Os efeitos da Nova Hollywood

Quem nunca viu um filme de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, George Lucas ou Steven Spielberg? ‘O Poderoso Chefão’, ‘Taxi Driver’, ‘Star Wars’ e ‘Tubarão’ estão na memória de milhões de pessoas pelo mundo. Citei apenas esses quatro diretores, mas o universo é bem maior, com muito mais filmes que mudaram o cenário de Hollywood no final dos anos 60 e durante a década de 70. O tempo dos velhos estúdios, com diretores submissos e roteiristas sendo tratados como lixo, tinha passado. Agora, os diretores eram autores, ou achavam que eram, e os roteiristas também se transformaram em estrelas. Essa nova realidade foi chamada de Nova Hollywood.

Essa transformação, na qual os cineastas passaram a ter poder e produziram filmes ousados e revolucionários, além do apogeu e declínio dessa geração, é o que trata o livro ‘Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood’, do jornalista Peter Biskind.

O livro é escrito como um roteiro cinematográfico, ora dando uma panorâmica ora focalizando um personagem desde sua infância até sua transformação em cineasta, roteirista ou os dois, sempre como um script não-linear, entremeado de detalhes, mas que nunca se perde em sua narrativa.

É impressionante percebermos as fraquezas desses grandes nomes do cinema, como grande parte era insegura do seu talento. Até mesmo Coppola, que se achava um deus na Terra, chegou à conclusão que sua megalomania estragou sua carreira. Impressionante, também, é descobrirmos as dificuldades, conchavos, brigas, para que um filme fosse feito. Quase não desfrutaríamos de obras como o ‘Poderoso Chefão’ ou ‘Chinatown’, de Roman Polanski.

Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda, em 'Easy Rider' (Sem Destino), de 1969. Um dos primeiros filmes da Nova Hollywood

O problema da maioria dos cineastas da Nova Hollywood foi justamente o seu grande talento. Antes dessa geração, um diretor levava anos para se estabelecer, subindo aos poucos, degrau por degrau. Nos anos 70, como mesmo afirma Martin Scorsese, depois de apenas um único filme o cineasta era chamado de gênio, adulado pela imprensa, e poucos conseguiram segurar a onda do elogio exacerbado. É muito mais fácil lidar com o fracasso, como ele mesmo sentencia.

A Nova Hollywood conseguiu domar os estúdios, mas apenas em parte. Fica claro que a força do mercado estava engolindo todo mundo novamente e os filmes de autor estavam, aos poucos, perdendo força. Depois de sucessos como ‘Tubarão’, de Spielberg, e principalmente ‘Star Wars’, de Lucas, ficou perceptível a mudança. Esses filmes geraram milhões e milhões de dólares, reforçando e estabelecendo a cultura do blockbuster e dos multiplexes. Mas, como quem ler o livro vai saber, foi o ‘O Poderoso Chefão’ que deu início à cultura do blockbuster com sua estratégia de marketing inovadora.

Stanley Kubrick dirigindo 'Laranja Mecânica (Clockwork Orange), de 1971


Com egos gigantescos e autoindulgência acima dos limites, os diretores da Nova Hollywood não perceberam que estavam jogando como a velha Hollywood e o dinheiro se tornou a meta. No entanto, os filmes que produziam estavam perdendo força, o público estava mudando. Os filmes não arrecadavam muito e eram uma fortuna a cada novo projeto. Coppola e Scorsese culpam filmes como ‘Star Wars’ pela mudança. O público já não queria filmes que fizessem pensar, mas apenas uma mera forma de entretenimento.

A transformação ocorreu, sim, e até hoje a imensa maioria de filmes produzidos por Hollywood é uma porcaria. No entanto, desde os anos 80, período da queda definitiva da Nova Hollywood, surgiram cineastas autorais como Quentin Tarantino e os irmãos Coen. Sempre haverá grandes diretores rodando grandes filmes, em qualquer época.

O sonho de alguns cineastas de aliar arte – sendo um diretor autoral, como cineastas europeus como Godard e Fellini – e dinheiro, fracassou. Megalomania, extrema autoconfiança, drogas e mulheres, foram a perdição de parte deles. Coppola, tristemente, diz: “Woody Allen se senta, escreve um roteiro, sai e faz um filme, um depois do outro. A carreira dele é a que eu mais admiro. Sempre desejei ter feito o que ele fez”. Nos anos 70 Woody fez grandes filmes como ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’ e ‘Manhattan’ e continua no seu ritmo de um filme por ano.

‘Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood’ é o melhor livro sobre cinema que li até hoje.

A imagens dos filmes foram tiradas daqui. Tem muitas outras lindas fotografias.

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Crítica: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos

Sempre aguardo um novo filme de Woody Allen com grande expectativa. A ironia com que discute as relações humanas e seus valores, sem cair no óbvio, faz com que Woody seja um dos meus diretores prediletos. Porém, infelizmente, terei que dizer que ‘Você vai conhecer o homem dos seus sonhos’ é o pior filme do cineasta desde o ótimo ‘Desconstruindo Harry’, de 1997. Woody Allen, durante esses 13 anos, fez um filme por ano, alguns muito bons, como ‘Vicky Cristina Barcelona’ e ‘Match Point’, o melhor de todos para mim. No entanto, a maioria não me convenceu.

Neste novo filme encontramos um Woody Allen em modo automático. Ou seja, reconhemos que é um filme de Woody: longos planos nos quais os personagens dialogam, por exemplo. Tecnicamente podemos dizer que é um filme bem feito, no entanto os personagens não são bem desenvolvidos. Não conseguem ir além de um rabisco de personalidade, sem nunca compreendermos quem realmente são eles ou o que discutem. Excelentes atores como Naomi Watts e Anthony Hopkins não se destacam.

‘Voce vai conhecer o homem dos seus sonhos’ fala de Roy (Josh Brolin), um escritor decadente, insatisfeito com o casamento. Ele é casado com Sally (Naomi Watts), também insatisfeita com o casamento, que sonha em ter sua própria galeria de arte; trabalha numa das mais prestigiadas de Londres e se apaixona pelo seu chefe, Greg (Antonio Banderas). Na outra ponta temos o pai de Sally, Alfie (Anthony Hopkins), que se separa da sua esposa de décadas para viver uma vida de “jovem” solteiro. Alfie acaba propondo à prostituta Charmaine (Lucy Punch) que abandone a atual vida para casar com ele, ela aceita. Também temos a mãe de Sally, Helena (Gemma Jones), que não aceita a separação e passa a consultar uma “vidente” e a seguir seus conselhos. Voltemos a Roy. Na crise na qual vive, acaba se interessando pela bela vizinha Dia (Freida Pinto), que é noiva e está prestes a se casar…ufa!!!

Hopkins e Watts

Se bem eu entendi, o roteiro tenta nos dizer que as relações humanas são frágeis, instáveis, e em algum momento da vida podemos perder o interesse pelo parceiro e tentar novas possibilidades de existência. Porém, só para citar um falha, por qual razão Roy sai de um casamento e entra rapidamente em outro, com Dia (a vizinha). Sim, a vizinha abandona o noivo e fica com Roy. Não há discussão inteligente (e estamos falando de Woody Allen!) sobre, por exemplo, como o vivemos a instituição casamento hoje em dia ou a fidelidade, sei lá! O casamento de Greg também vai mal e para a decepção de Sally, ele caba tendo um caso com uma artista plástica, amiga de Sally.

Por conta dessa insatisfação humana e da fragilidade das relações, Woody afirma: é melhor a ilusão que a crua e chata realidade. E é com essa mensagem, por meio do diálogo de dois personagens, que termina o filme. Mensagem esta que não faz sentido para mim, talvez porque, penso eu agora, a ilusão pode se tornar um dia a realidade chata e desgastante. Vamos utilizar a ilusão para deixar a vida mais colorida e criativa, sendo ela parte da nossa realidade. Enfim, metafísico demais?

Ficaria mais feliz se Woody fizesse um filme a cada 5 anos, quem sabe, e nos presenteasse com uma obra-prima. Espero pelo próximo.