Minha opinião sobre ’50 anos a mil’, de Lobão

Antes de começar a falar da biografia de lobão, eu preciso comentar algo que possui relação com o livro, mesmo que indiretamente. Caso não queira ler, pule direto para a resenha.

Recebi um dia desses um daqueles e-mails que pretendem lhe ensinar valores morais. O texto em questão, repassado por uma bondosa pessoa, continha um alerta de uma suposta psicóloga que era contra a cinebiografia de Cazuza, lançada há alguns anos.  No e-mail ela discorre de forma dura contra o filme e chama Cazuza de marginal, no sentido da bandidagem mesmo, e péssima influência para os jovens que o idolatram. O chama também de traficante, filhinho de papai, além de um ser que denigre a imagem da sagrada instituição família.

Bom, primeiro que essa psicóloga e a tal pessoa que passou o email desconhecem profundamente a história de Cazuza. Ele era, sim, um cara explosivo, com conflitos familiares e usuário de drogas, mas também um cara muito sensível que nos deu, juntamente com Lobão e outros artistas da sua geração, uma radiografia daquele tempo.

Todos que conviveram com Cazuza ressaltam suas qualidades como amigo e como filho. Um cara doce, embora temperamental. Cazuza não fazia apologia ao uso das drogas, pelo contrário, como disse em uma canção, por sinal composta em parceria com Lobão: “Eu não posso fazer mal nenhum, a não ser a mim mesmo”. Quer devassidão maior que vender cerveja com celebridades e mulheres gostosas?! De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), por ano, cerca de 2,2 milhões de mortes prematuras ocorrem por causa do uso de álcool. Mas é tudo bonitinho, colorido e sensual! Enfim, essas duas senhoras esquecem ou não conhecem que Cazuza fez muitas canções sobre o amor, a paz, a amizade, a hipocrisia humana, as desigualdades sociais, etc!

E o que dizer sobre a intocável instituição FAMÍLIA? Pois é, um dos meus mestres, Dr. José Ângelo Gaiarsa, dizia que a psiquiatria nasceu por conta dos problemas enfrentados pelas pessoas dentro de suas amadas famílias. Disse ele que 80% das consultas giravam em torno dos desentendimentos familiares. Eu considero a família algo importantíssimo, mas chega de tapar os olhos, de fugir do fato de que a família como a conhecemos sempre foi um celeiro de maus tratos físicos e psicológicos. Há muito mais farpas que união! Então, que tipo de família deve ser defendida?

Se realmente foi uma psicóloga que escreveu o tal e-mail, digo que é despreparada. E a mulher que repassou o texto, com toda boa intenção, precisa fazer uma crítica à sociedade na qual vivemos e parar de espalhar o odioso vírus da “moral e bons costumes”.

Ufa! Se chegaram até aqui, façam um esforço e leiam abaixo.

Enfim, “50 anos a mil”. Com cerca de 600 páginas, a autobiografia de Lobão,  escrita em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli, é reveladora até para quem é um fã do músico como eu. O que a gente sabe de João Luiz Woerdenbag Filho é o que sempre saiu na mídia ou deixou de sair e o que ele fala, sempre de forma contundente. Mas quando alguém resolve escrever uma biografia, se for honesto, as filigranas dos acontecimentos serão reveladas, mesmo que uma coisa ou outra seja esquecida. E um personagem como Lobão tem muita coisa pra contar. Eu senti honestidade em seu relato e achei o texto bem escrito, apesar de conter alguns erros de revisão. Nada que comprometa o instigante texto.

Ele não teve medo de revelar coisas duríssimas do seu passado, como o conturbado relacionamento familiar, no qual entre outras coisas, foi extremamente mimado pela mãe, até sua violenta briga com o pai, no qual quebrou seu violão na cabeça do seu genitor.

Outra coisa que me impressionou no livro foi a luta de Lobão contra a moralidade estabelecida, que o julgava como uma ameaça à sociedade até o ponto de conseguirem, com muita hipocrisia e calhordice, prendê-lo. O juiz que decretou a sentença de um ano de prisão, em pleno julgamento pediu a um policial que guardasse a muamba que ele encomendou de algum país! O juiz realmente falou muamba durante o julgamento! Inacreditável!

Lobão foi e continua sendo um cara importantíssimo para a indústria musical, já que partiu dele a iniciativa de numerar os CDs, além da inserção dos códigos ISRC – International Standard Recording Code nas músicas, que ajudam no combate à pirataria. Inclusive a pirataria feita dentro da própria indústria fonográfica, já que os artistas não tendo controle sobre as vendas são ludibriados pelas gravadoras recebendo bem menos que merecem.

Na biografia também há histórias engraçadas como, segundo Lobão, a obsessão de Herbert Viana por suas composições, sua forma de cantar e até suas escolhas como artista. Conta Lobão que quando Herbert ouviu “Me chama” disse que o tema era lindo e logo depois escreveu “Me liga”.  Ao ouvir “Cena de cinema”, escreveu “Cinema mudo”, entre outras provas de que o líder do Paralamas do Sucesso nutria uma enorme admiração pelo lobo. Mas o leitor decide se Lobão tem razão ou não! Para mim, ficou claro que Herbert deu uma copiadinha, sim!

Durante as centenas de páginas, o leitor descobre que por baixo da personalidade explosiva, incisiva, que não poupa ninguém, existe um propósito: Lobão quer mover, quer debater, quer destruir com modelos idolatrados e para isso pagou e paga um preço alto, sendo alijado da mídia e das grandes gravadoras. A postura agressiva de Lobão, para mim, é necessária e fundamental, mesmo que não se possa sempre concordar com suas posições, claro.

Outra coisa que ficou clara para mim foi a humanidade de Lobão. Ou seja, ele disse que sempre quis uma mulher para viver a vida toda com ele, e encontrou Regina. Tem seus gatos, gosta de assistir novela, é empresário, um grande instrumentista, além de lutar pela diversidade cultural e pela livre expressão. Se reinventa a todo momento e sempre vem melhor. Prova disso é sua evolução como compositor, sua empreitada como editor da revista Outra Coisa, que lançou dezenas de artistas, e suas atuações como apresentador. Como um cara desses pode ser nocivo à sociedade? Eu sei: porque ele opina e é duro com o poder, com as corporações e com o bom gosto cego.

Nada pode ser mais humano ou demasiado humano, como disse Nietzsche, o filósofo que Lobão já leu todos os livros.

Eu peço que assistam a essa intensa e hilária entrevista de Lobão! As outras partes vocês encontram com facilidade no You Tube.


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3 pensamentos sobre “Minha opinião sobre ’50 anos a mil’, de Lobão

  1. Adorei o texto que fala da moral e bons costumes. As pessoas adoram falar sobre isso, mas como já diz o ditado: macaco não olha pro rabo. A violência no trãnsito, é causado muitas vezes por conta do àlcool, sem contar nas brigas dentro da própria família. As pessoas bebem pra esquecer seus problemas e acabam descontando (o que n teria coragem de fazer sóbrio) faz ébrio…E mais: cada um faz da sua vida o que quer, se meu vizinho fuma ou bebe, o problema é dele. As pessoas devem parar de colocar a culpa em fulaninho e parar de querer fazer parte de grupos (ou seja, ter a mente fraca)…bjos e obrigada pela força no blog…bjos

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