas mãos de grandes corporações que decidem o que bom ou ruim, decente ou não!  Enquanto essas empresas negam a produzir lindos filmes sobre o amor apenas por conter lindas cenas de sexo entre mulheres, o coro come na TV e outros meios, reproduzindo nossas piores mazelas.

Dito isto…

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O texto abaixo contém spoilers!!!

“Azul é a cor mais quente” (2013), produção francesa baseada nos quadrinhos de Julie Maroh, trata “apenas” de uma linda história de amor entre dois seres humanos, sem rótulos. Humanos, não um romance gay, um romance lésbico. E acho que começar falando desse filme definindo-o com tais etiquetas é diminuir a beleza do próprio amor, que é um sentimento universal e poderoso.

O diretor Addellatif Kechiche narra a história de Adèle ( Adèle Exarchopoulos), uma garota que inicia o longa com 15 anos e nos dá sua evolução emocional aos poucos, de uma forma orgânica e delicada. Adèle sofre por conta de suas descobertas sexuais, teme ser rejeitada pelas amigas e por conta disso se força a uma relação heterossexual. Não pode dar certo. Quando cruza com Emma (Léa Seydoux) há o despertar de uma intensão paixão, que mais tarde será correspondida.

O envolvimento das duas nos é revelado por Kechiche de forma belíssima, sempre com a busca dos pequenos grandes gestos de corpo, de face, dos olhos, das palavras. Pareceu, a meu ver, um documentário, como se escondido atrás de um muro ou uma árvore, o diretor filmasse as reações das duas garotas. O que quero dizer é que as reações são muito orgânicas, singelas e intensas ao mesmo tempo. E claro, mérito também das fabulosas atuações de Seydoux e Exarchopoulos. Kechiche aproxima a câmera dos rostos dos personagens, nos colocando quase que na ação, na cena. Outra coisa que achei muito interessante foi quase a ausência de música, o que deixou o universo mais denso, regido pela melodia das emoções. Uma vez ou outra vemos pitadas políticas mais diretas, como à questão da imigração, talvez por conta da origem franco-tunisiana do cineasta, mas o que vigora e impera é a história de amor.

As cenas de sexo (que tanto chamaram a atenção) são apenas cenas de sexo. Ou seja, não há porque se sentir constrangido com elas ou chamá-las de explícitas como se isso fosse demérito. O sexo é tabu em nossa sociedade e instrumento de controle, porque o usamos para controlar o moral das pessoas. Sexo é a energia mais poderosa e importante que existe. E quando falo de sexo, falo de amor, de contato nunca vulgar entre pessoas que querem viver e ser felizes. As cenas de Kechiche são longas e podem constranger alguns porque vemos o sexo como algo sujo, ainda mais quando se trata de um casal gay. Lamentável!

Adéle e Seydoux

Adèle e Léa

Vemos os anos passarem e elas agora moram juntas. Emma já não tem cabelos azuis, ms loiros, e se transformou em uma pintora em ascensão; era estudante de Belas Artes. Adèle agora é uma promissora professora de alfabetização. Fica visível a diferença entre seus mundos intelectuais. Emma possui amigos cultos, um vasto círculo de amizades que intimida e deixa Adèle enciumada. Em certo momento, por se sentir só, Adèle trai Emma com um colega de trabalho e confessa, em meio a uma discussão, que dormiu com o rapaz. A confissão de Adèle provoca o rompimento por parte de Emma.

Todo o processo é muito doloroso. Claro que eu torci pela volta das duas, mas a vida não é uma novela barata, na qual já sabemos que o final será feliz. Após um longo tempo distantes, Adèles marca um encontro em um bar e tenta uma reaproximação. Percebemos que Emma ainda a ama, apesar de dizer que não. Acho que todos nós já tivemos o coração destroçado por frases como “tenho um imenso carinho por você” ou algo similar. E quando vemos nosso amor nos dar as costas e ir embora, um vácuo é aberto em nosso peito, o mais fundo desespero e impotência.

Bonito também foi o desfecho do filme. Adèle, ao visitar uma exposição de Emma, vai com um vestido azul, como que fechando um ciclo em sua vida. Ela percebe a felicidade de Emma e sua nova parceira, percebe que Emma agora é um sucesso como artista plástica e que talvez seu lugar no coração de seu ex-amor seja o de uma grande amiga. O amor existe ainda entre as duas, mas ocupa um outro lugar.

Kechiche entre as duas grandes e belas atrizes

Kechiche entre as duas grandes e belas atrizes

Indico este filme para aqueles que amam uma bela história, belíssimas atuações e uma direção poética. Li em sites de revistas como Época que o diretor foi agressivo com as atrizes, que forçou ao limite suas atuações nas cenas de sexo, que foi um abuso, etc, etc. Bom, se ele foi grosseiro com as atrizes, eu não sei. O fato é que quando lidamos com um processo artístico as emoções estão à flor da pele e não é incomum relatos de brigas feias em estúdio. Mas neste caso me parece mais um campanha para denegrir um filme belíssimo. Mesmo que o diretor tenha sido grosseiro com as atrizes, digamos, é o produto artístico que está em análise. Vi uma entrevista de Adèle na qual ela elogia muito Kechiche e a beleza que foi ter passado pela experiência de atuar em “Azul”.

Felizmente a mediocridade de parte dos veículos de comunicação e de determinadas empresas fica obscurecida pela grandeza dessa produção, que na minha opinião, é um dos filmes de amor mais bonitos que vi.

O link para assistir o filme no you tube é: http://www.youtube.com/watch?v=baaD68O0Vl4 

3 discos, breves comentários

O primeiro desses três que ouvi foi ‘Father, Son, Holly Ghost’ (2011) o segundo álbum do duo ‘Girls’, uma banda indie dos Estados Unidos formada, a despeito do nome, por dois caras: Christopher Owens e Chet ‘JR’ White. O som me lembrou algo de Beach Boys, sem dúvida. E li depois que a crítica também achou isso, além de Elvis Costello e Buddy Holly. Disco bonito, doce, belas melodias, mas contém algo rock mais cru também. Ouço direto. Vale muito a pena.

Bonito e soturno é esse novo disco de Gal Costa, ‘Recanto’ (2011). O álbum tem 11 faixas, todas de Caetano Veloso, que também assina a produção junto com seu filho Moreno Veloso. São os recursos eletrônicos bem utilizados nas melodias e letras de Caê. Das 11 faixas, 9 são inéditas. O álbum tem seus altos e baixos, mas é na maior parte muito bom.

 

 

O novo disco do Tremendão, ‘Sexo’(2011) não é o melhor que ouvi dele quando o tema é amor e sexo e suas tramas (Posso citar aqui ‘Mulher’, de 1981). Eu gostei do disco, é divertido, mas as letras me parecem por vezes meio inconsistentes, talvez até pueril demais! As melodias também não estão entre as melhores de Erasmo Carlos. Mas é um disco que vale a pena ouvir, que tem energia boa, mesmo que soe pouco eletrizante na maior parte das 12 faixas. Como disse o cantor e compositor: ‘sexo e rock são coisas boas da vida’.

Um vinho bom. Um filme bom. Um livro ruim.

Resolvi juntar um vinho, um filme e um livro porque os três têm em comum o sexo nesse texto. Especificamente, apenas o vinho não é parte direta de um fato envolvendo o tema. Mas como todos sabem e como afirma o ditado espanhol: “Vinho e amor, nus têm mais sabor”. Então, vamos direto ao ponto.

Foto: Sandro Caldas

Eu nunca tinha experimentado a uva shiraz e faz tempo que esse desejo ronda o meu paladar. Eis que fui convidado por minha prima, que trouxe do Chile o ‘Trio’, um vinho de corte que mistura as uvas cabernet sauvignon, cabernet franc e shiraz. Olha, esse ménage à trois caiu muito bem em minha boca. O vinho é bem estruturado, como se diz, concentrado, encorpado, macio, e sua fusão com penne com camarão foi interessante. Um vinho que me deixou feliz. Recomendo, sem dúvida! A estreia com a shiraz não podia ter sido melhor.

 

 

Nas buscas por filmes que acabam não chegando no mercado brasileiro, como acho que é o caso aqui, encontrei o ótimo ‘Shortbus’ (2006), do diretor e roteirista John Cameron Mitchell. O filme conta a história da terapeuta sexual Sofia, vivida pela música e atriz Sook-Yin Lee, que torna-se amiga de uma casal de homossexuais masculinos logo após confessar para os dois, durante uma sessão na qual ela deveria ser a conselheira, que nunca teve um orgasmo.

Jamie (PJ DeBoy) e James (Paul Dawson) resolvem levar a mais nova amiga a um local chamado Shortbus. Lá, ela encontra de tudo. O sexo no ambiente não é proibido e existe uma sala onde as pessoas fazem sexo, como em um clube de swing (lá podem entrar solteiros). Sofia conhece novas pessoas, também com problemas sexuais, que aos poucos vão ajudá-la a descobrir do que ela realmente precisa se libertar para chegar ao orgasmo que sempre fingiu.

Uma terapeuta sexual que nunca atingiu o orgasmo!

O filme é muito bem dirigido e escrito e possui uma abordagem sem frescuras sobre o sexo, aliás, como deve ser. Por isso mesmo, as cenas de sexo explícito no filme não soam forçadas ou apelativas. Sim, o longa possui diversas cenas de sexo explícito. Mitchell disse que as colocou porque considera o sexo algo natural (e é mesmo!). Acho que o próprio filme não seria tão bom se essas cenas não fossem inclusas. Mitchell fez um filme maduro e ousado. Eu adorei!

‘Três’ é o terceiro romance da italiana Melissa Panarello e conta a história de um triângulo amoroso formado por Larissa, Gunther e George. No livro, Melissa tenta nos mostrar que o amor é mais do que apenas o encontro entre duas pessoas e que é possível amar mais de um ser humano ao mesmo tempo. Sim, pelo menos ela contribui de alguma forma para acabarmos com o pensamento antiquado de que só é possível amar e desejar uma pessoa de cada vez.

Porém, Panarello ainda não me convenceu como escritora. Eu não consegui me aproximar dos personagens e me envolver com a trama. Achei os protagonistas chatos, sem consistência, sem profundidade, a despeito das digressões sobre o caráter dos três, que vez ou outra Panarello enxerta no livro. O erotismo contido no romance também é pouco envolvente ou bem descrito e me soou muitas vezes forçado. Sempre me interessei por romances onde o erotismo é forte. Não é uma questão de tentar se excitar com a obra, mas de ter um autor que escreva bem sobre o assunto e que nos enriqueça com uma narrativa bem construída. Não encontrei isso em ‘Três’.

Trilogia da libertação

Foto: Sandro Caldas

Vou dar a dica de uma trilogia libertária que se chama Amores Comparados e foi editada em 2006: Sexo no Casamento, Separação e Fidelidade Obrigatória e Outras Deslealdades. Os livros foram escritos pela psicanalista e escritora, doutora Regina Navarro Lins e seu marido, o romancista e dramaturgo, Flávio Braga.

Quem acompanha, mesmo de forma muito esparsada, os textos que coloco aqui no Vinil sabe que sou admirador de Regina Navarro e suas ideias. O que me faz concordar de forma tão entusiasmada com seus livros é que eles são baseados na nossa história, na evolução dos costumes, nas modificações pelas quais a humanidade passou durante esses milênios, e possuem a intenção de fazer com que as pessoas vivam melhor. Ela justifica seus argumentos solidificando suas frases com exaustiva pesquisa. Não é invencionice de um pseudo-mestre. Claro, muitos podem discordar dos seus textos, mas não há como negar que é preciso repensar a maneira como nos relacionamos e encaramos o sexo. Pelo menos criticar a nossa realidade é fundamental, mesmo que tenhamos que confrontar nossos medos.

Os três livros possuem um pouco mais de 100 páginas cada um, sempre trazendo duas histórias escritas por Flávio Braga. Ao final de cada narrativa Regina Navarro faz sua análise sobre os assuntos tratados. A trilogia é bem didática e bastante informativa, fazendo-nos conhecer os hábitos de uma Roma antiga até o Rio de Janeiro dos anos 50, por exemplo. Leia abaixo dois trechos que analisam a história ‘Bodas na copa’, do livro Sexo no Casamento:

“Para se sentirem seguras as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida, é um elemento limitador e também responsável pela falta de tesão: a certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, pois elimina a sedução e a conquista”

“Atualmente, muita gente se mostra supresa quando percebe que sexo e casamento são incompatíveis. Mas todos sempre souberam disso. O casamento funcionou muito bem, durante séculos, porque o amor romântico e prazer sexual não podiam fazer parte dele”

É ler os livros, concordar ou não, mas sempre criticar e achar sua melhor maneira de viver a sua sexualidade de forma satisfatória para você e seu parceiro ou parceiros. Há muitas maneiras de se viver e nenhum modelo é melhor que outro, mas a reflexão é fundamental para elimiar culpas, pecados ou qualquer falsa moral que tem apenas uma única finalidade: dar poder a quem as inventa.

Ciúme, monogamia e o homem caçador

Ouvi em uma rádio daqui de Salvador uma psicóloga falando sobre ciúme, monogamia e a condição de caçador do homem. Bom, sobre o ciúme ela afirmou que é algo da alma, do espírito, e que as pessoas deviam tentar controlar para viver melhor. Certo, mas ser da
alma é complicado. Ela não apresentou nenhum argumento consistente sobre a origem
do ciúme, por exemplo.

Outra questão abordada foi a monogamia. Para ela, a monogamia é uma evolução, já
que a pessoa aprende a ceder, a conviver com os defeitos do outro etc. Achei outra
balela, quando sabemos que a maioria vive preso à monogamia por questões morais,
religiosa, etc.

O último quesito foi a condição do homem de caçador. Para ela, o homem conquistar
a mulher é biológico, já que é o homem sempre foi o caçador. Para ela, é uma inversão a
mulher ir atrás, ser mais agressiva. Achei outra babaquice dessa profissional, que parece não enxergar as mudanças.

Por isso, resolvi fazer uma pequena entrevista com a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins. A questão não é escolher alguém com uma visão com a qual eu corrobore. O fato é que quando lidamos com determinadas questões não podemos ficar no reino do achismo. Essa psicóloga pode ter suas convicções pessoais, mas não podemos dizer que ela seja uma profissional instruída, que solidifique seus argumentos com a consistência do estudo, da perspectiva histórica, da reflexão sobre as mudanças dos costumes sociais.

Confiram abaixo as respostas de Dra. Regina Navarro Lins sobre essas três questões. Respostas que eu concordo inteiramente! Agradeceria se vocês emitissem suas opiniões.

Doutora Regina Navarro Lins

CIÚME

A qualquer momento, inesperadamente, pode surgir o ciúme numa relação amorosa: na
fase da conquista, no período da paixão, durante o namoro ou casamento e até mesmo
depois de tudo terminado. O ciúme envolve uma espécie de ansiedade de abandono. As
atitudes ciumentas alimentam essa ansiedade, ao mesmo tempo que tentam encontrar
alívio para ela. Para superar os crescentes sentimentos de impotência, o ciumento se
esforça por sufocar o outro. Seus interrogatórios e pedidos de garantia de fidelidade
fazem parte das tentativas de controle.

Alguns consideram o ciúme universal, inato. Outros, entre os quais me incluo,
acreditam que sua origem é cultural, mas é tão valorizado, há tanto tempo, que
passou a ser visto como parte da natureza humana. Para o psicólogo Ralph Hupka, da
Universidade do Estado da Califórnia, o ciúme é um constructo social: “É improvável
que os seres humanos venham ao mundo ‘pré-programados’, digamos assim, para
serem emocionais com qualquer coisa que não sejam as exigências de sua sobrevivência
imediata.”

O psiquiatra Dinesh Bhugra, do Instituto de Psiquiatria em Londres, argumenta que
o ciúme é resultado da sociedade capitalista. Segundo ele, as sociedades capitalistas
colocam um prêmio nas posses e propriedades pessoais, que se estende a possuir
outras pessoas. A sociedade capitalista encoraja a “tratar o objeto amoroso como se
fosse um objeto literal, assumindo que o parceiro seja posse ou propriedade pessoal do
indivíduo”.

MONOGAMIA

Na pesquisa que fiz no meu site e que de origem aos livros ‘A Cama na Rede’ e ‘Se eu
fosse você…’, 72% das pessoas declararam ter tido relações extraconjugais. Apesar de
todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, amigos,
religião – nos estimularem a investir nossa energia sexual em uma única pessoa, as
relações extraconjugais são muito comuns. Uma porcentagem significativa de homens e
mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.

As mais diversas justificativas apontam que as relações extraconjugais ocorrem por
problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois. Mas poucos dizem o
óbvio: as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque variar é bom.

Um casamento pode ser plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e
sexual mesmo havendo relações extraconjugais. Afinal, todos estão constantemente
expostos a estímulos sexuais novos provenientes de outros, que não o parceiro atual.
É possível que esses estímulos não tenham efeito na fase inicial da relação, em que
há total encantamento pelo outro. Entretanto, existem e não podem ser eliminados. A
maioria dos seres humanos já sentiu vontade de viver uma relação com alguém que
lhe agradou, e isso não só devido a fatores físicos. Os mais variados aspectos podem
provocar o desejo, mas somos historicamente limitados pela ideia de exclusividade.

O HOMEM CAÇADOR

Essa resposta mostra o desconhecimento total da história por essa psicóloga.

O patriarcado, uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e
parentesco seguem a linha masculina, se instalou há cinco mil anos. As mulheres são
consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação.
Hoje, sabemos que antes havia uma sociedade de parceria entre homens e mulheres.

Superior/inferior, dominador/dominado. A ideologia patriarcal dividiu a humanidade
em duas metades, acarretando desastrosas consequências. Apoiando-se em dois pilares
básicos — controle da fecundidade da mulher e divisão sexual de tarefas — a sujeição
física e mental da mulher foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la
limitada a tarefas específicas.

A fidelidade feminina sempre foi uma obsessão para o homem. É preciso proteger
a herança e garantir a legitimidade dos filhos. Isso torna a esposa sempre suspeita,
uma adversária que requer vigilância absoluta. Temendo golpes baixos e traições, os
homens lançaram mão de variadas estratégias: manter as mulheres confinadas em casa
sem contato com outros homens, cinto de castidade e até a extirpação do clitóris para
limitar as pulsões eróticas. As adúlteras são apedrejadas, afogadas fechadas num saco,
trancadas num convento ou, como acontece hoje no Ocidente, espancadas ou mortas por
maridos ciumentos, protegidos por leis penais lenientes com os crimes passionais. Ao
homem, por não haver prejuízo para sua linhagem, concede-se o direito de infidelidade
conjugal.

Os homens, que aparentemente só têm a lucrar num sistema que os coloca numa posição
superior, são seduzidos a lutar pela sua manutenção para continuar usufruindo dessas
vantagens. Entretanto, pagam um preço elevado para corresponder à expectativa de ser
homem patriarcal. Como resultado da divisão da humanidade, assistimos à divisão dos
seres humanos. Para se adequar ao modelo patriarcal de homem e mulher, cada pessoa
tem que negar parte do seu eu, na tentativa de ser masculina ou feminina. Homens e
mulheres são simultaneamente ativos e passivos, agressivos e submissos, fortes e fracos,
viris e femininos, mas perseguir o mito da masculinidade significa sacrificar uma parte
de si mesmo, abrir mão de sua autonomia.

A evolução das sociedades de parceria foi mutilada, sofrendo mudança radical. A
mente humana foi remodelada em um novo tipo de mente, e a cultura dominada pelo
homem, autoritária e violenta, acabou sendo vista como normal e adequada, como se
fosse característica de todos os sistemas humanos. A lembrança de que por milhares de
anos houve organizações sociais diferentes foi suprimida. O longo tempo — quase
cinco mil anos — auxiliado pelo hábito e o desconhecimento de outra alternativa, se
encarregou da normalidade. Dessa forma, os novos valores penetraram nos mais
profundos recônditos da alma humana e durante muito tempo foram tidos como
verdades imutáveis.

Para o aprofundamento desses e outros assuntos, leiam o livro ‘A cama na varanda’, de Regina Navarro Lins. É um livro que nos faz pensar, refletir, e não um amontoado de clichês e verdades discutíveis.