Cinquenta tons de baboseira

Eu sou um fã de literatura erótica. No campo da ficção e do conteúdo teórico sobre sexualidade eu tenho livros e autores prediletos. ‘Crimes do Amor’ (Marquês de Sade), ‘A Casa dos Budas Ditosos’ (João Ubaldo Ribeiro) e Irmã Mônica (E.T.A. Hoffman) são alguns ótimos livros eróticos na área ficcional. Já no campo teórico eu posso citar autores como Camille Paglia (‘Personas Sexuais’, ‘Vamps e Vadias’), Regina Navarro Lins (‘A Cama na Varanda’, ‘O Livro do Amor Vol. 1 e 2’) e Reich (‘Revolução Sexual’). Bom, temos excelentes exemplos de livros que tocam no assunto sexo e que podem ser tanto um ótimo entretenimento ou um ótimo livro no qual possamos aprender a viver melhor, conhecer a história, por vezes sórdida, da sexualidade humana.

Depois desse nariz de cera (como se diz enrolação em jornalismo), eu venho dizer que ‘Cinquenta tons de cinza’, da escritora (me deu vontade de colocar aspas na palavra) E.L. James, está mais para ‘Cinquenta tons de baboseira’. Primeiro: o livro é uma fanfic de ‘Crepúsculo’, de Stephenie Meyer (outra escritora?). Eu já sabia dessa informação quando resolvi ler o livro de James, mas resolvi apostar. O tema me interessa e o rolo compressor do marketing que cerca a trilogia (sim, são 3!!!) funcionou. Ouvi algumas pessoas que confio no argumento “me dizerem” que a obra não prestava, mas a curiosidade (mórbida?) me levou ao universo da doce, inocente (extremamente), linda, desastrada, Anastasia Steele e do enigmático, deus grego, rico, cheio de problemas, Christian Grey. Ou seja: Bella e Edward.

Ao ler o livro é óbvio que nos deparamos com Bella e Edward, já que se trata de uma fanfic de ‘Crepúsculo’. E mais do que isso: nos deparamos com a velha história da moça inocente (virgem, além de nunca ter se tocado/masturbado!!!) que se apaixona pelo homem misterioso e lindo. Nos deparamos com a Bela e a Fera e com todas as histórias parecidas e com seus velhos e batidos clichês. Mas o pecado do livro não são os clichês, são como os mesmos são desenvolvidos. Um bom escritor pode pegar uma sentença batida e transformar em uma história original, bem redigida e inteligente.

E.L. James: mais uma escritora que se torna milionária por ter escrito baboseiras!

Anastasia é estúpida (inteligente, mas débil) e Christian é o clichê da sofisticação. Ele não pede um cerveja, mas um drink com pepino dentro e nome estranho (para mim, que sou pouco sofisticado!), além de ouvir ópera e também gostar de Britney Spears (o toque contemporâneo e pop do rapaz, já que ele é jovem). Anastasia, claro, apaixona-se por esse deus reencarnado no momento que o vê em seu escritório. Ele, claro, sentiu atração imediata por esse desastre ambulante, que cai de joelhos em sua porta antes mesmo de pronunciar uma frase. Eles têm seus destinos entrelaçados quando Anastasia vai entrevistá-lo no lugar de sua amiga jornalista Kate Kavannagh (não sei se escrevi corretamente o sobrenome dessa outra beldade).

A partir daí começa um jogo de sedução entre Grey e Ana, um lenga-lenga de mais de 80 páginas, nas quais Ana derrete-se por Grey, até o momento em que ele tira a virgindade de Ana. Ou seja, temos a primeira sacanagem quase 90 páginas depois. Depois de uma ou outra cena, mesmo as mais picantes (já li depoimentos na revista Cláudia que são mais excitantes), o leitor (eu) cansa e não há como não querer que o livro termine logo. São dezenas e mais dezenas…não, centenas de páginas de ZZZZzzzzZZZzzzzZZZZZZZ….desculpem-me, eu peguei no sono. O livro tem 455 páginas de baboseira.

Sinceramente, acho que o grande sucesso do livro deve-se ao fato de sermos uma sociedade, em geral, travada, culpada, com a sexualidade contida e cheia de problemas. O tema sadomasoquismo chama atenção, queremos espiar pelo buraco da fechadura, e quem sabe, experimentar! Mas pegamos o livro e vamos fazer algo escondido, como o garoto que pega um Playboy e a coloca dentro de uma revista “séria”. O sadomasoquismo neste livro e a redação das cenas de sexo são tão infantis. O jogo de sedução entre os personagens principais são tão pueris que eu suspirei de cansaço diversas vezes.

Mas a provação está no final! Depois do término do livro vem uma surpresa: o primeiro capítulo do segundo livro, ‘Cinquenta tons mais escuros’. É aí que a autora quer provar se você é realmente masoquista. Resultado: eu li o capítulo que abre o segundo livro, mas, ao contrário do masoquista que sente prazer na dor ou imaginando senti-la, eu apenas senti um prazer enorme ao fechar o livro e gritar “Graças a Deus acabou!!!”.

Vinho: Yellow Tail (shiraz)

Faz tempo que eu não escrevo sobre vinhos aqui no Vinil. Lógico que não deixei de tomar, mas eu percebi que estava concentrado muito nos chilenos e nos argentinos e vez ou outra experimentava algum nacional. Então resolvi que escreveria apenas quando tomasse algum vinho que fugisse desse eixo. E eis que estou aqui para falar do Yellow Tail, um vinho australiano muito simpático, esse é o termo.

Foto: Sandro Caldas

Pessoal, não sou, como sempre afirmo, nenhum sommelier ou enólogo, apenas um cara que gosta de experimentar vinhos, que considera esta bebida maravilhosa. Indico aquilo que gosto e quero dicas também!

Pois bem, experimentei este Yellow Tail no domingo e adorei a surpresa. Aquela fração de segundo antes da bebida encostar na língua é muito excitante! Eu adorei este vinho. Quis fugir da uva cabernet sauvignon e acabei por pegar a shiraz, que era a outra garrafa disponível. Uma uva ótima, sem dúvida. Tomei apenas duas ou três garrafas produzidas com esta uva.

No rótulo do Yellow Tail diz: Aromas: especiarias, alcaçuz, geleia de frutas vermelhas. Sabores: frutas vermelhas maduras e especiarias. Aprecie: com carne grelhada ou em frente a uma lareira. Diz também que o vinho é amigável, fresco e saboroso.

Só provando para saber se você vai perceber tudo isso, mas acho que além de qualquer gosto ou aroma que você perceba ou deixe de perceber, acho que o Yellow Tail é realmente amigável e simpático, próprio para momentos felizes e descontraídos.