Clarice,

Foi ‘Felicidade Clandestina’ o meu primeiro livro de Clarice Lispector. Eu adorei e logo em seguida ganhei ‘A Paixão Segundo G.H.’ e comprei ‘Água Viva’. Esses foram os livros de Clarice que li, depois apenas contos esparsados, igualmente fascinantes. Talvez se me perguntassem se eu sou um ‘clariciano’, eu não poderia dizer que sou, no sentido que li a maioria dos livros da autora ou mesmo que saiba muito sobre sua intensa e fascinante vida e sua personalidade brilhante. De qualquer forma, se eu tivesse que citar escritores brasileiros que amo, Clarice Lispector figuraria em qualquer lista, justamente por causa desses únicos três livros que tive a sorte de ler.

Então, quando vi a biografia escrita pelo jovem americano Benjamin Moser, obviamente a quis. Não tendo o famoso papel moeda ou mesmo um cartão que me enganasse afirmando que eu tenho um dinheiro que na verdade é do bando, “resolvi” não comprar. Mas minha linda amiga Tânia Monteiro (que por sinal é o nome da irmã de Clarice), em uma dessas conversas instantâneas pela web, confirmou o empréstimo. Recebido ‘Clarice,’ devorei suas quase 560 páginas de texto em alguns dias e me tornei fã desse jornalista e crítico de arte de 35 anos.

Benjamin Moser escreveu uma biografia reveladora

Eu achei o livro fascinante! Ele estudou a cultura brasileira e no processo de feitura da biografia conheceu ainda mais nossas maravilhas culturais. Minha sensação foi de orgulho e admiração. Orgulho porque lemos um escritor estrangeiro falando tão bem de nossa cultura (e colocando o dedo na ferida quando necessário) e com o objetivo principal de divulgar a obra de Clarice para o mundo. E admirado porque a empreitada de Moser é digna de aplausos, já que não é fácil traduzir Clarice, seus pensamentos, intenções, seu universo psicológico. Claro que houve ajuda para que esse entendimento fosse possível, como não poderia deixar de ser em um projeto como esse. Mas Moser ama Clarice, se apaixonou pela escritora quando ainda na faculdade leu a primeira página de ‘A Hora da Estrela’, o último romance da escritora.

Clarice também usou a pintura para se expressar. Mas esse retrato famoso foi feito pelo pintor italiano Giorgio de Chirico quando ela tinha 25 anos

Moser me deu tanto com esse livro. Falar de Clarice é falar da existência humana, da nossa fragilidade, de amor, de Deus, da ausência de Deus. É falar de ser mãe, de ser pai, de dor, de morte, de alegria, de solidão, de amizade, de inadequação. Moser conseguiu estruturar um livro em algo dinâmico, de fácil leitura, e ao mesmo tempo denso sem ser maçante. São 45 capítulos, onde mesmo os assuntos mais trágicos são lidos com leveza. Desde o nascimento de Clarice, na pequena cidade de Tchethelnyk, na Ucrânia, até seu reconhecimento como brilhante escritora.

No auge de sua beleza Clarice despertava paixões, não somente literárias!

Eu concordo com Moser quando disse que a passagem do livro que mais emociona é quando a mãe de Clarice foi estuprada durante um pogrom (ataque violento a um povo, limpeza étnica) antes dela nascer. A família se mudou para o Brasil, estabelecendo-se em Recife. Ainda pequena, ela escreveu uma história para curar sua mãe de uma doença causada pelo estupro. A pequena Clarice, de acordo com um tradição de seu povo, acreditava que podia salvar sua mãe com uma história. Não conseguiu e viveu com essa culpa pelo resto da vida. Uma culpa que chegaria à sua arte, aos seus lindos livros.

Acabei a obra com um desejo forte de ler todos os livros de Clarice. Talvez não leia, mas saí mais entendedor de sua obra, de sua mente, do seu esforço de chegar ao Nada (que na tradição mística judaica é o próprio Deus) por meio de sua arte. E do comovente esforço de se tornar gente, de ser comum. Mas Clarice não era comum e vivia sem fazer concessões, como ela mesmo dizia. Ela não fingia, ela não tinha máscaras, e pagou um preço por isso. Em troca, o mundo ganhou obras-primas. Clarice não fazia literatura para contar uma história, mas para revelar sensações, para traduzir o indizível.

Aqui você assisti à entrevista concedida por Benjamin Moser durante a FLIP 2011. Obs: ele fala português.

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