Paixão, poesia e rock and roll

Foto: Bruno Almeida/Comunika Press

O interior da antiga Igreja da Nossa Senhora da Barroquinha, atual Espaço Cultural da Barroquinha, é o cenário no qual Paul Verlaine (1844 – 1896) e Arthur Rimbaud (1854 – 1891) discutem sua paixão um pelo outro, declamam seus versos cortantes, refletem sobre os costumes sociais do século XIX e fazem sexo quase rasgando a pele.

Estamos falando de ”Pólvora e Poesia”, peça dirigida por Fernando Guerreiro, com texto do dramaturgo e telenovelista Alcides Nogueira, que foi vencedora do Prêmio Shell 2001. O espetáculo estreou em Salvador neste sábado (04) e vai até 19 de dezembro.

A peça traz Talis Castro (Rimbaud) e Caio Rodrigo (Verlaine) em atuações intensas, que exalam o fervor intelectual dos dois grandiosos poetas franceses. Os atores utilizam apenas uma longa mesa retangular partida ao meio – formando duas ladeiras que se encontram como a letra ”M”-, que simboliza o afastamento inicial dos personagens bem como sua aproximação posterior. Na mesa eles se agridem, fazem sexo, dialogam, se estapeiam e fazem as pazes.

Verlaine e Rimbaud

Rimbaud é mais visceral, rebelde, e a todo momento convida Verlaine a criticar sua própria forma de pensar, que tende a se adequar aos modelos da época, embora nunca sem conflitos internos. É durante esse embate intelecutal que nos damos conta dos nossos próprios valores, do que consideramos certo e errado. Dessa forma, o texto nos faz refletir sobre o julgamento que fazemos das coisas e principalmente sobre a moralidade débil na qual insistimos em aprisionar o amor.

O espetáculo é pura paixão, com toda a sua carga destrutiva, quase jorrando sangue. Um constante choque entre corpos e frases, onde prazer e dor estão juntos. Por isso, apesar do Rock ter sugido na década de 50, não há outro estilo musical que possa traduzir a relação entre Rimbaud e Verlaine. É aí que entra a guitarra do músico Juracy do Amor, conhecido como Beef. Suas intervenções musicais se encaixam de forma precisa na tumultuada existência desses escritores, tornando-se versos sem palavras.

Paixão, poesia e rock and roll é a tríade desse espetáculo explosivo que nos revela parte do espírito de dois homens extremamente sensíveis.

Serviço:

O que: Espetáculo Pólvora e Poesia (direção: Fernando Guerreiro. Texto: Alcides Nogueira)

Onde:  Espaço Cultural Barroquinha – rua do Couro, em frente à Praça Castro Alves (135 lugares)

Quando: Até 19 de dezembro

Horário: Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h

Quanto: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia entrada). À venda no local.

Clandestinos

Adelaide de Castro em cena de 'Clandestinos'

Amo televisão, cresci vendo TV, absorvi muito da TV e continuo a utlizando para me informar. Intelectuais ou talvez falsos pensadores, muitos deles, apedrejam a televisão. Eu discordo de forma veemente quando dizem de boca cheia que a televisão não serve pra nada, que aliena o povo. Penso que não há veículo de comunicação ou qualquer tecnologia criada pelo homem que não sirva para os dois fins: bem ou mal!

Adoro quando assisto algo que me entusiasma e de forma imediata me transporta para a pele das situações, das pessoas que vivem e sonham. Neste caso, sonham em ser atores e atrizes. Saem dos mais longíquos cantos do país, de interiores desconhecidos, para se apesentar durante 90 segundos na esperança de ser escolhido e participar da peça “Clandestinos” (depois virou a série de TV), escrito e dirigido pelo excelente pernambucano João Falcão, que admiro profundamente. Sua mulher, Adriana Falcão, que não fica atrás diante de minha admiração, ajudou o marido no projeto.

Tudo começou quando João Falcao, em maio de 2008, abriu inscrições no site http://www.clandestinos.art.br convocando jovens do Brasil inteiro a partiparem de oficinas gratuitas de dramaturgia no Rio de Janeiro. O objetivo era formar um elenco para a encenar a futura peça teatral “Clandestinos”, que se tornaria a primeira montagem da Companhia Instável de Teatro. Após teste com três mil candidatos, 14 foram selecionados.

A encenação obteve grande sucesso e atraiu os olhares da Rede Globo, que convidou o diretor para transformar o espetéculo em série de TV: “Clandestinos – O Sonho Começou”. Ela foi adaptada para a telinha, mas não mudou em nada, inclusive o elenco é o mesmo, com as mesmas histórias.

Em “Clandestinos” o diretor Fábio Enriquez (todos os personagens têm seus nomes originais) quer recrutar novos talentos para encenar um texto baseado nas vidas dessas pessoas. Sem nenhuma frase no papel, Fábio abre as inscrições e começa os testes. Dessa forma, ouve os peculiares, emocionantes, engraçados relatos das vidas desses futuros atores. Foi o que João Falcão fez.

"Clandestinos" no teatro

Vi o primeiro episódio de “Clandestinos” pelo “faça você mesmo sua programação”, ou seja, o You Tube;  o segundo, pela TV. Me paixonei em especial por Adelaide de Castro, 19 anos, que saiu de Três Corações, terra de Pelé e próxima ao ET de Varginha, como ela mesma diz. Adelaide vem de um família pobre, como milhões de famílias brasileiras. Vida difícil, teve dias que não tinha o que comer. Tocava saxofone em uma bandinha da cidade, animando velórios e outras ocasiões sociais. Quando soube do teste pata “Clandestinos”, não pensou duas vezes: arrumou sua mala, pegou seu sax, pouco dinheiro no bolso e partiu para o Rio sem nem ter onde dormir.

Eu sempre me comovo com esse tipo de história, justamente porque gostaria de ter ser um dos escolhidos daquele teste; porque é o tipo de sonho que carrego em mim. Um sonho artístico, de viver da arte. Acho lindo um menina luminosa, talentosa, simpática, simples e linda como Adelaide correr atrás do seu objetivo de forma destemida e por fim, conseguir. Eu torço sinceramente para que ela se tranforme numa grande atriz, numa grande música.

“Clandestinos” não é bom apenas porque deu oportunidade à joves talentos; outros projetos também o fizeram, como a peça “O despertar da primavera”, igualmente bem-sucedido. A série é bem dirigida, bem escrita, bem interpretada. Televisão de qualidade.

Abaixo vocês conferem o minidocumentário de João Falcão sobre a série e no outro vídeo, o teste de Adelaide para o programa.

O despertar de uma paixão

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despertar

Os atores Pierre Baitelli e Malu Rodrigues

Posso contar nos dedos das mãos o número de vezes que fui ao teatro. Não que eu não goste, pelo contrário, mas a facilidade em ver filmes e ouvir discos é muito maior para mim, principalmente com o advento da internet, que possibilita o contato com milhares de opções e de forma gratuita. E claro, tanto a música quanto o cinema são as formas de arte pelas quais sou apaixonado.

O Submarino, A Bofetada (2 vezes), Novíssimo Recital da Poesia Baiana (2 vezes), Suburbano Coração, Casas de Cazuza e Quem Matou Maria Helena foram os espetáculos que vi até hoje.

Ontem, 21, antes de dormir, resolvi passar alguns canais e me deparei com o programa da TVE chamado “Arte”, apresentado pelo ator Sérgio Britto. Deixei rolar e simplesmente adorei o que vi: O Despertar da Primavera. Foi a primeira vez que tive vontade de viajar para ver um espetáculo teatral. Tenho esperança da peça aportar por aqui..estou rezando para isso! Temos o Teatro Castro Alves, oras!

Charles Möeller no lançamento do seu livro Os Reis dos Musicais

Charles Möeller no lançamento do seu livro "Os Reis dos Musicais"

A peça é dirigida por Charles Möeller com supervisão musical de Cláudio Botelho, dois veteranos dos musicais, com 22 encenações no currículo…e os caras são novos! Graças a Deus e a eles o mercado de musicais no Brasil cresceu e pode ser considerado algo respeitável, a ponto da Broadway liberar os direitos da peça para que os dois brasileiros fizessem as modificações que achassem cabíveis.

Letícia Colin é Ilse

Letícia Colin é Ilse

Eu sempre fui fascinado pelo universo dos jovens, dos adolescentes em particular, porque é uma fase muito estranha, de modificações extremas, que provocam maremotos internos, tornados de hormônios. E durante esses anos vi a maioria dos textos sobre este universo descambar para o clichê vergonhoso.

Imagine a repressão da Alemanha do final do século XIX? Pois é, nesse cenário onde questionar era obsceno vem o excelente escritor Frank Wedekind e coloca em seu texto, de forma crua e genial, questionamentos a respeito do incesto, da masturbação, da virgindade, do estupro, do aborto, da homossexualidade etc etc. Por conta disso a peça só pôde ser encenada de forma profissional 83 anos após ser escrita!

Rodrigo Pandolfo (Moritz), Pierre Baitelli (Melchior) e Malu Rodrigues (Wendla)

Rodrigo Pandolfo (Moritz), Pierre Baitelli (Melchior) e Malu Rodrigues (Wendla)

Eu fui atrás de tudo a respeito dos atores, dos diretores, das músicas, e de fato tudo que ouvi e li só me fez ficar mais apaixonado pela montagem brasileira da peça de Wedekind. Saí hoje para comprar o livro, mas não achei em lugar nenhum. Nem na Estante Virtual, que costumo encontrar tudo, o livro estava disponível! Decepção!

Bom, abaixo retirei um texto do site do diretor, que explicar melhor a peça, seu contexto histórico etc. Clicando aqui você pode ver o site completo, com muitas fotos, ficha técnica e outras histórias sobre a montagem. Clicando aqui você pode fazer de forma gratuita o download das músicas que fazem parte do espetáculo.

O Despertar Original e seu autor

Frank Wedekind

Frank Wedekind

‘O Despertar da Primavera’ se passa na Alemanha no final do século XIX e conta a história de Melchior Gabor e Wendla. Ele, um jovem brilhante e rebelde que ousa questionar os dogmas vigentes. Ela, integrante de uma família de classe média alta, educada por uma mãe com rígidos princípios morais e religiosos. O encontro dos dois irá provocar a explosão do desejo, da vontade de conhecer o sexo e o amor. A história deles se cruza com a de vários outros jovens, como o oprimido e trágico Moritz ou a bela Ilse, que tem a coragem de usufruir de sua liberdade e se aventurar pelo mundo. Todos têm que enfrentar o peso da repressão e do conservadorismo, nos mais diversos estágios da sociedade. Questões como abuso sexual, violência doméstica, gravidez na adolescência, prostituição e suicídio e homossexualismo, entre outros, vêm à tona na vida desses jovens.

A peça original denunciava os preconceitos e o conservadorismo das três principais instituições que regem a educação do homem: a família, a igreja e a escola. É considerada um dos precursores do expressionismo, movimento artístico que se caracterizou por uma oposição ao naturalismo. O teatro expressionista é anti-realista, utilizando-se, quase sempre, de uma dramaturgia combativa com ênfase nos conflitos sociais e de um estilo de cenografia que optava pela fantasia, com espaços que não são mero fundo para a ação teatral, mas interagem e atuam como um novo personagem.

O original de Wedekind causou imensa polêmica na época de seu lançamento por tocar em tabus e levantar a bandeira da liberdade, questionando a repressão tanto no seio da família quanto no sistema de ensino alemão. Sem encontrar editores que bancassem o projeto, o próprio autor financiou a publicação, em edição limitada. A primeira montagem foi apenas em 1906, tendo o jovem Peter Lorre no papel de Moritz e Lotte Lenya como Ilse, mas logo o espetáculo foi proibido, e em 1908 foi vetada qualquer manifestação sobre ‘O Despertar’, com punições que poderiam levar os infratores para a prisão.

Em 1912, Wedekind conseguiu novamente montar o texto na Inglaterra, mas somente em alemão e com portas fechadas.  Nos Estados Unidos, a autorização para uma versão em inglês foi obtida apenas em 1917, mas um dia antes da estreia, em Nova York, o espetáculo foi novamente vetado. Com a mobilização da classe artística local, foi possível uma única apresentação. No ano seguinte, Wedekind faleceu e não pôde assistir ao renascimento da sua peça, que, com o apogeu do nazismo, ficou esquecida durante anos.

A filha de Wedekind, Kadidja, se exilou na América e conseguiu montar o espetáculo na Universidade de Chicago, em 1958. Logo, ‘O Despertar da Primavera’ se tornou obrigatório nas escolas norte-americanas e virou um hino entre os jovens, com uma série de encenações ao redor do mundo.

A primeira montagem profissional e não adulterada de ‘O Despertar da Primavera’ se deu apenas em 1974 na Inglaterra, 83 anos após o texto ter sido escrito. A produção foi extremamente incensada e reverenciada pela crítica, e muito de sua força vinha da brilhante tradução de Edward Bond, “escrupulosamente fiel à poesia e ironia de Wedekind”, segundo o London Times. Esta versão inglesa foi a base de todo o trabalho de adaptação para o musical.

Wedekind foi, sobretudo, um feroz inimigo da hipocrisia social e combateu dogmas da sociedade, especialmente na sua negação dos instintos sexuais. Escreveu espetáculos polêmicos como ‘O Espírito da Terra’, ‘A Caixa de Pandora’, e ‘A Morte e o Demônio’, que compunham a trilogia ‘Lulu’. “Ele pagou um alto preço por ter coragem de desmistificar os tabus e celebrar a vida. A cultura ocidental reverencia a morte, mas recusa o ponto de partida, que é o sexo. Ele sabia que a informação era uma arma poderosa. A ignorância leva ao extermínio”, finaliza Charles.