Sexualidade sem culpa

varandaUm dos livros mais importantes que li nestes últimos tempos chama-se ‘A cama na varanda’, da escritora e psicanalista carioca Regina Navarro Lins. E por quais motivos este livro é tão importante? Digo ‘quais’ porque são muitos os temas que ele trata sobre a sexualidade humana.

A primeira vez que me apaixonei por uma mulher foi aos 17 anos, ela tinha 14. Passei quase 7 anos da minha vida esperando uma chance, um beijo quem sabe. Nada. Durante sete anos sofri, criei dezenas de canções, escrevi contos regados a vinho, escrevi até um livro, veja só. Livro horrível, mal escrito, mas meu desabafo em 140 páginas.

Não me arrependo de ter amado esta pessoa. Foi de um importância fundamental em minha vida, me fez crescer, amadurecer, me fez criticar a paixão, o amor, o sentimento de dilaceramento que nos percorre. Eu acreditava fielmente no amor romântico, aquele em que duas pessoas passam a ser uma, aquele que afirma que duas pessoas vão se amar e se desejar eternamente. Existem casais que conseguem, na prática, viver o amor romântico? Creio que sim, embora ache que sempre exija sacrifícios pessoais.

A origem do amor romântico está muito bem descrita por Regina Navarro em seu livro. A busca frenética por um par que nos complete gera sofrimento, culpa, sensação de fracasso. Nossa alma gêmea está em algum canto desse planeta a nossa espera e basta encontrá-la para que nossos dias de tristeza cheguem ao fim. Mentira. Isso é falso, porque no amor romântico ama-se o fato de estar amando, não necessariamente ama-se a pessoa. Foi o que me fez sofrer tanto por aquela menina do segundo parágrafo. Eu amava a impossibilidade de tê-la.

A primeira história na literatura que descreve o mito do amor romântico é ‘Tristão e Isolda’, que no final das contas não se amam. Tristão e Isolda precisam um do outro para sentir paixão, mas não querem o outro como ele verdadeiramente é. E como a nossa cultura valoriza tanto o amor romântico, nos filmes, nas novelas, nas músicas, tem-se a impressão de que ele é o certo, de que ele é a única forma de amar. Não é.

O conjunto de valores da nossa cultura contemporânea, já devidamente impregnado depois de séculos de lavagem cerebral, diz que amar é amar uma única pessoa. Sexo e fidelidade se misturam (para que etendam: Regina Navarro defende a ideia – aceita por mim – de que infidelidade se separa da sexualidade. Ser infiel é passar a pessoa pra trás, não querer seu bem etc. O mesmo para a palavra ‘trair’). Trair é moralmente errado. Homossexuais são discriminados. Homens são fortes, mulheres são frágeis. Homens fazem sexo, mulheres fazem amor. Homens são naturalmente infiéis, mulheres são vítimas da descaração masculina. Sem ciúme não há amor, etc, etc!

Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Regina Navarro prova, utilizando nossa própria história, que homens e mulheres não viviam em guerra de gêneros, que homens e mulheres viviam sua sexualidade sem tratar o outro como sua propriedade. Que homens e mulheres eram parceiros. Infelizmente essa realidade data de um período milhares de anos antes de Cristo.

Atualmente vivemos sufocados por culpas religiosas, fruto de uma cultura judaico-cristã que inferioriza a mulher e transforma o sexo em algo pecaminoso quando não vivido dentro das grades da moral estabelecida.

Quero que chegue o dia no qual ninguém sinta ciúme, que ninguém deposite no outro a culpa da sua infelicidade, que qualquer um possa viver sua sexualidade sem se sentir culpado, que uma pessoa possa amar várias sem precisar escolher com qual ficar. Ou seja, quero que qualquer ser humano seja livre para escolher seu modelo de felicidade. Claro, para chegarmos a esse nível leva tempo, reflexão, mudança de costumes. Mesmo para quem concorda com tudo que eu disse aqui, não é fácil, precisa-se de coragem. Mas o primeiro passo é ler e refletir.

Já li obras de autores que me abriram muito os olhos para o erro que estamos vivendo quando assunto é sexo, quando deixamos de exercer nossa capacidade de seduzir para corresponder aos ideais de uma cultura que mais despreza o amor do que o valoriza. Mas foi a leitura do texto de Dra. Regina que retirou o último véu que cobria meus olhos. A cada livro, seja de Camille Paglia ou de Mirian Goldenberg, um véu escorregava pela minha face e caía no chão. As coisas iam ficando claras, límpidas. Mas foi ‘A cama na varanda’ que me deu a consciência máxima de que um dos motivos para o sofrimento humano vem de uma cultura que nos tiraniza, que não nos deixa brincar com a mais poderosa energia presente em nosso ser: a sexual.

Para ir além:

‘Por que homens e mulheres traem?

mirian

‘Personas sexuais’

personas-sexuais

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