O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst

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Como eu li em alguns momentos, é impossível ler ao “O caderno rosa de Lori Lamby”,de Hilda Hilst, como se um bloco de gelo estivesse diante das frases. Simplesmente somos jogados diante do texto belamente obsceno da escritora, que nos provoca. É como se ela quisesse testar no moral, nossos desejos. Quais são suas reações diante dos relatos lascivos de uma garota de 8 anos? Você ousaria dizer que sentiu desejo?

Impassível eu não fiquei, já que a escrita erótica de Hilda nos faz ir além do livro que estamos lendo. Confesso que também senti tristeza por Lori, uma criança que se vê em um mundo de sexo por influências dos pais cafetões. Então tem esse jogo de desejo, de sentimentos que tentamos não sentir por conta da moral, mas há também a compaixão pela inocência da menina prostituída tão cedo.

A escritora

A escritora

O livro é escrito em forma de diário, com ótimas ilustrações de Millôr Fernandes, traz os erros de escrita de uma criança de oito anos, o que não impede do texto ter diversas referências a escritores consagrados na literatura erótica, como Henry Miller ou Georges Bataille, obviamente grafados de forma “errada”.

Este foi meu primeiro livro de Hilda, embora conheça textos de poesia dela e tenha conhecimento sobre sua importância em diversos estilos literários. Com certeza foi um bom começo, porque eu sempre li sobre ela, li algumas poesias, mas nunca tinha lido uma obra inteira.

Busquem Hilda. Vale muito a pena.

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Colírio de segunda – Sarah Hyland

Vez ou outra quando minha filha está vendo filme na Disney, eu sento e acompanho com ela, até para saber se é algo legal, se tem uma mensagem interessante. Já vi coisas ruins. Não sou grande fã de High School Musical, por exemplo, e minha opinião está registrada aqui no blog. Assim como tenho forte desconfiança de produtos como Branca de Neve, Cinderela e por aí vai, já que corroboro com a opinião de que são produtos machistas, apesar da beleza e da delicadeza que envolve esses projetos.

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Enfim, esse “Colório de segunda” traz a linda Sarah Hyland, novaiorquina de 23 anos, que tem no currículo a série “Modern Family”, atual trabalho, e filmes como “Todo mundo em pânico 5”.

un-chiflado-encantadorO filme que inspirou esse texto foi “Um geek encantador” (2011), e conta a história de Josh Rosen (Matt Prokop), que pula em uma fonte para recuperar uma mala “fashion” de Dylan Schoenfield (Sarah Hyland). Após esse encontro casual, Josh, o nerd tecnológico, resolve convidar Dylan a ser a protagonista de um documentário sobre popularidade, já que a garota é uma das mais populares da escola onde estudam.

Obviamente sabemos o final desde o começo, ouvimos diálogos batidos e cenas mais batidas ainda, como aquela da troca de roupa em uma loja, com a pessoa experimentando dezenas de peças.

Apesar de tudo isso e de ser um filme que normalmente não assistiria, é bom que existam filmes assim para chamar atenção para assuntos que mais tarde serão debatidos e profundados pelas crianças e adolescentes que são espectadores dessas produções atualmente.

Josh e Dylan

Josh e Dylan

Assuntos como a diferença entre as pessoas e a possibilidade de serem amigos, ou mais que amigos. A patricinha Dylan é mais que uma patricinha, é uma pessoa com problemas e com interesses diversos, o que a torna alguém interessante e nada fútil (vimos isso no ótimo “Legalmente loira”, com Reese Whiterspoon). Em uma parte do filme ela diz que não há como juntar geeks e gente como ela, já que cães não andam com gatos. Mais tarde percebe que estava errada e que estar com amigos verdadeiros, independente se são cães ou gatos, é que é legal. Ou seja, uma mensagem boa, mesmo que dita de uma forma nada original ou merecedora de prêmios dramatúrgicos.

Eu não vou dizer que recomendo a todos, mas para aqueles pais que, por ventura, visitarem este espaço, ou mesmo um adolescente ou pré-adolescente que passar por aqui, eu digo que vejam sem medo o filme. Para os pais, podem deixar as crianças assistirem.

Apegados e Azul é a cor mais quente

Quero falar brevemente de dois livros que li esses dias. Pelo que tenho visto, os comentários aqui no blog diminuíram, mas seria bem legal se quem fizer uma visita por aqui, deixasse suas impressões. É sempre bom trocar informações, receber dicas, etc.

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Bom, “Apegados” é um texto que soa como livro de autoajuda e é também, o que não o deprecia. Clássicos da literatura, em qualquer área, podem ser considerados autoajuda também, porque não? Se nos ajudam, se nos transformam, isso é que importa. O termo adquiriu tom pejorativo por conta de inúmeros livros esquemáticos e formulaicos sobre a felicidade, sobre o sexo, sobre o emprego, etc. Livros generalistas. Não é o caso desse livro, que foi escrito por Amir Levine e Rachel Heller, dois profissionais da área da psicologia, que tomaram como base diversos estudos sobre a teoria do apego. É um livro sobre psicologia.

Acho que é uma obra que pode nos fornecer informações muito interessantes sobre que tipo de apego carregamos dentro de nós: o evitante, o ansioso e o seguro. Esses três tipos de apego, que são adquiridos por diversos fatores, como ambiente familiar, relacionamentos que tivemos, etc, definem que tipo de pessoa somos com nossos parceiros. A menos que você tenha um apego seguro, ser ansioso ou evitante lhe trará alguns problemas. Mas não se preocupe, ser seguro não é ser perfeito, mas facilita muito as coisas. E para quem é ansioso ou evitante, digo que é possível mudar. Pode não ser fácil, mas é completamente possível.

Sei que não expliquei muito. Com isso deixo o gostinho para quem se interessou e indico que leiam o livro. Acho que se podemos melhorar como seres humanos e fazer de nossos relacionamentos algo melhor, devemos fazer. Afinal, somos serem que precisamos viver com outros, se relacionar, viver uma sexualidade saudável e rica. Parte grande de nossa felicidade vem dos nossos relacionamentos afetivos.

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Semana passada eu escrevi sobre o filme “Azul é a cor mais quente”, que simplesmente achei maravilhoso e um dos mais belos filmes sobre o amor que eu já vi. Aí soube que foi baseado em uma história em quadrinhos e resolvi ler.

“Azul é a cor mais quente”, de Julie Maroh, é uma experiência igualmente impactante, com belíssimos desenhos, com uma paleta de cores triste, quase monocromático, a não ser pela presença do azul…igualmente triste, mas metaforicamente quente.

A história narrada na HQ tem suas diferenças em relação ao filme, o que é normal, são duas linguagens diferentes. Mas se eu tivesse que eleger o que mais gostei, fico com o longa.

Se puderem vejam o filme e leiam a HQ, são duas obras lindas e importante sobre o amor.

 

O homem de aço (2013)

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Relutei em assistir ao filme “O homem de aço” (2013), de Zack Snyder, por conta da má impressão causada pelo chatíssimo “Superman – o retorno”, produção de 2006 do diretor Brian Singer. O alarme preconceituoso soou assim que vi a figura de mais um bonitão vestindo a roupa do super-herói mais poderoso dos quadrinhos. Enfim, hoje, resolvi buscar o filme e me dei conta, em poucos minutos de fruição, que esta nova produção, se não pode ser considerada maravilhosa, está bem à frente da anterior.

Mais um vez temos um reboot, o que quer dizer que os produtores do filme resolveram recontar a história do SuperHomem do começo ao invés de dar continuidade à história já conhecida por nós. Como se o personagem fosse recriado por Hollywood. Dessa forma, acompanhamos o nascimento de Kal-El/Clark Kent até o momento em que ele assume para a humanidade que é um ser vindo do planeta Krypton.

De todos os filmes do herói este foi o único a mostrar Krypton como um planeta verossímel, palpável, com um cenário que indica um cotidiano. E logo nos primeiros minutos do longa eu vejo Russel Crowe como Jor-El e Michael Shannon como general Zod, o que já conferiu credibilidade ao filme e aumentou meu interesse.

Quando Jor-El tenta avisar aos líderes de Krypton, uma espécie de conselho de anciãos, que o planeta está prestes a ser destruído e que pode salvá-lo, entra o general Zod para culpar os líderes pela iminente tragédia. Em meio a uma batalha entre os dois personagens, o bebê de Jor-El e Lara é enviado para a Terra, onde é achado e criado pelo casal Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane). Tanto Costner quanto Lane estão ótimos no papel dos pais de Clark. Realmente fiquei feliz por ver Costner em um papel que se encaixou perfeitamente para ele e assistir Lane encarnar uma mulher mais velha (uma verdadeira matrona) e nada sexy, ao contrário dos papéis que geralmente vejo, também foi ótimo.

Assim conhecemos o futuro Super-Homem vivendo sua vida no campo e em empregos comuns como pescador em alto mar ou como garçom em um pequeno bar. O diretor utiliza muito o recurso do flashback para revelar aos poucos como foi a infância de Clark e os valores morais ensinados pelos pais, principalmente pela força moral de Jonathan e sua eterna preocupação em relação à segurança do filho.

O ator Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent) consegue, apesar de não ser um excelente ator, desenvolver de forma muito mais eficiente seu personagem em comparação a Brandon Routh, do filme anterior, revelando nuances emocionais que distinguem sua imaturidade do adulto controlado e sábio. Mas é possível falar sem pestanejar que Christopher Reeve ainda é o Super-Homem “de verdade”, já que sua atuação foi impecável.

Outra coisa que achei uma falha do filme foi revelar logo de cara os poderes do herói já adulto, o que enfraqueceu algumas cenas dele quando criança, importantes para o seu desenvolvimento emocional e sobre as escolhas que mais tarde teria que fazer como super-herói. Outra falha é que o roteiro é extenso demais e perde a pulsação, deixando-o por certo tempo enfadonho. Mais uma falha observada: as lutas entre Zod e Super-Homem são travadas como se não existissem pessoas ao redor e que provavelmente sairiam seriamente machucadas ou mortas por conta da luta entre os dois. Felizmente o filme acerta mais que erra e um desses acertos foi apenas fazer referência a Lex Luthor, quando vemos a marca LexCorp no alto de um dos prédio de Metrópolis. A ausência desse vilão foi importante para não deixar a produção mais óbvia. Outro acerto do filme é sua parte técnica, que nos enche os olhos, como nas cenas no planeta Krypton, por exemplo.

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Mas cadê Lois Lane? O amor terreno de Clark é vivido pela sempre competente Amy Adms, que confere à jornalista do Planeta Diário uma persona mais séria e determinada, mas não carrancuda em momento algum. Aliás, o Super-Homem dessa nova produção também é mais sério, ciente da difícil tarefa que carrega nas costas. Neste longa só vemos o jornalista Clark Kent no final depois de revelar que precisa de um emprego no qual as pessoas não perguntem quando ele for para um lugar perigoso. Lembrei que existe um livro chamado “Complexo de Super-Homem”, dedicado a jornalistas como eu e Clark..rsrs.

“O Homem de aço” é um filme eficiente e bom de ser assistido, com um elenco primoroso e uma parte técnica muito boa. Uma experiência divertida mesmo que não contribua de forma significativa para a mitologia do homem de Kryton.