A importância da Vida

Há alguns dias eu coloquei esse pequeno texto no facebook:

Eu balizo minha vida pelo Sol. Eu vejo as vaidades tolas, as guerras inúteis e tantas outras idiotices humanas. Bom, em um 1 bilhão de anos o Sol vai aumentar sua massa em 10%, elevando a temperatura da Terra em mais 38 graus. Em mais alguns bilhões de anos, ele se tornará uma Gigante Vermelha (aumentando seu tamanho em mais de 100 vezes), engolindo planetas como Vênus e Mercúrio e a própria Terra (mas não há consenso entre os cientistas sobre a “deglutição” do nosso planeta). Tudo isso vai acontecer em 5 bilhões de anos. O fato é que devemos aproveitar as maravilhas da nossa vida olhando para o essencial, porque a Terra será inabitável de qualquer maneira, mesmo que sobreviva à morte do Sol. Espero que encontremos um jeito, mas o ser humano precisa mudar seus valores!

Dito isto, ‘A árvore da vida’, de Terrence Malick, é um dos filmes mais importantes que já vi. Ele reuniu em imagens e texto o que há muito faz parte das minhas reflexões. Ou seja, seremos extintos em algum momento da história, seja por nossa sede de consumo que destruirá a Terra (Gaiarsa alertou sobre isso), seja por alguma catástrofe natural. O que nos resta, então? Penso que a resposta está no amor. Nada mais. E a mensagem do filme é ecumênica, não pertence a nenhuma doutrina religiosa específica porque pertence a todas: ser bom, praticar a bondade, amar as pessoas, dar valor às pequenas coisas da vida como um raio de Sol, como o próprio Malick, que também escreveu o roteiro, fala.

O filme nos apresenta uma típica família dos anos 50 que vive em uma pequena cidade do Texas. Brad Pitt faz o pai trabalhador, austero, autoritário, embora carinhoso em muitos momentos, dedicado à família. E Jessica Chastain faz a mãe protetora e exclusivamente devotada ao marido e aos filhos. Hunter McCracken (Jack O’Brien), Laramie Eppler (R.L) e Tye Sheridan (Steve) são os filhos do casal. Em um determinado momento da projeção, R.L, aos 19 anos, morre, o que promove o turbilhão de reflexões do filme.

O longa não possui uma história com começo, meio e fim, mas uma sucessão sem ordem de lembranças dos personagens, principalmente o de Jack (Sean Penn faz o personagem adulto), cuja ligação com R.L me emocionou, pois lembrei das brincadeiras com meu próprio irmão. Aliás, a dinâmica familiar, suas alegrias e dificuldades, brigas, são mostradas de forma muito sensível, com uma câmera que é quase sempre o olhar de Jack quando adolescente.

Para mim, o filme pode ou não ter a presença de Deus. Apesar dos personagens questionarem sua existência e obviamente nunca serem respondidos, acho que as belíssimas imagens do espaço, como planetas e gigantescas massas gasosas, além da própria natureza do planeta Terra (rochedos, oceanos), podem sugerir, para quem acredita, a presença de um ser superior. Ao mesmo tempo, a indiferença da natureza, que devora a tudo, também pode sugerir que não há Deus, mas apenas somos criaturas sortudas, vivendo em um minúsculo ponto no espaço à merce de um meteoro, por exemplo. Por isso, a morte de R.L. no fim das contas, talvez não signifique nada para a natureza, embora seja de uma dor excruciante para os pais. Onde está Deus neste momento? Ninguém sabe. Clamamos por um ser que não existe ou nos ouve e tem seus motivos para não responder? Ou responde e não somos capazes de entender?

McCracken, Pitt, Sheridan, Chastain e Eppler

O filme me tocou profundamente porque sou uma pessoa extremamente preocupada com a família, com sua segurança e também com o destino da humanidade. Me coloquei no lugar dos pais que perdem um filho porque tenho uma filha linda. Vi as imagens do Sol e suas explosões de milhões de graus e pensei nas sociedades humanas, nos caminhos tortos pelos quais andamos. O ser humano não pode ser medido pelo valor material que possui, mas pela sua capacidade de amar, de ser amigo, de ser verdadeiramente altruísta. Em um livro que li (e que citei aqui no Vinil), Frei Beto disse que o importante não é ter fé em Jesus Cristo (e eu digo até mesmo em Deus), mas a fé Dele. Ou seja, devemos cultivar e praticar todos os valores essenciais para que se viva em um mundo identificado muito mais com um abraço sincero do que com um novo celular ou um carro. Sob esse ponto de vista um ateu confesso pode ser uma pessoa extremamente espiritualizada.

Malick sabe disso e mostra em diálogos e imagens que a beleza da vida está justamente em amar e apreciar o que está a nossa volta, o que já é um milgre, para usar uma palavra ligada às religiões. Um dos personagens fala: “Ame os outros”, ou algo assim. Existe sentimento mais importante? Eu confesso que chorei uns trinta minutos ou mais durante a projeção. Não me lembro de ter chorado tanto em um filme no cinema. Lágrimas pelo futuro da humanidade, lágrimas pela cegueira (como Saramago também alertou) das pessoas, das sociedades, dos governantes bélicos…Mudemos!

A importância da Vida, com letra maiúscula mesmo, reside no óbvio!

Saindo do cinema

No livro “Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood”, Martin Scorsese disse que filmes como Star Wars prejudicaram o cinema que pretende promover algum tipo de reflexão, já que graças ao filme de George Lucas (e alguns outros como ‘Tubarão’), o cinema atual em Hollywood é feito de cortes rápidos e ação o tempo todo, sem muito o que dizer. Obviamente surgiram cineastas maravilhosos como Tarantino e mesmo filmes como Harry Potter, com sua narrativa fantástica e cheia de ação, nos apresentam momentos cinematográficos lindos (falo de texto também, claro).

Para mim, Terrence Malick fez um dos filmes mais sensíveis que já vi

Mas o fato é que filmes como o de Malick ainda não são engolidos com facilidade pela maioria das pessoas que frequenta os multiplexes. Filmes mais contemplativos são tidos como chatos. Óbvio que existem filmes chatíssimos, mas eu percebo que o público foge do raciocínio porque prefere algo já digerido.

Um casal que estava ao meu lado soltou um sonoro “filme chato” com vinte minutos de projeção e desceu as escadas bufando. Meu ponto de vista é que eles perderam um dos melhores filmes do ano.

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2 pensamentos sobre “A importância da Vida

  1. Normal, Rodrigão. Arte é assim mesmo. Não existe a mesma forma de perceber as coisas, a mesma forma de analisar. Depende do repertório individual e de outras particularidades. De qualquer forma, eu acho que o filme receberá alguma indicação ao Oscar.
    Sim, Malick tem essa formação, o que com certeza o ajudou a escrever de forma consistente o roteiro!
    Abraços!

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