Pequena Abelha e ‘The King Is Dead’

Para quem consome arte é tão bom você encontrar artistas que lhe propiciam emoções novas, reflexões novas. Eu encontrei um livro e um disco que adicionaram mais vida para mim. E é engraçado também como eles chegaram até minhas mãos.

Quando eu ia à livraria fuçar os livros, buscar romances novos, por exemplo, alguns atendentes sempre me indicavam ‘Pequena Abelha’, mas eu sempre encontrava outro que no momento eu estava mais interessado. Essa indicação aconteceu muitas vezes, mas sempre existia outro livro na frente dele.

Recentemente fui à casa de minha tia pegar um livro que meu tio indicou e em uma pequena pilha de obras, enquanto minha tia tentava achar o outro, vi a capa laranja de ‘Pequena Abelha’. Não pensei duas vezes.

A obra escrita pelo autor inglês Chris Cleave, 38 anos, que é psicólogo e colunista do jornal The Guardian, é extremamente bem escrita e revela de forma inteligente e comovente como o ser humano pode ser horrível, principalmente quando o dinheiro se torna o centro das atenções. Há muito mais no livro, além disso, há beleza do ser humano também. E é esse sentimento que faz a gente querer lutar para destruir determinados valores que colocam os bens econômicos em primeiro lugar e a vida das pessoas em último plano – nesse caso, a ganância das companhias de petróleo na Nigéria.

Chirs Cleave

Não posso contar muito da obra. Fazendo uma comparação, é como se eu contasse o final de ‘O sexto sentido’. O livro não perderia a força por causa disso, mas o leitor merece descobrir por si mesmo o final dessa história, cuja narrativa é desenvolvida com extremo talento. Sem dúvida, um dos melhores romances que li esse ano, a despeito da eficiente campanha de marketing para promover o livro.

Outra coisa legal foi a descoberta da banda ‘The Decemberists’. Folheando a revista ‘Elle’ desse mês, me deparei com uma nota que falava muito bem de ‘The King Is Dead’, sexto álbum dessa banda indie dos Estados Unidos. Li no texto que o álbum está sendo considerado como o melhor do ano por alguns críticos. Enfim, anotei e quando cheguei em casa tratei de ouvir. Estava ansioso. Sempre fico ansioso ao ouvir bandas novas. Novas para mim, claro.

Não houve decepção em nenhuma faixa. O disco é uma coleção de belas músicas pop com acento country e folk. Percebi claramente a influência do R.E.M. – uma das principais da banda. Inclusive, Peter Buck, ex-guitarrista do R.E.M., toca em três faixas. A outra influência marcante da banda, que não é tão clara neste trabalho, é The Smiths, que aliás possui um disco chamado ‘The Queen Is Dead’. Apesar dessas influências declaradas o disco soa mais, no geral, como Neil Young ou Bob Dylan.

Se é o melhor disco do ano nos Estados Unidos, eu não sei. ‘Wasting Light’, do Foo Fighters, para citar apenas um que adorei, é um adversário de peso nessa disputa. Mas isso pouco importa. ‘The King Is Dead’ é lindo.

Faixas:

01. Don’t Carry It All
02. Calamity Song
03. Rise to Me
04. Rox in the Box
05. January Hymn
06. Down By the Water
07. All Arise!
08. June Hymn
09. This Is Why We Fight
10. Dear Avery

Anúncios

O grão da voz

Não é sempre que encontro biografias tão reveladoras quanto ‘Come As You Are – A História do Nirvana’. Claro, eu já li biografias excelentes, mas quase sempre de personagens que não falaram diretamente com o entrevistador, seja porque já estavam mortos ou porque eram biografias não autorizados ou mesmo porque o próprio personagem resolveu não responder ele mesmo determinadas questões.

Neste livro do jornalista Michael Azerrad, que foi lançado em 1994, temos o próprio Kurt Cobain abrindo sua alma para um dos poucos profissionais da área no qual ele tinha confiança. E ao longo da leitura percebemos os motivos que fizeram Kurt odiar a imprensa. Na época que o Nirvana estava no auge eu já gostava da banda, mas não tinha noção de muito mais do que saber da existência de algumas canções. Eu não sabia das drogas, da sua dor de estômago, da sua infância na cidade madeireira de Aberdeen, estado de Washigton etc etc. Todos os cenários que compuseram o homem Kurt Cobain e que o levaram a criar o Nirvana.

Com depoimentos também muito reveladores de Chris Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria), além de empresários, produtores, pai e mãe de Kurt Cobain e uma infinidade de personagens, ‘Come As You Are’ sem dúvida foi uma das biografias mais tocantes e profundas que li.

Azerrad nos conta não somente a formação do Nirvana e do homem / artista Kurt Cobain, mas faz uma análise da indústria musical e da própria mídia, que por sinal mostrou-se preconceituosa, mentirosa e burra, como muitas vezes é. Gigantes como a Vanity Fair fizeram muito feio e quem ler a biografia saberá o motivo.

Após a leitura, eu que já era um grande fã da banda, me tornei um admirador maior do homem e do artista Kurt Cobain, porque apesar de não ser um anjo, era realmente uma pessoa boa e que não suportava o mal que as pessoas infligiam às outras sem razão. Kurt sofria com isso, sofria com sua dor excruciante de estômago e sofria por ter atingido um estrelato que não queria, apesar de obviamente fazer uma música que pretendia ser ouvida por muitos. Com esse texto tão sincero podemos entender os motivos que levaram Kurt a se drogar e no final das contas…cometer suicídio, no dia 8 de abril de 1994.

‘O grão da voz’ do título refere-se a uma expressão utilizada pelo semiólogo Roland Barthes que é encontrada em poucos seres humanos. Nos fala sobre uma voz que revela a alma humana, sentimentos que não conseguimos exprimir e que nos tocam profundamente. Acho que Cobain tinha esse dom.

O som do livro

A obra de Azerrad vale também pelas preciosas dicas de álbuns. Até agora escutei dois, como a coletânea do selo Sub Pop, o ‘Sub Pop 200’. No disco você encontra as bandas que começaram a história do grunge, como Soudgarden e Mudhoney, além do próprio Nirvana, é claro.

 

Outro disco excelente citado na biografia é ‘The Winding Sheet’, primeiro disco solo de Mark Lanegan, ex-vocalista do Screaming Trees. Neste álbum podemos encontrar as participações de Kurt Cobain e Chris Novoselic. Este é o álbum da linda ‘Where Did You Sleep Last Night’, que o Nirvana tocou em seu acústico, em 1994.