Livro: Medo da Vida

Há algumas semanas li ‘Medo da Vida’, do psiquiatra Alexander Lowen. É daqueles livros que nos faz sentir a necessidade de divulgar, de fazer com que o maior número de pessoas leia. Não vou me alongar sobre o obra, o que geralmente faço, na vã esperança de que centenas de pessoas saiam correndo para adquirir o livro e mudem suas vidas (se isso for possível). Mas, Sandro, diga logo do que se trata a obra!

Alexander, que foi discípulo e paciente de Reich, que amo, que era amado por Ângelo Gaiarsa, que é outro que amo, constrói a obra em cima da frase super verdadeira e básica para mim: a sexualidade é a chave do ser. O psiquiatra argumenta que nosso destino amoroso e mesmo como nos comportamos diante da vida está relacionado com nossa fase edipiana, aquela na qual a criança sente uma ligação sexual com o pai ou a mãe.

O grande mal dessa fase é que os pais não sabem lidar com a situação, justamente porque vivemos em uma sociedade repressora, onde o sexo é feio e faz parte do jogo manipulatório das religiões e de uma moral que paira sobre nossas cabeças. Uma sociedade patriarcal na qual o poder e o dinheiro estão na frente da criatividade e da liberdade de escolha. Dessa forma sufocamos quem nós somos e atendemos uma expectativa criada pela sociedade, por nossos pais. Será que gostamos do que gostamos mesmo ou somos fruto dessa arquitetura que nos faz crer que ter casa, carro e uma boa aposentadoria é garantia de felicidade? Somos programados, antes mesmo de escolhermos nossa profissão, a pensar sobre as vantagens de uma área de atuação e nossa futura e já citada aposentadoria! Merda, mal começamos a viver e já estamos preocupados com a velhice!

Mas o que a sexualidade tem a ver com tudo isso?

Na fase edipiana o menino e a menina, como já foi dito, sente desejo sexual pelo pai ou pela mãe. Isso é normal, pessoal, faz parte do desenvolvimento sexual do ser humano! O fato é que, repressores como somos, acusamos a criança de estar fazendo algo feio quando esta manifesta sua expressão erótica. A sexualidade nesta fase, entre 3 e 7 anos, não tem a pretensão de realizar o sexo, de ir para a cama. A criança sente tudo isso como natural. Mas não, temos que reprimir, temos que dizer que é feio, temos que castrar (termo freudiano). Enquanto a criança vive naturalmente esta fase, o adulto (pai e mãe) entra com suas neurores, devidamente transmitidas por seus pais, e coloca a criança em um jogo de poder que pode envolver ciúme, ameaças, etc. A criança, como não quer perder o amor dos pais, entra no jogo para se defender e não perder esse amor, aí ocorre a corrupção. Corrupção esta que define quem esta pessoa será pelo resto da vida, como se envolverá com seus futuros parceiros, que tensões musculares terá pelo corpo (couraça muscular do caráter, ideia desenvolvida por Reich). Se nos chamam atenção quando tocamos em nosso órgão genital, tendemos a retrair o soalho pélvico e dessa forma criamos uma tensão no local que futuramente não nos permitirá ter um orgasmo verdadeiro, um orgasmo como sinônimo de vida, de liberdade! Para nos livrarmos disso é necessário, muitas vezes, forte terapia.

Como disse a autora Regina Navarro Lins, que tenho o orgulho de manter contato, sexo é questão de saúde pública! A sexualidade começa na infância e determina o que seremos no futuro! A sexualidade não está em apenas ir para a cama, ela é a base de nossa vida e mexe com todas as áreas de nossa existência. Se deixassem a criança viver sua sexualidade sem repressões, a fase edipiana ia passar e ela logo em seguida, um pouco mais velha, voltaria seus interesses para o sexo oposto (ou não) da sua idade. E esta fase apenas seria uma fase, como deveria ser. Ter desejo sexual pelo pai ou pela mãe é normal na infância, faz parte da saúde física e emocional do ser. A castração, a repressão, os “valores morais”, afetam de forma definitiva nosso corpo e nossa mente. E não existe humano bem resolvido se sua sexualidade está trancafiada. Nascem as neuroses e neuroses são o puro medo da vida.

Controlar a sexualidade das pessoas faz parte de nossa sociedade, porque faz parte do jogo do poder, dos papéis definidos, da falta de criatividade, do fazer muito mais do que SER! Não neguemos a importância do dinheiro, do que ele pode proporcionar, mas ele não pode ser o objetivo de ninguém. Quem vive buscando poder e dinheiro, mesmo que consiga um dia, jamais se sentirá satisfeito. O vazio interior é imenso.

Menos metas e objetivos e mais toques e trocas entre as pessoas. Menos dinheiro e mais orgasmos. Por favor!

 

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6 pensamentos sobre “Livro: Medo da Vida

  1. Oi, Sandro! Confesso que no que diz respeito a psicanálise até hoje só li alguma coisa de Jung e seus discípulos e pouca coisa de Freud, mas também tem a ver com oportunidade, não calhou de ler outros autores. Mas talvez justamente por gostar de Jung eu não consiga ver a sexualidade como a única e exclusiva chave para o ser humano, ainda que sem dúvida uma chave importantíssima (talvez a mais importante, porém não única). Não tenho muito conhecimento sobre o assunto, mas me interessa muito, preciso ler mais! O que você indica? =)
    Beijo!!!

  2. Oi, Lua! É, a frase ‘a sexualidade é a chave do ser’ é muito bem explicada por ele e acredito que a sexualidade esteja presente em todas as áreas de nossa vida. Não é um questão meramente de fazer sexo. Olha, eu indico este livro, sem dúvida. Outros excelentes são: ‘A cama na varanda’ (Regina Navarro Lins). Aliás, ela lançou dois livros ótimos, que já estou lendo: ‘O livro do amor’ 1 e 2. Indico esses dois também mesmo antes de terminá-los. Você pode procurar livros de Dr. José Angelo Gaiarsa. Você encontra muitos vídeos dele no youtube. São extremamente educativos. Livros de Reich são fundamentais para mim: ‘A revolução sexual’ é um deles. Tem os livros de Camille Paglia, como ‘Personas Sexuais’, Vamps e Vadias’ e ‘Sexo, arte e cultura americana’. Olha, estes que citei são ótimos. Vão lhe dar um apanhado histórico muito legal, muito consistente, sobre a evolução (e involução) do amor através dos tempos.
    Agora, sexo é um assunto muito amplo! É ir lendo, criticando sua própria visão e a visão dos autores. Eu acredito muito nesses autores que citei. Eles formaram e continuam formando minha visão sobre sexualidade. Sempre aprendo mais e mais.
    Beijos!

    • Sim, Sandro, eu entendo que a sexualidade não inclui apenas o fazer sexo, não foi o que eu quis dizer. 😉 Aliás essa questão é tão rica e complexa que foi uma das grandes causas do rompimento entre Freud e Jung, justamente porque para este a sexualidade não seria a única “chave”. É porque fica parecendo que dizer que não é a única chave diminui a importância da sexualidade, mas está longe disso. Infelizmente é um tema que faz tempo que não leio sobre e não posso enriquecer a discussão, mas um dia quero retomar estas leituras e vou aproveitar suas dicas. =) Beijos!!!

      Ah, vou postar os marcadores amanhã, passei a semana doente e não deu pra ir no correio! =)

  3. Oi, Lua! Eu sei que você não disse isso..rsrs. Eu é que disse baseado no próprio livro dele e em outros que li..rsrs. Ha, que bom que vai postar os marcadores! Espero que você esteja realmente boa, viu? Grande beijo!!!!!!!!!!!!!
    Sim, saiu um livro em quadrinhos chamado ‘Habibi’. Você conhece? Parece ser muito bom!
    Beijos!

  4. Bravo, Sandro! Maravilhosa a sua resenha sobre o livro e calha muito bem com as minhas interpretações dessa obra! Estou lendo-o e posso afirmar com toda a segurança que ele é um “divisor de águas” na minha vida. Pra vc ter um ideia, Lowen conseguiu tirar o meu ranço em estudar Freud e me fez gostar de entender sobre o complexo de Édipo, por exemplo. Isso se deve também ao meu movimento de auto-conhecimento no qual estou fortemente empenhada. Gosto de dizer que o mais fascinante e dolorosamente delicioso trabalho que empreendi na minha vida é o estudo de mim mesma.
    Eu já sou uma apaixonada inveterada por Gaiarsa, embora tenha minhas discordâncias em relação a algumas de suas ideias. Agora, a descoberta de Lowen me pegou em cheio!
    Mais orgasmos, por favor! Mas que sejam os verdadeiros orgasmos do ser, não do fazer, do performático. Sejamos seres então!

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