Ciúme, monogamia e o homem caçador

Ouvi em uma rádio daqui de Salvador uma psicóloga falando sobre ciúme, monogamia e a condição de caçador do homem. Bom, sobre o ciúme ela afirmou que é algo da alma, do espírito, e que as pessoas deviam tentar controlar para viver melhor. Certo, mas ser da
alma é complicado. Ela não apresentou nenhum argumento consistente sobre a origem
do ciúme, por exemplo.

Outra questão abordada foi a monogamia. Para ela, a monogamia é uma evolução, já
que a pessoa aprende a ceder, a conviver com os defeitos do outro etc. Achei outra
balela, quando sabemos que a maioria vive preso à monogamia por questões morais,
religiosa, etc.

O último quesito foi a condição do homem de caçador. Para ela, o homem conquistar
a mulher é biológico, já que é o homem sempre foi o caçador. Para ela, é uma inversão a
mulher ir atrás, ser mais agressiva. Achei outra babaquice dessa profissional, que parece não enxergar as mudanças.

Por isso, resolvi fazer uma pequena entrevista com a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins. A questão não é escolher alguém com uma visão com a qual eu corrobore. O fato é que quando lidamos com determinadas questões não podemos ficar no reino do achismo. Essa psicóloga pode ter suas convicções pessoais, mas não podemos dizer que ela seja uma profissional instruída, que solidifique seus argumentos com a consistência do estudo, da perspectiva histórica, da reflexão sobre as mudanças dos costumes sociais.

Confiram abaixo as respostas de Dra. Regina Navarro Lins sobre essas três questões. Respostas que eu concordo inteiramente! Agradeceria se vocês emitissem suas opiniões.

Doutora Regina Navarro Lins

CIÚME

A qualquer momento, inesperadamente, pode surgir o ciúme numa relação amorosa: na
fase da conquista, no período da paixão, durante o namoro ou casamento e até mesmo
depois de tudo terminado. O ciúme envolve uma espécie de ansiedade de abandono. As
atitudes ciumentas alimentam essa ansiedade, ao mesmo tempo que tentam encontrar
alívio para ela. Para superar os crescentes sentimentos de impotência, o ciumento se
esforça por sufocar o outro. Seus interrogatórios e pedidos de garantia de fidelidade
fazem parte das tentativas de controle.

Alguns consideram o ciúme universal, inato. Outros, entre os quais me incluo,
acreditam que sua origem é cultural, mas é tão valorizado, há tanto tempo, que
passou a ser visto como parte da natureza humana. Para o psicólogo Ralph Hupka, da
Universidade do Estado da Califórnia, o ciúme é um constructo social: “É improvável
que os seres humanos venham ao mundo ‘pré-programados’, digamos assim, para
serem emocionais com qualquer coisa que não sejam as exigências de sua sobrevivência
imediata.”

O psiquiatra Dinesh Bhugra, do Instituto de Psiquiatria em Londres, argumenta que
o ciúme é resultado da sociedade capitalista. Segundo ele, as sociedades capitalistas
colocam um prêmio nas posses e propriedades pessoais, que se estende a possuir
outras pessoas. A sociedade capitalista encoraja a “tratar o objeto amoroso como se
fosse um objeto literal, assumindo que o parceiro seja posse ou propriedade pessoal do
indivíduo”.

MONOGAMIA

Na pesquisa que fiz no meu site e que de origem aos livros ‘A Cama na Rede’ e ‘Se eu
fosse você…’, 72% das pessoas declararam ter tido relações extraconjugais. Apesar de
todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, amigos,
religião – nos estimularem a investir nossa energia sexual em uma única pessoa, as
relações extraconjugais são muito comuns. Uma porcentagem significativa de homens e
mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.

As mais diversas justificativas apontam que as relações extraconjugais ocorrem por
problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois. Mas poucos dizem o
óbvio: as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque variar é bom.

Um casamento pode ser plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e
sexual mesmo havendo relações extraconjugais. Afinal, todos estão constantemente
expostos a estímulos sexuais novos provenientes de outros, que não o parceiro atual.
É possível que esses estímulos não tenham efeito na fase inicial da relação, em que
há total encantamento pelo outro. Entretanto, existem e não podem ser eliminados. A
maioria dos seres humanos já sentiu vontade de viver uma relação com alguém que
lhe agradou, e isso não só devido a fatores físicos. Os mais variados aspectos podem
provocar o desejo, mas somos historicamente limitados pela ideia de exclusividade.

O HOMEM CAÇADOR

Essa resposta mostra o desconhecimento total da história por essa psicóloga.

O patriarcado, uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e
parentesco seguem a linha masculina, se instalou há cinco mil anos. As mulheres são
consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação.
Hoje, sabemos que antes havia uma sociedade de parceria entre homens e mulheres.

Superior/inferior, dominador/dominado. A ideologia patriarcal dividiu a humanidade
em duas metades, acarretando desastrosas consequências. Apoiando-se em dois pilares
básicos — controle da fecundidade da mulher e divisão sexual de tarefas — a sujeição
física e mental da mulher foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la
limitada a tarefas específicas.

A fidelidade feminina sempre foi uma obsessão para o homem. É preciso proteger
a herança e garantir a legitimidade dos filhos. Isso torna a esposa sempre suspeita,
uma adversária que requer vigilância absoluta. Temendo golpes baixos e traições, os
homens lançaram mão de variadas estratégias: manter as mulheres confinadas em casa
sem contato com outros homens, cinto de castidade e até a extirpação do clitóris para
limitar as pulsões eróticas. As adúlteras são apedrejadas, afogadas fechadas num saco,
trancadas num convento ou, como acontece hoje no Ocidente, espancadas ou mortas por
maridos ciumentos, protegidos por leis penais lenientes com os crimes passionais. Ao
homem, por não haver prejuízo para sua linhagem, concede-se o direito de infidelidade
conjugal.

Os homens, que aparentemente só têm a lucrar num sistema que os coloca numa posição
superior, são seduzidos a lutar pela sua manutenção para continuar usufruindo dessas
vantagens. Entretanto, pagam um preço elevado para corresponder à expectativa de ser
homem patriarcal. Como resultado da divisão da humanidade, assistimos à divisão dos
seres humanos. Para se adequar ao modelo patriarcal de homem e mulher, cada pessoa
tem que negar parte do seu eu, na tentativa de ser masculina ou feminina. Homens e
mulheres são simultaneamente ativos e passivos, agressivos e submissos, fortes e fracos,
viris e femininos, mas perseguir o mito da masculinidade significa sacrificar uma parte
de si mesmo, abrir mão de sua autonomia.

A evolução das sociedades de parceria foi mutilada, sofrendo mudança radical. A
mente humana foi remodelada em um novo tipo de mente, e a cultura dominada pelo
homem, autoritária e violenta, acabou sendo vista como normal e adequada, como se
fosse característica de todos os sistemas humanos. A lembrança de que por milhares de
anos houve organizações sociais diferentes foi suprimida. O longo tempo — quase
cinco mil anos — auxiliado pelo hábito e o desconhecimento de outra alternativa, se
encarregou da normalidade. Dessa forma, os novos valores penetraram nos mais
profundos recônditos da alma humana e durante muito tempo foram tidos como
verdades imutáveis.

Para o aprofundamento desses e outros assuntos, leiam o livro ‘A cama na varanda’, de Regina Navarro Lins. É um livro que nos faz pensar, refletir, e não um amontoado de clichês e verdades discutíveis.

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Minha 1ª entrevista: Rádio Nacional Amazônia

Nesta segunda-feira (18), às 13h40 (horário de Brasília), concedi minha primeira entrevista. Primeira mesmo, já que nunca tinha sido entrevistado por qualquer outro veículo de comunicação. Uma experiência muito interessante. Foi como se minhas opiniões publicadas aqui no Vinil fossem importantes e merecessem atenção dos ouvintes da Rádio Nacional da Amazônia, localizada em Brasília. Sim, não foi uma rádio de Salvador que descobriu o Vinil, mas um veículo da capital do Brasil. A Rádio Nacional também cobre parte da Bahia.
O nome do programa é Mosaico e quem apresenta é o jornalista Morillo Carvalho, a quem agradeço por ter gostado deste espaço. Agradeço também a Gustavo Oliveira, quem entrou em contato comigo para agendar a entrevista.
Abaixo vocês conferem a entrevista. Adianto que o nervosismo é perceptível, mas acho que me saí relativamente bem. Tive que publicá-la em vídeo, já que o arquivo em mp3 não entrava. No final, acho que ficou melhor. De fundo vocês poderão ver imagens de algumas referências culturais importantes para mim, por motivos diversos.


Mosaico – o Mosaico vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 13h30, e faz um passeio pelas artes, desde a cultura digital contemporânea à literatura brasileira, passando por música, artes cênicas e artes visuais. A trilha sonora do Mosaico será escolhida pelos ouvintes: a cada semana, uma lista de três gêneros ou temas vai ser apresentada e, por meio de voto por telefone ou internet, o que o público escolher é o que toca na semana seguinte. E para dar continuidade à tradição de radiodramaturgia conquistada pela Nacional da Amazônia, às sextas-feiras o ouvinte acompanhará um conto da literatura brasileira dramatizado pela equipe da emissora.
O Mosaico tem presença garantida também nas redes sociais, com perfis do programa no Twitter, Facebook e Orkut – tudo para que o ouvinte participe como quiser.
O projeto dá continuidade a um trabalho iniciado na emissora em dezembro de 2009. O Mosaico nasceu como um quadro do programa Nacional Jovem, às sextas-feiras, trazendo entrevistas com artistas e a escolha de uma música pelo ouvinte. Graças ao êxito da iniciativa e para atender à necessidade de um espaço dedicado às artes na grade da emissora, o quadro passa a ser programa.
O Mosaico é apresentado pelo jornalista Morillo Carvalho, que já apresenta o quadro e integra a equipe de repórteres do Jornal da Amazônia. Na EBC desde 2007, foi repórter da Agência Brasil, onde cobriu o setor cultural, e tem, na bagagem, cursos de Cultura Musical (coordenado pelo maestro Flávio Fonseca), de Crítica Teatral (ministrado pelo jornalista e crítico Sérgio Maggio), de Crítica Cinematográfica, e é pós-graduando em Gestão Cultural.

Entrevista: Valdeck Almeida de Jesus

capa3Valdeck Almeida de Jesus, 43 anos, é jornalista, funcionário público, editor de livros e palestrante. Membro correspondente da Academia de Letras de Jequié e efetivo da União Brasileira de Escritores. Embaixador Universal da Paz. Publicou os livros “Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden”, “Feitiço contra o feiticeiro”, “Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia”, “30 Anos de Poesia”, “Heartache Poems”, dentre outros, e participou de mais de 60 antologias. Organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005, o qual já lançou mais de 600 poetas.

Nesta entrevista ele fala da poesia baiana, de suas influências, do mercado editorial brasileiro e muito mais.

Você pode conhecer mais sobre Valdeck, além de textos do autor pelo site: www.galinhapulando.com.

Se quiser entrar em contato com Valdeck, seu e-mail é valdeck2007@gmail.com.


1 – O concurso Valdeck Almeida revela muitos autores de poesia no Brasil. Algum desses autores já obteve alguma repercussão que ultrapassou as páginas da colêtanea organizada por você?


Sim… São muitos os participantes, cerca de 200 todo ano. Poderia citar, por exemplo, Leandro de Assis, que participou de uma oficina de poesias, em 2005, quando coloquei um estande na Bienal do Livro da Bahia. Ele foi um dos selecionados para o livro “Poemas que falam”, lançado naquele ano.


Após a publicação da antologia, Leandro me procurou para perguntar como se publica um livro. Dei várias dicas e meses depois ele me apareceu com poemas originais que mantinha guardados em gavetas. Fiz sugestão de correções ortográficas, prontamente aceitas. O sonho dele, de publicar um livro próprio, estava a apenas alguns passos. A insistência com que o poeta me escrevia me chamou muito a atenção. Ele me pediu para prefaciar o livro e encaminhar para editoração. Fiz e, algum tempinho depois, ele me apareceu, todo faceiro, com um exemplar produzido de forma independente por uma editora carioca. Foi o primeiro passo desse poeta.


Na época ele cursava História e não tinha muito tempo para dedicar à literatura. Após a conclusão do curso, sua sede de escrever e de promover arte o fez fundar o projeto Fala Escritor, que acolhe poetas inéditos e publicados. Todo segundo sábado de cada mês essa galera se reúne em um grande shopping da cidade pra recitar, declamar, lançar livros, cantar e encantar uma plateia cada vez mais heterogênea. A última edição do Fala Escritor foi durante o Fórum Social Mundial Temático, em Salvador, com lançamentos de vários livros e o encontro de poetas e cordelistas de vários estados.


Acho que este é o principal exemplo, mas tenho notícias de outros escritores que realizam concursos, lançam livros e elaboram projetos pelo país a fora, incentivados pela participação no Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia.


2 – Falando no prêmio, que vai publicar este ano 133 autores na sua coletânea, é muito difícil fazer a seleção? Dói deixar algumas pessoas de fora? Somente você escolhe ou tem uma equipe que avalia? Conte um pouco desse processo, Valdeck.


Doer, dói. Este prêmio não tem taxa de inscrição nem os participantes são obrigados a comprar exemplares do livro pronto, como ocorre em vários projetos de antologia que existem por aí.


Eu iniciei este prêmio para dar oportunidade a tantos poetas sonhadores que, como eu, ficam imaginando que um dia alguém dará chance à poesia e aos inéditos. Penei por mais de 20 anos, acreditando em promessas vãs, até que resolvi botar o pé na estrada e fazer acontecer.


Muita gente fica de fora, pois eu não tenho condições de bancar um projeto maior. Eu pago tudo, eu recebo os trabalhos via e-mail ou pelos correios, vou catalogando durante o ano inteiro. Em dezembro eu envio os textos para uma equipe composta por escritores, professores de língua portuguesa e literatura, um jornalista, um relações públicas e leitores. Depois da seleção, vem a pior parte: anunciar os vencedores e avisar àqueles que não puderam entrar no livro. Uma vez recebi uma mensagem de um poeta mineiro, que mais parecia um recurso para um evento grandioso. Ele implorava que o seu texto fosse revisto e que entrasse no livro. Infelizmente, por causa de espaço, não pude atendê-lo e chorei muito, em silêncio, no meu quarto, pois sabia que aquela poderia ser uma chance única para aquele poeta. Resolvi, então, fazer um livro separado, somente com os poetas que não tinham sido selecionados. Publiquei-o virtualmente, num desses sites da internet. Não somente ele ficou muito feliz e me agradeceu muito, como recebi um montão de mensagens me endeusando, me dizendo palavras belas, lindas e maravilhosas que me incentivaram a manter o projeto, apesar da falta de apoio.

Este ano resolvi continuar publicando o livro principal, com os textos escolhidos e um outro, secundário, onde entram todos os inscritos. O livro principal é lançado nas Bienais do Livro de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Os dez primeiros colocados no livro principal, recebem um exemplar da coletânea. Os demais, infelizmente, caso desejem obter o livro, devem comprá-lo, a preço de custo, pois o projeto não visa lucros. Até 2007 eu enviava exemplares gratuitos a todos os participantes, mas, a partir de então, não pude mais bancar isso, pois no ano seguinte foram 242 selecionados e uma edição grande como essa custa uma fortuna, o que não possuo.


3 – Valdeck, você saberia responder por que o mercado editorial para poesias é tão fraco no Brasil? Claro, podemos pensar em falta de estímulo nas escolas, etc. Você tem alguma teoria? As pessoas realmente se interessam pouco por poesia? Ou será que há poucos poetas de qualidade? Qual sua avaliação?


Há milhões de poetas no país. A maioria engavetada, por medo, vergonha ou falta de incentivo. Falta estímulo nas escolas, pois a educação atual é voltada para preparar pessoas para o mercado de trabalho, que é mecânico, mercantilista e que só visa a produção em larga escala.


Poesia é algo sublime. Arte é sensibilidade e precisa de tempo e espaço, o que hoje em dia custa caro. As pessoas querem resultado financeiro, querem comprar carro, morar em bairros “nobres” e isso toma o tempo todo, do trabalho para casa e vice-versa. Competir no mundo atual é algo insano. Você precisa matar uma manada de animais gigantes todos os dias, para juntar umas moedas. E o preço das mercadorias sobem vertiginosamente, obrigando aos operários a trabalharem cada vez mais para garantir, no máximo, a ração diária de comida… Não sobra tempo para reflexão, para pensar e criticar o processo de sobrevivência.


As pessoas que pensam, que revolucionam, precisam ser freadas pelo sistema. Então, a solução é não incentivar leitura, não incentivar a escrita, não incentivar pensadores, pois isso tudo é prejudicial ao sistema. Não publicar poesias ou literatura que abale os alicerces do sistema é benéfico para quem tem o poder. Fica mais fácil governar um estado com milhões de analfabetos funcionais do que abrir as portas para o debate… Então, eis a resposta…


4 – Gostaria que você citasse poetas baianos ou não que influenciaram sua escrita, se houver tais autores. Também gostaria que citasse alguns poetas ou escritores de romance da nova geração que você identifica como grandes talentos.


Eu leio de tudo, desde criança… De rótulos de shampoos a bulas de remédio, literalmente. Eu não tive condições para comprar livros, ter acesso a uma educação tradicional e de boa qualidade. Sempre frequentei escolas públicas e lia revistas e livros achados no lixo. Dentre os escritores que me influenciaram posso citar Augusto dos Anjos, Castro Alves, Gregório de Matos, Jean Wyllys, Domingos Ailton (Academia de Letras de Jequié), Jorge Amado, Guimarães Rosa, Machado de Assis, dentre outros. Não sei como classificar um escritor. Cada um tem um talento, uma forma peculiar de escrever e de enxergar o mundo, todas válidas… Cada um tem uma dimensão, um valor único.


Da nova geração de escritores que conheço de perto, posso citar:

Léo Dragone, um romancista que tem linguagem cinematográfica. O primero livro dele, “Diário de Rafinha: as duas faces de um amor”, é um sucesso entre os leitores. Quem pega não consegue largar até o final. Dragone prende o leitor, faz a pessoa ficar curiosa e instigada. Sua escrita encanta a jovens e adultos. Ele é uma das grandes promessas da Bahia nos últimos anos.


Renata Rimet, poeta também iniciante, que fala do cotidiano, das coisas simples e do dia a dia com um toque de magia. A poesia dela já invade o mundo literário via internet e faz sucesso também.

Leandro de Assism, poeta e cronista. Os textos dele falam do social. Ele é um observador crítico, que esquadrinha uma praça ou um feijão na rua com um escâner particular, ou seja, a visão de um homem sensato e sensível. Já está no segundo livro de poesias.


Carlos Conrado, natural de Jacobina-BA, que reside em Aracaju. Homem de letras, de pincéis e de eventos. Genial nas poesias críticas, muito bom em recitar. Promove a cultura em Sergipe e já invade a Bahia com seus textos ácidos e bem escritos.


Domingos Ailton, professor de duas universidades, membro da Academia de Letras de Jequié, jornalista, homem de mil talentos. A escrita dele varia de ensaios a poemas.


Grigório Rocha, poeta e sindicalista. Uma arte não inviabiliza a outra. Pelo contrário: Grigório consegue mesclar o melhor de seus dois dons, produzindo poemas de grande profundidade e sensibilidade marcante.

Carlos Alberto Barreto, tradicional na promoção de cultura e arte em Salvador, está à frente da revista Art Poesia, que comemora 11 anos em 2010. Produz antologias de poesias, escreve contos e crônicas. É membro da Academia de Letras do Recôncavo.


Carlos Souza, jornalista e poeta. Escreve artigos para jornais e incentiva a literetura baiana através do apoio na divulgação em jornais, revistas e sites de jornalismo.


Sandra Stabile, poeta e promotora de antologias de poesias. Seus temas preferidos são o amor e a paz.


São tantos que eu relutei muito em citar alguns, para não ser injusto com os que minha memória não me ajuda a recordar.


5 – O que representa em sua vida o ato de escrever? O que este ato significa para seu organismo? Clarice Lispector disse que seria impossível a vida sem a escrita. Para você é assim?


A escrita para mim já é um vício, um vício bom. Eu não consigo colocar os pensamentos em uma tela, fazer um quadro. Meus dedos, uma caneta, as teclas de um computador são como que parte de meu corpo. Escrever é uma válvula de escape, pois eu explodiria se não pudesse derramar no papel ou na tela de um PC tudo o que produzo mentalmente. Sou muito dinâmico e ansioso, produzo o tempo todo. Fico com tiques nervosos se não tenho uma caneta e um papel onde anotar ideias. Às vezes digito mensagens no meu celular e envio para mim mesmo, para não esquecer de algo. É uma verdadeira compulsão. Mas sempre preciso de um tempinho, entre uma produção e outra, para descansar, recarregar as baterias. Às vezes produzo um livro inteiro em um mês, ou fico anos tentando terminar um outro. Muitas vezes eu desligo o celular e o telefone fixo, saio pela cidade, andando, dirigindo ou de ônibus, apenas dando um rolé, olhando o movimento, e daixando a mente descansar… Acho que todo mundo precisa de descanso. Mas logo em seguida retomo o vício de produzir, produzir, produzir…


6 – Em minha opinião, a internet veio para ajudar muitas pessoas que sempre quiseram ver seus textos lidos por outras pessoas. O Recanto das Letras é um exemplo disso. O que você acha da internet para a atividade do escritor? Ela realmente ajuda? E no que diz respeito à qualidade dos textos, você encontra mais ou menos textos bons? Qual a sua avaliação do meio?


A internet é apenas mais um suporte. Não vai fazer ninguém ter fama ou cair no ostracismo, somente por ser um veículo novo, de muitas possibilidades. Há muita coisa boa na rede, mas também há muito lixo e coisas que não merecem publicação. Mas é um direito de todos expressarem suas ideias, dizerem o que pensam. Nesse sentido, a internet veio preencher uma lacuna, dar vez àqueles que jamais terão chance nos jornais impressos, na televisão ou no rádio. A principal qualidade que percebo, além da democratização da informação, é que a rede de computadores, quando bem utilizada, pode, sim, ajudar de forma positiva qualquer profissional, seja ele da linguagem da imagem, do áudio ou da escrita.


7 – O que te inspira, Valdeck? Existem temas mais recorrentes em seus textos ou você escreve sobre tudo? Realmente é um processo de escultor das palavras, com muito suor, ou vem com facilidade? Ou acontecem as duas coisas?


Comigo não tem aquela de “faz um poema pra mim”, pois só faço aquilo que me comove, que me faz sair do lugar comum. Eu jamais escreveria um livro por encomenda, mesmo que ganhasse milhões para isso. O que me incomoda em jornalismo, curso que estou fazendo, são os limites de letras para um título, ter que falar dessa ou daquela forma, seguir padrões e se encaixar num modelo preestabelecido.

Minha literatura é solta. Escrevo tudo o que me emociona, tanto positiva quanto negativamente. Eu não seria um bom assessor de imprensa, por exemplo, pois no dia que o patrão pedisse para fazer um release falando bem de uma ação dele ou inventando algo para “florear” um acontecimento, eu pediria demissão ou seria demitido sumariamente. Sou muito resistente a fórmulas.


Quando escrevo um poema, não faço rascunhos. O texto vem inteiro. E eu devo escrevê-lo assim que ele me vem à mente, caso contrário, se eu deixar para escrever mais tarde, não consigo mais lembrar de nada, não consigo mais rimar “casa” com “asa”.


8 – Uma pergunta que sempre faço: o que representa Deus pra você?


Deus é a natureza, sou eu, é cada um dos viventes, sejam os chamados “animais irracionais” ou os homens. Deus é tudo, é o comando, o leme, o horizonte, é a luz no fim do túnel e além do túnel. Sem Ele eu não seria nada.


9 – Fale um pouco das suas preferências musicais, cinematográficas, artistas plásticos etc. Estas outras formas de arte lhe ajudam a escrever?


Eu não tenho talento para outra coisa senão a escrita. Já tentei canto por seis meses, mas sempre me perdia nos compassos, tempos, essas coisas. No teatro eu sou um bom expectador (risos). No palco talvez eu servisse como comediante, ou num tipo de stand up improvisado. Não gosto de me esforçar para memorizar textos, recitar etc. Não tenho sequer um poema de memória. Frequentei um curso de teatro por um ano e meio e o máximo que consegui foi descobrir que a minha era literatura… Não posso lidar com tintas, por causa de uma alergia… Só me resta escrever.


Gosto de todo tipo de arte:

Músicas: da clássica ao pagode de péssima categoria, como alguns da nova geração; do axé ao rock, do arrocha ao bolero, do tango à lambada. Depende da ocasião e da companhia…

Cinema e TV: novelas, comédia, documentários, fimes de ação e aventura, policiais, ficção científica etc.

10 – E por último, quero que me diga o que um bom escritor deve possuir? Talento basta?


Talento é um dom. Muita gente tem talento e não desenvolve, não pratica. A solução seria escolas, treinamento. Escrever é uma arte que exige leitura, paciência, codificar e decodificar símbolos, ler textos e ler a vida, imagens e sons. E para tudo isso é preciso paciência, como já disse e muita dedicação. O sucesso e o reconhecimento virão com o tempo.

Entrevista: Malu Fontes

Sempre leio com atenção o que Malu escreve. Independente de se concordar ou não com as suas ideias, gosto da maneira como ela desenvolve seus argumentos, sempre de forma apaixonada, o que me lembra outra mulher que admiro: Camille Paglia. Nesta entrevista, um pouco de artes, política, televisão, jornalismo, Internet, Deus e Carnaval.

 

maluJornalista, mestre e doutora em comunicação e cultura contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da UFBA; professora adjunta da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. 44 anos, dois filhos. Foi repórter de política do Jornal da Bahia e do jornal A Tarde, assessora de imprensa da Rede Sarah de Hospitais em Salvador, Assessora de Imprensa da Reitoria da UFBA, professora das faculdades Jorge Amado, FTC e FIB. É ainda comentarista free lancer de cultura noticiosa da Rádio Metrópole e colunista free lancer do jornal A Tarde. É pesquisadora associada em direitos humanos e gênero do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero/Anis, sediada em Brasília.

 

1 – Quero começar a entrevista com uma análise sua sobre o ensino de Jornalismo em Salvador. Suas deficiências, seus triunfos, seus vícios, o que pode ser melhorado etc.

 

Em virtude da explosão das redes de ensino privado em todo o país nos últimos anos, vários cursos de jornalismo foram abertos e é fato que não havia professores de excelência em número suficiente para dar conta dessa demanda de professores que surgiu. Do mesmo modo, muitos dos alunos que acorreram para esses cursos não o fizeram movidos exatamente pelo talento, pelo interesse em ser jornalista, sob o ponto de vista do desejo de traduzir o mundo, de transformar fatos em notícia. Muitos o fizeram movidos pelo glamour que o cinema, os meios de comunicação, a literatura, de certo modo sempre associaram ao jornalismo e aos jornalistas. Os profissionais de imprensa da televisão, apresentadores famosos, jornalistas que vivem na fronteira entre a carreira e aparições como celebridades, como ocorre com Ana Paula Padrão, o casal Fátima Bernardes e William Bonner, Glória Maria, entre outros… Muita gente escolheu e escolhe fazer jornalismo pensando em se tornar famoso, celebridade, em ser apresentador de TV, viver em festas de gente famosa, quando, na realidade, sobretudo no Nordeste, em Salvador mais ainda, a realidade dos profissionais de imprensa, com raras exceções, não tem nada de glamour. O mercado é exíguo, os salários são péssimos. Depois do boom de cursos, o que se vê hoje é a maioria deles em processo de decadência, com muitas faculdades há vários semestres não recebendo o número mínimo de alunos para uma turma sequer. É difícil apontar os vícios e virtudes de instituições que a gente conhece só de nome, mas acho que a principal dificuldade é o número insuficiente de professores de fato competentes e bem formados para dar conta do número imenso de cursos que foram abertos. Tudo sempre pode ser melhorado, mas agora que o Supremo decretou o fim da obrigatoriedade do diploma, qual faculdade particular vai se dispor a investir ainda mais para tornar seus cursos, já esvaziados antes mesmo dessa mudança, mais qualificados? O que deve acontecer é que apenas pouquíssimos cursos, além do da UFBA, devem sobreviver. Ficarão os melhores, mais estruturados e esses não mais terão turmas grandes.

 

2 – E, por falar no ensino de Jornalismo, não posso deixar de citar a decisão do Supremo Tribunal Federal, que no dia 17 de junho deste ano, derrubou a exigência do diploma. Você acha que o canudo é fundamental ou é apenas um resquício da ditadura militar? O que pensa da afirmação do ministro Carlos Ayres Britto, que disse que bastam “olho clínico” e “intimidade com a palavra” para ser um jornalista? Que importância tem a formação acadêmica?

 

Uma coisa é o papel burocrático do diploma, ao qual sou favorável, mas sempre admiti flexibilidade, sem fundamentalismos, como é a tese daqueles que queriam impedir que até mesmo um fotógrafo que não tivesse diploma trabalhasse em redações, que profissionais de outras áreas não pudessem ser articulistas, colunistas, comentaristas. Outra coisa é a importância da formação, do investimento intelectual em uma carreira construída a partir de uma grade curricular específica de uma graduação. Não se deve confundir o diploma com talento e garantia de boa formação. Mas a boa formação e a construção da carreira numa faculdade eu considero fundamental para um jornalista que vai atuar nos veículos de imprensa, fazer a cobertura da vida da cidade, do país. A formação acadêmica é essencial, pois produzir informação é uma atividade específica. Sempre digo aos meus alunos que a vida não produz notícias, produz fatos, fenômenos, acontecimentos e que transformá-los em notícia exige uma técnica específica, um talento para a construção de uma narrativa que não é literária nem linear, descritiva. O discurso jornalístico não é uma mera descrição do mundo, é um modo específico de narrar os fatos. Nesse aspecto, considero as pessoas que passam por um curso de jornalismo as mais habilitadas para produzir informação. Canudo, para mim, é um papel, apenas. A questão mais importante não é o canudo, mas o simbolismo que ele pode conter. Digo pode porque há quem saia de um curso de jornalismo com um canudo na mão, mas é completamente desprovido de capacidade de narrar bem o mundo. Costumo dizer que há gente que passa pela faculdade, mas não consegue fazer com que a faculdade passe por si.

 

3 – Quem faz o melhor webjornalismo no Brasil? Gostaria que você citasse quem, na sua visão, produz bom webjornalismo. Aqui em Salvador, no geral, ainda somos vítimas da mera transposição do papel para os bits ou há alguma menção honrosa? Ainda restarão jornais e revistas táteis? Como deve ser um bom jornalismo on-line?

 

Acho que os bons profissionais da TV, do impresso, de jornais e revistas ou vindos desse universo, são os melhores da web. Se você me perguntar quem eu admiro, jornalista, que despontou diretamente na web, que não veio de outros suportes, não sei, não conheço nenhum. Leio com prazer na web as mesmas pessoas que já respeitava antes. É difícil citar nomes, sob pena de ser injusta. Adoro Bob Fernandes, Ricardo Noblat e muitos jornalistas do impresso, como os da Folha, do Globo, que mantêm blogs.

 

4 – Barack Obama tem Facebook e você tem Twitter. Para quem pode desfrutar da Internet, ela abre muitos caminhos para informações que antes estavam pouco acessíveis. Um oceano de cultura a poucos cliques. Quero uma análise sobre esse fenômeno e um exercício de futurologia: o que ainda podemos esperar da Internet?

 

Impossível apontar expectativas para a Internet, pois é da natureza do fenômeno não ter limites. Os jovens viciados em tecnologia a cada dia surpreendem com fenômenos que se tornam avalanches no mundo. Literalmente há tudo a esperar da Internet e dos usos que se fará dela. Certamente nossos modos de sociabilidade vão ser cada vez mais radicalmente alterados, e não digo isso com nenhuma melancolia. Não tenho nenhuma resistência a mudanças, acho que tenho um nível praticamente ilimitado de adaptação ao que é novo e tenho alergia de conservadorismo, estagnação. A Internet faz parte da minha vida tanto como almoçar, ter amigos, dormir, ler jornal, livros, revistas. Não vivo sem e não me considero uma dependente tecnológica. Apenas gosto muito de informação e das possibilidades que encontro na Internet. Paradoxalmente, tenho desprezo pelas pessoas que parecem viver em função dela. Conheço pessoas que não têm vida social, redes de relacionamento afetivo reais e vivem brincando de serem felizes e descoladas na Internet, com nenhum equilíbrio emocional, do ponto de vista afetivo, sem uma rede de apoio formada por gente de carne e osso que possa ser encontrada pra um café, um cinema. Há pessoas que parecem viver como se o Orkut, o Facebook, o Twitter fossem uma dimensão da vida, e a mais importante. É como se dá também com muita gente em relação à televisão. Gosto de quem vê a vida na TV, mas acho doentio quem vê a vida pela TV.

 

5 – Como este blog trata basicamente de assuntos ligados às artes e sendo um jornalista que sonha em ter uma revista sobre cultura (no papel ou on-line), quero saber: existe bom jornalismo cultural em nossa terra? Qual sua visão sobre o conteúdo crítico feito sobre arte em Salvador?

 

Como pode haver bom jornalismo cultural se vivemos numa cidade, hoje, com uma monocultura, um axé/pagode de uma nota só, com um dos piores sistemas educacionais do país? Sem um leitor com alguma formação cultural, sem a formação de público, de platéia, quem faz jornalismo cultural em profundidade vai falar para meia dúzia de pessoas. O que predomina no cenário cultural de Salvador é a cultura do apelo sexual, a musicalidade que remete aos instintos mais primitivos, com todo um conjunto de artistas que fazem diferente sendo condenado praticamente a guetos, a públicos reduzidos. Aqui se vive uma cultura cotidiana do carnaval. O nosso cenário cultural é o pior possível. O que predomina é uma cobertura cultural ligeira, realiseira, oca, descartável, de consumo imediato.

 

6 – Ainda na seara das artes, o que você consome? Quais suas preferências nas artes plásticas, na música, na literatura e no cinema? Qual o significado da arte, caso haja, para você?

 

Sou eclética, gosto de muita coisa e costumo dizer que meu gosto é meio vira lata, meio verso do Kid Abelha: eu tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim. Minhas listas são infindáveis. Tenho um pouco de preguiça com grande parte do que se produz hoje em nome das artes plásticas contemporâneas. Essa coisa pós-moderna de dizer que tudo é arte pode ser muito bacana sob o ponto de vista multiculturalista e antropológico. Do ponto de vista artístico, é uma desgraça. Sou metida a besta em meus sonhos de consumo artísticos. Daria um rim para ter em casa qualquer coisa de Fernando Botero. Em Salvador, adoro Bel Borba, as esculturas de Tati Moreno, as gordinhas de Eliana Kérstesz e as cores de Maria Adair. E, óbvio, acho um deslumbre o traço de Carybé, as fotografias de Mário Cravo Jr. Em cinema, tenho náuseas do cinemão hollywoodiano mainstream, ágil demais e tão barulhento que não se deixa ver. Sou fascinada por Almodóvar, Tarantino, Lars Von Trier, Gus Van Sant, Iñárritu, além dos classicões, como Bergman, Fellini, Visconti, Scolla, entre outros. Gosto muito do cinema asiático e de filmes de arte de um modo quase geral. Gosto muito de documentários nacionais e do novo cinema argentino. Na literatura, de muita coisa. Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Milton Hatoum, Pedro Juan Gutierrez, Guilermo Arriaga, Rubem Fonseca, Inês Pedrosa, Antônio Lobo Antunes, Saramago, Eduardo Agualusa, Efraim Medina Reiz, Mia Couto, Rosa Montero e de mais uma arca de Noé de gente. Hors concours são Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Jorge Luis Borges.  Música? Outra arca de Noé. Costumo brincar que não moro numa casa, mas num depósito de CDs, DVDs, revistas e livros, pois minha casa é pequenininha e não tarda faltará lugar para mim, ocupado por objetos de desejo cultural. Hoje, agora, os primeiros que me vêm à cabeça são Maria Gadú, John Mayer, Moby, Nouvelle Vague, Vanessa da Mata, Trash Pour 4, Fernanda Takai, Lenine, Jorge Drexler. Odeio axé, samba, pagode, sertanejo, arrocha e companhia. Dos novíssimos baianos, gosto apenas e imensamente de Daniela e Carlinhos Brown. E para a trilha sonora da vida, Caetano. Não concebo a vida sem música e informação. Arte? Para mim, é tudo aquilo que alguém faz, mostra e diz que emociona, desperta pulsões e fala por muitos.

 

7 – A televisão é um aparelho eletrônico desprezado por muitos pseudo-intelectuais, que a julgam como um brinquedo das massas. Claro que há muita bobagem sendo transmitida, mas há muita coisa boa também. Sou um amante da televisão e fico ao lado de Arlindo Machado. E você, o que acha desse meio? Vivemos o Império do Grotesco, como disse Muniz Sodré? O que tem de pior e de melhor na nossa televisão?

 

Adoro televisão. E quando digo televisão não digo o conteúdo da televisão, mas o veículo em si como elemento de ressonância, formação ou deformação de gostos. Sou movida pela curiosidade e acho a televisão brasileira, para o bem o para o mal, uma espécie de aleph da sociedade. Há coisas abomináveis, mediocridade a dar com o pau, coisas deliciosas de ver, enfim, tudo o que se tem na realidade do país. Acho, sim, que o país tem a televisão que merece e, para mim, a TV é uma janela privilegiada, entre muitas outras, claro, para se observar a realidade brasileira. Acho de um pedantismo que dá dó esse povo que empina o nariz, fede a bolor e arrota que não vê TV. Não ver TV não deixa ninguém mais inteligente. Do mesmo modo que quem a vê não é sinônimo automático de alienado ou aculturado. Há quem pense que vejo TV por obrigação, porque escrevo sobre. Ao contrário, escrevo sobre porque vejo. Não sou crítica de TV, não vivo de escrever sobre TV. Minha profissão é professora de jornalistas. Escrevo sobre TV porque tenho prazer em vê-la e mais ainda em tentar descrever alguns dos seus conteúdos, sobretudo os mais nonsense. E que fique claro, conteúdos muitas vezes produzidos pelo mundo das ruas e não nos estúdios. Vejo TV com o mesmo interesse com o qual leio revistas, livros, ouço música ou vejo filmes. Sou um ser do meu tempo, me relaciono criticamente com tudo o que consumo e não gosto de nada incondicionalmente nem tampouco acriticamente. Gostar incondicionalmente, só da Mafalda, a personagem dos quadrinhos.

 

8 – Política nacional. Você acha que o Congresso Nacional ainda pode ser chamado de “A Casa do Povo”? Depois de tantos episódios lamentáveis, podemos confiar nesses homens? O Presidencialismo ainda serve para o Brasil? Não seria a hora de tentarmos o Parlamentarismo, por exemplo?

 

Acho a cena política brasileira deplorável, mas ao contrário do que diz o senso comum, acho que essa cachorrada toda representa, sim, a média do comportamento hipócrita do brasileiro. O brasileiro médio é corrupto e corruptor, quer se dar bem sem esforço e escolhe gente muito parecida com ele. Ninguém surge no Congresso de geração espontânea. O Brasil inteiro manda para Brasília, para as Assembléias Legislativas, para as Câmaras de Vereadores, um monte de representantes culturalmente estúpidos, descomprometidos e que, nas eleições, dizem meia dúzia de frases feitas que a claque adora ouvir. O problema da representação política não é o sistema de governo, é o caráter do povo, das classes dominantes e de seus representantes. Não acredito nessa tese do povo bom e honesto que elege, enganado, monstros corruptos. Povo e representantes são farinha do mesmo saco de falta de caráter, educação, formação.

 

9 – Algo que eu sempre quis saber de você: o que é o Carnaval de Salvador? É uma vitrine para as celebridades? É a mais fabulosa festa de rua do mundo? O Carnaval é do povo mesmo ou dos camarotes? Camille Paglia esteve aqui e adorou. Para ela, Madonna já era, só dá Daniela Mercury.

 

É uma festa popular onde o povo é mero coadjuvante para dar consistência ao mercado do axé, movido por engrenagens poderosas e muito bem azeitadas por interesses políticos privados em consonância com os poderosos políticos de plantão. A visão do estrangeiro não pode ser lida fora do contexto do estranho que desembarca no cenário exótico. Quanto a Daniela, para além e aquém de Camille, acho-a uma artista extraordinária entre tantos medíocres.

 

10 – Por fim, quero saber sua relação com Deus. Ele existe, não existe ou tanto faz? Se existe, que imagem tem dele? Deus é o mais fantástico mito produzido pelo homem?

 

Deus é uma invenção humana, para lidar com o medo da morte. Quando o assunto é Deus, meu oráculo é Nietzsche. Mas percebo cada vez mais que minha sinceridade sobre a religião é insultante diante da média das pessoas. Em respeito à sensibilidade muitas vezes hipócrita dos religiosos, e por preguiça de lidar com isso, nunca discuto religião. Acho idiotizante o modo como as pessoas lidam com a existência de Deus e me espanta o quanto dizem coisas que estão há anos-luz do que praticam. Odeio essa ideia nefasta e maniqueísta de pecado/perdão divino, do erro e do acerto.

Entrevista Fernanda Noronha – parte 2

6. VOCÊ UTILIZA O DOWNLOAD PARA ESTAR ATUALIZADA EM TERMOS MUSICAIS?
QUAL SUA IDÉIA SOBRE O COMPARTILHAMENTO DE MÚSICAS PELA A INTERNET? PODE AJUDAR O ARTISTA?

Fernanda: Bem, pra falar a verdade eu não utilizo muito o “download” para me atualizar musicalmente. Normalmente eu vou nas tradicionais lojas de Cds e vejo os álbuns que foram recentemente lançados. O que me interessa, normalmente eu compro e levo para casa para ouvir com calma e estudar. Com relação ao compartilhamento de músicas pela Internet, para o compositor, esses avanços tecnológicos algumas vezes acabam prejudicando-o porque uma pessoa vai na Internet e baixa uma música. Daí essa pessoa gosta da canção e envia a mesma para terceiros, faz cópias com essa música, pode até vender um Cd com essa música etc… quem irá recolher os direitos autorais do compositor? Dessa forma, a arrecadação de direito autoral fica cada vez mais dispersa e o autor é quem perde com isso. Para o intérprete, é mais uma forma de divulgação do seu trabalho e é um saldo positivo porque uma canção divulgada na internet passa a ficar mais conhecida ainda e vai para o mundo todo. Daí o intérprete fica mais conhecido, acaba vendendo mais shows e com um preço mais valorizado, já que o seu nome fica notório na mídia, com essa divulgação.

7. O QUE SIGINIFICA A MÚSICA COMO ARTE PARA VOCÊ?

Fernanda: Acho que a música pode ser vista como arte a partir do pressuposto que uma obra de arte exige que haja o cuidado desde a sua composição até a finalização da mesma. Quando uma música é elaborada com um critério de lapidação nos arranjos dos instrumentos, na direção vocal e quando se vê que houve uma preocupação especial com a mesma, eu vejo esse resultado como uma obra de arte, que pode ser apreciada e analisada por qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo. Acho que música deve ser vista dessa forma para quem trabalha com a mesma profissionalmente.

8. CITE ALGUNS ARTISTAS IMPRESCINDÍVEIS, AQUELES QUE VOCÊ REVERENCIA EM QUALQUER ÉPOCA, SEJA BRASILEIRO OU ESTRANGEIRO.

Fernanda: Bem, sem sombra de dúvidas a minha maior influência e meu “amor” é Stevie Wonder. Quem me conhece já sabe. Tenho todos os álbuns, camisas, caixinha de maquiagem com foto dele, DVD e o que mais alguém possa imaginar. Sou literalmente fã desse músico, compositor, intérprete e arranjador brilhante, mas também não posso deixar de mencionar outros grandes músicos que fazem parte da minha influência como intérprete e compositora, como por exemplo a Leni Andrade, a Elis Regina, a Sarah Vaughan, o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Caetano Veloso e tantos outros. Acho uma injustiça eu não poder mencionar tantos mestres da música que eu já ouvi e tanto aprendi mas me lembrei desses agora.

9. VOCÊ UTILIZA OUTRAS ARTES PARA ALIMENTAR SUA MÚSICA (LITERATURA,
PINTURA ETC)? PARA VOCÊ, AS ARTES ESTÃO LIGADAS, APESAR DAS DIFERENÇAS ÓBVIAS?

Fernanda: Sim e uso muito a literatura como alimento para a minha música. Sou formada em Letras com inglês, então eu gosto demais de literatura. Sempre quando eu acho que meu vocabulário vai ficando meio “mixuruca” eu pego meus livros de literatura e me derramo nas poesias, contos e versos dos poetas brasileiros e portugueses. Depois as idéias fluem de uma forma tão rápida... mas o poder da leitura faz isso... permite que o processo criativo seja mais fecundo e é um alimento muito bom para o compositor. Com relação à segunda pergunta, acredito que há sempre relação entre as artes. Todas as artes são geradas ao redor do universo e para o universo… também acredito que todas as artes se originam de um mesmo processo que é a criatividade, seja ela a obra literária, a obra lítero-musical, a pintura etc….acho que as mesmas fazem parte do mesmo “inconsciente coletivo”  e existem porque provocam reações e sentimentos distintos no universo de cada indivíduo.

10. FALE SOBRE O JABÁ NAS RÁDIOS. O QUE SIGNIFICA PARA VOCÊ?

Fernanda: Bem, esse assunto é um pouco delicado para se comentar. Eu, particularmente, nunca precisei pagar “jabá” nas rádios. Quando minha música de trabalho foi tocada nas rádios, os tramites de divulgação foram feitos entre minha gravadora e as rádios. Acho que música é algo tão grandioso, um meio tão divino e universal de comunicação que todas as “boas” canções (Falo “boas” quando a letra e a melodia são elaboradas respeitando o ouvinte, sem uso de impropérios e linguagem capciosa) deveriam ser tocadas nas rádios e nos veículos de comunicação sem qualquer ônus. O jabá acaba prejudicando aqueles artistas que têm talento mas não têm recursos e por vezes um artista deixa de mostrar o seu talento por não ter dinheiro e o pagamento desse jabá acaba definindo que tipo de música, qual artista ou grupo irá tocar nas rádios. Acho que não deveria existir esse tipo de pedágio para artistas e músicos, sejam eles artistas já consagradas, alternativos ou independentes.

Entrevista Fernanda Noronha – parte 1

Quando trabalhei na BIF, rádio universitária da faculdade onde me formei, pude escutar muitos discos. Um deles foi o de Fernanda Noronha, irmã de uma colega (Clarrisa Noronha) de rádio e do curso de Jornalismo. Gostei e ponto! Bem produzido, bem cantado, boas letras. É isso que busco, muito mais do que as pseudo-originalidades que ouço por aí. Fiz uma entrevista com Fernanda e disse que publicaria quando editasse minha revista em Salavador. Sonha, meu filho! Bom, abaixo a primeira parte de duas da entrevista com essa cantora. Espero que o segundo álbum saia logo.

1. COMO COMPOSITORA, O QUE GERALMENTE FAZ PRIMEIRO: A LETRA OU A MÚSICA, OU OS DOIS AO MESMO TEMPO?

Fernanda: Bem, no processo criativo das minhas canções eu não tenho uma forma definida. Às vezes eu faço a letra primeiro ou então eu começo pela música. Às vezes meu parceiro começa a fazer uma letra em casa e me traz para terminarmos juntos tanto a melodia quanto a letra e vice-versa e também tem vezes que fazemos a letra e a música ao mesmo tempo. É muito natural esse processo. Normalmente eu e o Jair Luz, que é meu parceiro em quase todas as canções que compus, separamos dois ou três dias na semana e sentamos para compor e passamos uma tarde inteira ou um dia inteiro compondo. Num dia fazemos três a quatro canções e assim vai vamos construindo pequenos mundos de sílabas e sentimentos.

2. O QUE SIGNIFICA COMPOR COM UM PARCEIRO? JÁ ABRIU MÃO DE UMA IDÉIA QUE CONSIDEROU BOA, POR CAUSA DA OPINIÃO DO PARCEIRO?

Fernanda: Compor com um parceiro para mim significa um casamento e como já é sabido, em qualquer relacionamento, é necessário que haja respeito, cumplicidade e até mesmo renúncia, mas acima de qualquer coisa é preciso que haja um ideal comum entre os mesmos. Sabemos que cada compositor traz um mundo particular e cada um tem suas respectivas idiossincrasias, mas os parceiros precisam compreender que esses mundos diferentes podem e devem se unir num mesmo propósito, partilhando idéias, renunciando suas próprias opiniões algumas vezes, mas buscando o bem comum. Eu quando componho penso dessa forma, mas é claro que no meu caso com o Jair, temos de vez em quando uns “arranca rabos”, que é comum, já que somos dois cabeçudos cheios de sonhos e idéias que querem explodir a cada momento, mas já abri mão de uma idéia que considerei boa por causa da opinião dele e vive-versa.


3. FALE UM POUCO DO PRÓXIMO DISCO. VAI HAVER ALGUMA DIFERENÇA ARTÍSTICA EM RELAÇÃO AO PRIMEIRO OU VAI SEGUIR A MESMA LINHA?

Fernanda: Bem, eu pretendo fazer o próximo disco no ano que vem, se tudo der certo. Como sou uma cantora-compositora, provavelmente o CD será autoral. Como sou uma cantora de música popular brasileira, não tenho restrições se por acaso vou cantar uma bossa nova, um samba, um rock, um funk, um chorinho ou um reggae. O universo da MPB é muito amplo e isso é muito bom. Vejo por exemplo a Marisa Monte. Apesar de ser, vamos dizer, “classificada” como um cantora de MPB, ela canta samba, ela canta rock etc…. Então o meu perfil é a “diversidade”, é a pluralidade musical. Como no primeiro álbum, é bem notável essa pluralidade, acredito que não vou fugir desse propósito. Possa ser que eu venha gravar uma música minha em outra língua. Isso também poderá ser possível, mas não tenho nada ainda definido, são apenas idéias que precisam amadurecer.


4. VOCÊ TEM TRABALHADO PROFISSIONALMENTE COM MÚSICA, SEJA EM PRODUÇÃO, FAZENDO SHOWS ETC?

Fernanda: Sim, aliás eu tenho feito isso desde os 15 anos de idade e nunca mais parei. Eu vivo de música. Trabalho como cantora, compositora e produtora. Meus shows por enquanto estão no formato “voz e violão”. Algumas vezes eu me apresento com um “quarteto” mas com “banda”, devo preparar esse formato para o lançamento do próximo CD. Como produtora, tenho estado na gravação do Cd do meu parceiro Jair Luz. Esse álbum deverá ficar pronto ainda esse ano mas estou ficando muito contente com os resultados. Estou fazendo a direção vocal e artística juntamente com o mesmo.

5. PARA VOCÊ, EXISTE UM HIERARQUA ENTRE MÚSICA E LETRA? ALGUMA É MAIS IMPORTANTE?

Fernanda: Não existe para mim uma hierarquia entre letra e música. Considero que ambas são importantes e formam um enlace divino. Claro que a música existe sem a letra bem como a letra existe sem a música, mas uma melodia bem construída acompanhada de uma letra inspirada formum casamento perfeito e faz um bem pra alma…