O fim do R.E.M. como banda

Mike Mills, Michael Stipe e Peter Buck

É com atraso que escrevo esse texto, mas não poderia deixar de falar sobre o fim do R.E.M, já que ela é até hoje minha banda predileta. O grupo anunciou seu término nesta quarta-feira (21), em seu site oficial, depois de 31 anos de existência. Até onde eu li não se sabe se os músicos continuarão com algum tipo de trabalho ligado à música. Bill Berry, o baterista original, que saiu em 1997, vive tranquilo com sua família e não mais se envolveu com algum tipo de atividade musical, além de uma participação em um show da sua ex-banda.

Achei algumas declarações dos integrantes sobre a despedida do grupo. Segundo o baixista Mike Mills, “tomamos a decisão juntos, amigavelmente e com os melhores interesses no coração de cada um. Parece ser a hora certa.” O vocalista Michael Stipe escreveu: “Eu espero que os fãs entendam que não foi uma decisão fácil. Tudo, no entanto, tem seu fim. Um homem sábio já disse que o talento de frequentar festas é saber a hora de ir embora.”

Bom, esse texto é uma homenagem à banda, onde revelo a importância do R.E.M. em minha vida e para o mundo da música, seus melhores discos e músicas boas em discos que eu considero regulares. No entanto, não há um disco do R.E.M. que eu diga que seja ruim (ou melhor, há um, e falo sobre ele quando comento a discografia da banda). Não é porque sou um grande fã, mas porque eu ouvi e tenho todos os discos do R.E.M e na minha concepção a banda sempre manteve uma digna regularidade e só lançava material quando seus integrantes estavam certos de que era algo decente (a não ser por esse deslize que comento lá embaixo).

O início para mim

Quem ama música e tem uma banda (ou mais) como referência sabe da importância desse

Berry, Mills, Stipe e Buck recebendo o Grammy em 1992

artista para sua vida. A primeira música que ouvi do R.E.M. foi ‘Losing My Religion’: foi paixão à primeira audição. Mas somente quatro anos depois, em 1995, fui ver o excelente clipe e ouvir os dois álbuns da banda: ‘Out of Time’ (1991) (onde se encontra ‘Losing My Religion’) e ‘Automatic for The People’ (1992). Nesta época a paixão (aquela que um dia todo mundo sente e pode dilacerar) rondava minha mente e ‘Automatic For The People’ se tornou por alguns anos a trilha sonora de minha vida., especialmente a 4ª faixa, ‘Everybody Hurts’.

Então, embora eu tenha me apaixonado por ‘Losing My Religion’ em 1991, foi somente em 1995, com a audição desses dois discos, que o R.E.M. se tornou oficialmente a minha banda predileta.

A influência do R.E.M. e sua importância

No início das bandas de rock alternativo, como Violent Femmes, por exemplo, o R.E.M. se destacou porque seu primeiro álbum, ‘Murmur’ (1983), entrou no Top 40 da Billboard e inspirou muitas bandas. Entre as músicas de ‘Murmur’ está a primeira faixa, ‘Radio Free Europe’, que é de fundamental importância para o cenário indie, já que esta canção foi executado pela primeira vez em uma rádio universitária em 1981 e conseguiu grande êxito a despeito da má vontade das grandes rádios. E isso acontece até hoje, em qualquer parte do mundo, com o jabá e a repetição enfadonha de artistas pouco talentosos.

O R.E.M. furou esse bloqueio e inspirou muitas bandas da época por romper o obstáculo entre o rock mais comercial e o rock alternativo. Mas não só bandas dos anos 80 foram inspiradas pelo grupo. Artistas dos anos 90 foram tocados pela maneira como o grupo construía sua carreira sem se vender, mesmo que possamos notar, com o passar dos anos, certa repetição na maneira de construir algumas canções. Mas afirmo aqui que não é fácil lançar muitos discos sem se repetir de alguma forma, o que não significa baixa qualidade das músicas.

No início da carreira, ainda com Bill Berry na bateria

É fato que pelo menos duas das mais importantes bandas nascidas nos anos 90 foram influenciadas pelo R.E.M.: Radiohead e Nirvana. Tom Yorke, líder do Radiohead, disse uma vez que o EP ‘Chronic Twon’, lançado pelo R.E.M em 1982, foi um de seus discos de cabeceira. Kurt Cobain, líder do Nirvana, admirava a forma como o R.E.M. fazia boas canções, que eram ao mesmo tempo comerciais e inteligentes. Cobain e Michael Stipe se tornaram amigos mais tarde. E é sabido que o cenário grunge talvez não fosse o mesmo caso o R.E.M. não tivesse surgido. Mais recentemente, em março desse ano, Julian Casablancas, vocalista dos Strokes disse que a música ‘You’re So Right’ tem influência do R.E.M.

Resumindo: O R.E.M. influenciou diversas gerações, muitas bandas e continua influenciando até hoje. O lema punk ‘faça você mesmo’ misturado com músicas boas e letras inteligentes foram fundamentais para sedimentar um cenário pop-rock alternativo que não ficasse restrito ao ambiente underground. O chamado pós-punk agora podia ser chamado de rock alternativo. A música ‘Radio Free Europe’ deu o empurrão.

Discografia comentada

Aqui vou fazer um breve comentário sobre cada disco da banda. Os melhores discos, de acordo com meu julgamento, estão em laranja.

‘Chronic Town’ (1982). Este EP com 5 músicas já traz uma das marcas sonoras da banda: a mistura de garage rock e folk. Sim, é este o disco que esteve presente na cabeceira de Tom Yorke.

 

Murmur (1983). Tá tudo aqui: as boas letras, as boas melodias, a interpretação marcante de Stipe, as linhas de baixo e as vocalizações de Mike Mills, os riffs belos de Peter Buck. Um excelente disco de estreia.

 

Reckoning (1984). A música ‘So. Central Rain’ foi um grande hit nas rádios universitárias e sem dúvida essa é a faixa de destaque do álbum.

 

Fables of Reconstruction (1985). Este disco vendeu 300.000 cópias, fruto do crescente prestígio do R.E.M. No entanto, a banda ainda não tocava nas rádios comerciais e nem na MTV. A velha desculpa débil do som não convencional. E precisar ser convencional para ser bom? Diziam também que as letras de Stipe eram pouco compreensíveis! Enfim, acho que os destaques desse disco ficam por conta de ‘Driver 8’ e ‘Green Grow The Rushes’.

Life’s Rich Pageant (1986). Esse disco marca uma mudança na sonoridade do R.E.M., que até então era considerada uma banda difícil de ser ouvida. A mão do produtor Don Gehman trouxe o vocal de Stipe para frente e limpou um pouco o som da banda, tornando-o mais acessível e mais vendido que o seu antecessor. Embora contenha a bela ‘Fall On Me’, as rádios ainda não deram chance ao grupo.

Dead Letter Office (1987). Essa coletânea traz lados B, raridades e o EP ‘Chronic Town’.

 

 

Document (1987). Eu gosto muito desse disco, mesmo que não o ame por inteiro. O R.E.M. vinha se consolidando disco após disco e Michael Stipe disse em entrevista que agora a banda “tinha letras”, já que antes a melodia estava à frente das mensagens. É o disco que traz ‘It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)’ e ‘The One I Love’.

Green (1989). Esse disco foi gravado com a banda já em outra gravadora, a Warner Bros. Foi a fase onde ela começou a fazer shows em estádios. Para mim, os destaques são ‘Orange Crush’ e ‘Pop Song 89’.

 

Out Of Time (1991). Acho que esse é o disco que levou o R.E.M. a outros ouvidos. É nitidamente diferente dos outros álbuns. O som está mais limpo, a banda está mais madura. É o disco que traz a excepcional ‘Losing My Religion’ com um clipe arrasador, um dos meus preferidos. Com certeza foi essa a música principal do álbum e que elevou a banda a outro patamar dentro da indústria. ‘Shiny Happy People’ traz a participação de Kate Pierson, do B-52’s.

Automatic For The People (1992). É o disco que mais gosto da banda. Tem um acento mais reflexivo, com excelentes melodias, letras e arranjos e uma sonoridade mais acústica. Alguns arranjos orquestrados foram conduzidos por John Paul Jones, do Led Zeppelin. Um disco lindo que traz, entre outros clássicos, ‘Everybody Hurts’.

Monster (1994).  A banda volta ao rock e com muita distorção.  Foi uma época complicada para o grupo, na qual os integrantes sofreram problemas de saúde. Bill Berry sofreu um aneurisma, Mike Mills retirou um tumor no intestino e Stipe foi operado para retirar uma hérnia. Antes disso, Kurt Cobain, comete suicídio. Ele e Stipe eram amigos e estavam planejando gravar juntos, mas Kurt decidiu tirar a própria vida. Courtney Love entregou ao grupo uma guitarra desenhada por Cobain e fabricada pela Fender sob medida. Com ela foi gravada a música ‘Let Me In’, escrita em homenagem ao músico. Gosto de baladas e em Monster podemos ouvir a bela ‘Strange Currencies’.

New Adventures in Hi-Fi (1996). Esse álbum foi gerido durante a turnê de Monster. Nesse período, o R.E.M. renovou com a Warner por 80 milhões de dólares. Um disco bom, mas que vendeu 1 milhão de cópias. Pouco, em relação aos outros três que chegaram a 4 milhões cada. Uma das músicas que mais gosto é ‘Bittersweet Me’, mas tem ‘Be Mine’, ‘The Wake-Up Bomb’ etc.

Up (1998). Bill Berry anuncia sua saída do R.E.M. e em ‘Up’ ele já não faz parte da banda. Um disco muito bom, com um R.E.M. que resolve utilizar experimentações eletrônicas. Infelizmente o álbum vendeu pouco, apenas 500 mil cópias, mas sem dúvida é muito bom. Tem ‘Lotus’, ‘Walk Unafraid’, ‘Suspicion’ e a linda ‘At My Most Beautiful’.

Reveal (2001). A banda resolve misturar tudo o que já fez: experimentações eletrônicas, acústicas etc. O resultado é um disco que traz o bom pop, com a qualidade de sempre do R.E.M. Sem dúvida o destaque é ‘Imitation Of Life’, mas o disco é bem mais: “The Lifting’, ‘All The Way To Reno’ e ‘I’ll Take The Rain’ são outras excelentes músicas.

In Time: The Best Of R.E.M 1988-2003 (2003). Uma ótima coletânea, que traz duas novas músicas: ‘Bad Day’ e ‘Animal’. O disco também possui um encarte com 40 páginas de texto de Peter Buck. Durante a turnê do álbum, Bill Berry foi convidado especial em uma das apresentações, onde tocou bateria em ‘Permanent Vacation’ e atuou como backing vocal em ‘Radio Free Europe’.

Around The Sun (2004). Como muitos artistas, o R.E.M foi influenciado pelo momento político delicado vivido pelos Estados Unidos após o ataque terrorista às Torres Gêmeas. O disco soa reflexivo e sombrio, porém é, para mim, o pior disco da banda. Peter Buck concordou comigo e disse que a banda não estava satisfeita com o material. Eu gosto da balada ‘Make It All Ok’ e só (ou talvez de uma outra que nem me lembre).

Accelerate (2008). Depois do fraco álbum anterior, a banda vem com um disco de rock básico, curto, com belas melodias e uma energia de começo de carreira. Para mim, um novo clássico do R.E.M. Um poderoso trio.

 

Collapse Into Now (2011). Queria que o último disco do R.E.M. também fosse mais um clássico. Claro, isso não acontece toda hora, e fiquei muito satisfeito quando ouvi o novo trabalho da banda e achei bom. Sinceramente eu gosto de todas as faixas, mas senti um ‘eu já ouvi isso’ em algumas músicas. É normal uma banda se repetir depois de muitas composições e isso não tirou a competência do álbum. ‘Oh My Heart’, ‘Alligator Aviator Autopilot Animatter’ e ‘Blue’ são músicas que adoro.

R.E.M. significa Rapid Eye Moviment (movimento rápido do olho), que é o estágio do sono no qual sonhamos. Como tudo na vida, o sonho também acaba, mas ele faz parte da realidade da pessoa e pode ser lembrado. O R.E.M. acabou como banda, como um meio desses artistas ganharem a vida, mas suas músicas poderão ser ouvidas a qualquer momento, estejamos acordados ou sonhando.

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2 pensamentos sobre “O fim do R.E.M. como banda

  1. Sandro, belo texto. Realmente hoje eu consigo ver a importância da banda e a qualidade dela. Ainda estou me habituando com a discografia, mas eu destacaria “Automatic for the people”, óbvio, e “Green”, que um amigo de escola me emprestou uma vez e eu curti bastante. E só conhecia REM por “the one i love” e “losing my religion”. E esses dois últimos são ótimos. Até acho Accelerate subestimado, porque é disco foda do início ao fim.

  2. Massa, Rodrigão, obrigado!!! “Automatic” é um disco fundamental em minha vida e é um disco lindo mesmo. Eu gosto muito do “Green” também. “Accelerate” é ótimo e muitas bandas de jovens roqueiros não conseguem compor músicas tão boas como as que estão nesse disco. Eu ouço direto!!! Vá lá no começo e ouça “Murmur”, que é um grande disco mesmo. Grande abraço!

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