Crítica: Tropa de Elite 2

Dos muitos comentários que ouvi antes de ver ‘Tropa de Elite 2’, o mais corriqueiro foi o de que as pessoas deviam tê-lo visto antes de votar, assim muitos políticos não teriam sido eleitos. Bom, será que alguém ainda duvida que é por conta também da leniência e da corrupção dos governantes que a violência não é reduzida e que as favelas, a pobreza, o circo grotesco e violento é necessário para manter esses mesmos governantes no poder? Eu não duvido. Talvez não saibamos os pormenores da podridão, mas que ela existe é fato. Os maus políticos são a falsa cura para os males de milhões de pessoas.

Dito isto, afirmo que a primeira hora de ‘Tropa’ não passa do mesmo caleidoscópio que estamos, infelizmente, acostumados a ver todos os dias na televisão, jornais impressos, internet etc. Violência, falsas promessas e mais violência. Sendo que na TV, as tintas ganham mais dramaticidade. Enfim, o que interessou para mim no longa do diretor José Padilha é como essa violência afeta a vida das pessoas, como interfere em seus cotidianos. O roteiro do próprio Padilha juntamente com Bráulio Mantovani nos revela isso de forma muito sagaz.

Agora meu grito: TROPA DE ELITE 2 É UM FILME MARAVILHOSO!!!

O filme, para mim, ganha seu ponto de transformação quando estamos na penitenciária de segurança máxima Bangu 1. Lá, uma rebelião comandada por Beirada (Seu Jorge, fabuloso no papel) ameaça se transformar em uma carnificina. O agora Coronel Nascimento (Wagner Moura) e seus homens do Bope têm a chance de dar fim à rebelião matando Beirada, um dos traficantes mais perigosos da época. No entanto, chega ao presídio o professor de História e ativista dos direitos humanos, Fraga, para tentar impedir que mais mortes aconteçam. O clima fica tenso e mesmo com os apelos de Fraga (Irandhir Santos, também muito bem no papel), o Bope mata Beirada e outros bandidos. Os corpos são mostrados para o mundo via TV e até a opinião pública internacional condena a atidude do Coronel Nascimento e seus homens.

O resultado disso é que o Coronel Nascimento é afastado das suas funções do Bope e promovido a subsecretário da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A partir daí, engendra um plano para dar continuidade ao combate à criminalidade, lutando também contra os corruptos do sistema. Mas, para a infelicidade de Nascimento, o sistema não quer combater a violência, já que esta é a máquina de votos que mantém maus políticos no poder, assim como maus policiais, milícias (introduzida nesta sequência), etc. Esses são os novos inimigos que Nascimento terá que combater.

Aí eu volto ao que disse no primeiro parágrafo. Sabemos dessas relações promíscuas do poder e que qualquer tipo de corrupção deve ser extirpada da sociedade. Mas o que mais me interessou no filme é como essa violência afeta as relações humanas, nosso cotidiano.
Nesse ponto, o roteiro, claro, é centrado na figura do Coronel Nascimento. E aqui quero
aplaudir a atuação estupenda de Wagner Moura, com sua economia de expressões que ao
mesmo tempo revelam a intensa carga emocional que vive seu personagem.

Seu Jorge e o diretor José Padilha

No primeiro ‘Tropa’ seu filho nasce em meio à conturbada vida dele no Bope. Sua relação com a esposa vive constantemente abalada por conta do seu estressante trabalho. Nesta sequência, Nascimento está separado da esposa Rosane (Maria Ribeiro), que casou com Fraga (sim, o ativista e mais tarde deputado estadual) e seu filho Rafael já é um adolescente. Nascimento tem que lidar com o afastamento do filho, que pensa que a profissão do pai é simplesmente matar pessoas. A despeito de qualquer defeito do ser humano Roberto Nascimento, é a violência que modifica sua vida, sua relaçao com a ex-esposa, com o filho e com ele mesmo, já que não deve ser nada fácil observar a brutalidade de tão perto. Não há ser humano que saia ileso.

Ao longo da projeção sentimos que Fraga e Nascimento são quase antagônicos, já que um defende os direitos humanos e outro quer acabar com a criminalidade, matando se for necessário. No entanto, à medida que os acontecimentos vão se desenrolando, fica claro que os dois têm o mesmo objetivo, já que Nascimento percebe que sempre foi usado pelo sistema para prover seu ciclo de corrupção e politicagem. Nascimento combatia o crime para um sistema que não queria combatê-lo.

Quando Nascimento percebe que foi usado e que o sistema não perdoa nada nem ninguém, está pronto para ser o próximo a ser morto. Sua revolta e desconfiança começam quando André Matias, seu amigo e que foi treinado por ele no Bope, é assassinado por policiais durante uma operação em uma favela. O ápice de sua raiva se dá quando seu filho é atingido por uma bala durante uma emboscada, onde se encontra também Fraga e Rosane.

Nascimento quer destruir tudo, denunciar os policais corruptos, os políticos assassinos.
Reúne provas. Uma CPI é instalda pelo agora deputado estadual Fraga. Nascimento é um dos depoentes e escancara a sujeira. Com isso, consegue colocar alguns políticos na cadeia, afastar policias. Mas claro, a corrupação não chega ao fim. O governador é reeleito e o sistema se reorganiza, forma novos laços, mata quem não serve mais. A roda gira novamente. Nascimento terá mais trabalho pela frente.

Durante seu depoimento, Nascimento lembra que seu filho hospitalizado um dia perguntou, quando tinha 10 anos, por que seu pai matava. Nascimento não soube responder, não sabia os motivos. Esse desabafo do Coronel deixou claro para mim a falta de sentido das guerras, da violência e do estado psicológico no qual vivemos: o medo é parte do cotidiano nas grandes cidades e quase achamos estranha a ideia de vivermos em paz, já que o normal é o estado de violência. Vivemos preocupados. Não há como esse modelo de sociedade não afetar nossas vidas e nossas relações pessoais.

O filme termina mostrando Brasília. Imagem gratuita? Claro que não. E sabemos bem a razão ou as razões.

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2 pensamentos sobre “Crítica: Tropa de Elite 2

  1. Realmente o filme é perfeito, é de indignar ver toda essa sujeira bem à frente dos nossos olhos e chegar a conclusão de que somos meros patrocinadores disso tudo. Ao sair do cinema, um sentimento de raiva tomou conta de mim e a vontade que tive era, como num passe de mágica, virar o capitão nascimento e acabar com toda essa lama de uma vez por todas. Mais como ele mesmo disse no filme, o sistema se renova. Parabens sandro Caldas pelo sua brilhante critica a este filme fantástico, que é o retrato do nosso país.

    Joselito Junior

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