Carnaval na minha vida

Esse conto foi o primeiro da minha amiga Aline Barnabé, jornalista de primeira e contista amadora idem.
Quando li esse texto, gostei muito e sempre digo para ela escrever mais. Acho que vocês vão concordar com isso.
Aline adora música latina. Uma de suas bandas prediletas é o Maná. Das brasileiras, ela fica com Roupa Nova. Atualmente, lilica está lendo “Um diário no tempo”, de Eliana Machado Coelho.

Depois de quinze anos de casamento, me separei. Não agüentava mais a infelicidade que crescia dentro de mim a cada dia. No começo, tudo era maravilhoso. Carinhos, surpresas e alegrias completavam os cinco primeiros anos de convivência. Mas, como alguns casamentos, o meu também fracassou.

Quando me vi separada e sozinha, fiquei um pouco sem rumo. É difícil se separar e se acostumar rapidamente com isso. A gente sempre acaba se acomodando àquela pessoa ou à situação. Não conseguia imaginar minha vida daquele momento em diante. Estava com quarenta anos e sem filhos. Quando se está sozinha, sem ninguém por perto, fica mais difícil superar as dores.

Depois de muito chorar e me lamentar, decidi procurar ajuda. Comecei a fazer análise e a me sentir melhor. Passei a ver e a compreender a vida de outra forma e a ser mais segura em minhas atitudes.

Assim que, sei lá, melhorei, fui viajar. Queria conhecer outros lugares e outras pessoas, para então voltar revigorada e recomeçar.

Quando voltei da viagem, era carnaval e, então, pela primeira vez na minha vida, resolvi curtir os cinco dias de folia. Fui para Salvador, pois já tinha ouvido falar que lá o carnaval era muito bom.

Durante os dias de alegria, encontrei duas amigas dos tempos da faculdade.

Fiz sociologia, mas não completei o curso porque me casei. Nos encontramos e, como elas estavam de férias e iriam passar o tempo de folga em Salvador, também resolvi ficar. Tudo em minha volta tinha cheiro e gosto de alegria, mas, dentro de mim, algo incomodava e não me deixava ficar completamente feliz.

Esse reencontro com minhas amigas foi muito bom pra mim. Relembramos os tempos da juventude, das farras, dos namoricos. Fiquei com saudades. Infelizmente o passado não volta. O tempo passa e só ficam as doces lembranças do que fizemos e vivemos.

Conversamos também sobre nossas vidas e fiquei sabendo que todas aquelas minhas amigas tinham filhos. Fiquei com uma sensação de fracasso muito grande. Foi horrível. Todas com algo para contar e eu sem nada. Só me restava sorrir e achar tudo lindo também.

No dia seguinte, resolvemos conhecer o Pelourinho. Já conhecíamos da televisão e decidimos que não podíamos voltar para o Rio de Janeiro sem visitar o centro histórico de Salvador. Andamos muito e resolvemos sentar para descansar. Foi quando minha vida mudou com apenas um olhar.

Tive uma sensação estranha, como se já conhecesse aquela pessoa de algum lugar. Eu simplesmente parei e olhei, olhei, olhei até que minhas amigas perguntaram o que estava acontecendo. Não sabia e nem queria explicar. Muita coisa mudou dentro de mim.

Voltamos ao nosso passeio, mas eu não tinha a mesma atenção e empolgação de antes. Eu queria voltar e falar com aquele garoto que me despertou sentimentos tão confusos. Não sei direito, mas a forma como ele gesticulava e falava com as pessoas despertou meu interesse. Minhas amigas pararam para comprar algumas lembranças e eu continuei andando. Como elas estavam demorando, me sentei. Quase não consegui controlar a emoção quando o garoto sentou perto de mim. Pensamentos misturados povoaram minha mente durante segundos. Eu não sabia se levantava, se ficava, se puxava conversa ou se somente olhava sua ingênua beleza.

Na minha indecisão relâmpago, não percebi que ele falava comigo.

– Oi, de onde você é?

Uma simples pergunta que eu demorei uns dois minutos para responder.

– Eu sou do Rio de Janeiro. É a primeira vez que visito a Bahia. E você, mora aqui no Pelourinho?

– Moro e trabalho aqui.

E assim começamos a conversar e a nos conhecer. Ele falava coisas engraçadas sobre a vida, como se já tivesse passado por grandes experiências. Minhas amigas chegaram e o apresentei a elas.

Nos despedimos dele e continuamos nosso passeio, ou melhor, elas continuaram, pois eu não conseguia prestar atenção em mais nada. Estava bastante intrigada e um pouco incomodada com aquilo tudo, afinal, um garoto tinha despertado muito a minha atenção. Eu acompanhei a caminhada delas mergulhada em meus próprios sentimentos e não percebi que ele nos acompanhava a cada passo dado, olhando de longe e com curiosidade. Fomos embora e combinamos de voltar no dia seguinte.

Acordei bem cedo para ver se encontrava aquele garoto novamente. Sonhei com ele a noite toda. Um sonho meio estranho, num lugar estranho e em uma época estranha; ele era alguém muito próximo e passeávamos juntos, de mãos dadas, numa floresta ou em um bosque. No meio do pesadelo, acordei. Passei o dia inteiro intrigada com o que sonhei. Nos aprontamos e voltamos para o Pelourinho. Elas foram logo filmar e tirar foto de tudo que podiam. Sem me dar conta, alguém se aproximou, estava distraída procurando o menino e não notei que era ele mesmo que estava perto de mim.

Nos sentamos e o chamei para conversarmos um pouco. Perguntei sobre sua vida e fiquei sabendo como ela era difícil. Ele me falou de sua mãe, do seu pai, que ele não sabia onde estava, e de seus irmãos que tiveram o mesmo destino que seu pai, enfim, todos haviam sumido. Como ele era o menor, ficou ali mesmo no Pelourinho dormindo aqui e ali até que uma cafetina o pegou para criar. Ele não gostava dela, pois, além de apanhar, o pouco dinheiro de seu trabalho ficava nas mãos daquela mulher.

– Você sabe como sua mãe morreu?

– Me contaram que ela morreu quando eu nasci.

– E por que seu pai e seus irmãos foram embora?

– Meu pai foi embora porque ele não quis cuidar de meus irmãos e de mim. E meus irmãos foram embora aos poucos, eu nem lembro mais deles.

No meio de nossa conversa, chegou uma mulher gritando e perguntando o que ele estava fazendo ali, conversando, ao invés de ir trabalhar. Ele levantou para se explicar e foi empurrado até chegar em uma casa. Eu fiquei indignada com a grosseria da mulher, mas não podia fazer nada. Senti uma revolta enorme dentro de mim e, então, decidi que, se o encontrasse de novo, lhe faria uma pergunta decisiva para nossas vidas.

Fiquei sentada no mesmo lugar esperando ele aparecer. Esperei por duas horas e nada. Então resolvi dar uma volta para ver se o encontrava em algum lugar. Ele estava sentado de cabeça baixa numa praça. Me aproximei e ele sorriu. Aquele sorriso era tão especial, lindo e era só para mim. Abracei-o e, olhando nos seus olhos, perguntei se ele queria morar comigo. Ele com seus seis anos de idade, e com muita experiência de vida, me respondeu tranquilamente.

– Não quero, não, moça.

– Por quê?

– Eu não quero deixar Dona Ester. Mesmo ela brigando comigo, é ela que cuida de mim.

Eu não me conformei, pois estava certa de que ele iria aceitar. Mesmo assim, mostrei a ele como seria bom morar em outro lugar, em uma bela casa e ter escola. Depois da minha longa explicação para convencê-lo, não obtive uma resposta concreta, só consegui arrancar um “não sei”. Mesmo com sua incerteza eu nutria a esperança de ser mãe daquela criança, de um garoto que tinha sofrido muito e que merecia ser feliz.

O problema é que não parei para pensar nas conseqüências do meu pedido. Ele não sabia se queria vir comigo e a mulher que o criou não iria ceder facilmente, pois ela não iria perder uma das suas fontes de renda. Tentei conversar, mas ela ameaçou contar para a polícia que eu estava querendo roubar o filho dela. Lutei muito para conseguir, pelo menos para ter um pouco de certeza de que ele poderia ficar comigo. Mas foi tudo em vão.

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