O livro é como a roda

naocontemcomofimdolivroCrer no fim do livro em papel é como crer, como um dia foi, no fim do cinema por conta da invenção do videocassete ou no fim da pintura por causa da fotografia. Nada disso aconteceu. O cinema, mesmo depois da chegada do DVD ou Blu-Ray, continua atraindo milhões de pessoas às suas salas escuras. Experiência que ainda permanece excitante, emocionante. O livro em papel, esse objeto perfeito, é como a roda: uma vez inventada, não tem como ser aperfeiçoada.
O fim do livro, ou melhor, a não extinção desse objeto de conhecimento e beleza, é o que trata uma outra obra em papel chamada “Não contem com o fim do livro” (Ed. Record, 269 páginas). O livro gira em torno do diálogo entre o semiólogo e escritor Umberto Eco (que escreveu, entre outros livros, o premiado “O Nome da Rosa”, que virou filme com Sean Conery) e Jean-Claude Carrière, escritor e roteirista que trabalhou com o cineasta Luis Buñuel. O diálogo é mediado pelo jornalista Jean-Philipe de Tonnac.

O livro é interessante porque, apesar dos dois protagonistas serem eruditos, não cai na chatice do intelectualismo muitas vezes vazio e compreensivo apenas para os poucos que têm a chave para decifrar os hieroglifos verbais que caracterizam alguns “intelectuais”.

Tanto Umberto Eco quanto Jean-Claude são bibliófilos, colecionadores apaixonados por livros, com bibliotecas pessoais que variam entre 30 a 50 mil volumes. Claro, como eles mesmo dizem, nem todos foram lidos, porque o que importa muitas vezes é a aquisição de um exemplar raro, cuja importância merece estar nas mãos de quem conhece do assunto. Uma coisa, talvez boba, mas que me deixou feliz, é que pelo menos umas três a quatro vezes o nome de José Mindlin é citado.

Dentre os assuntos tratados pelos dois escritores está a impossibilidade de lermos tudo que queremos, os livros que fazem de tudo para cair nas nossas mãos até os incensados e-books – como não falar deles? São qunize capítulos com grande variedade de citações literárias, cinematográficas, etc. Ou seja, muitas dicas podem ser pescadas.

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière

Um dos capítulos, entre muitos interessantes, que gostaria de comentar é sobre essa questão dos suportes duráveis, que para os dois, e com razão, nada mais são do que suportes efêmeros. Incrível como muitos pensam que esses meios são mais seguros, eternos quase. Quem se lembra do disquete? Quem ainda tem um CD-ROM? Até os DVDs, coitados, estão próximos da extinção. O livro em papel, no entanto, atravessou séculos e continua vivo como suporte confiável de armazenamento de dados e perfeito como objeto que podemos carregar de um lado para o outro, sem precisar de bateria, nem tomada.
Os leitores de e-books como o Kindle ou o brasileiro Positivo Alva, além de serem caros, não são confortáveis para a leitura. E mesmo que cheguemos a um suporte de leitura maravilhoso (que por sinal, deve imitar a absorçao de luz da folha de papel), ainda assim a perfeição do livro impresso não será substituída. Esse estardalhaço em volta dos leitores digitais tem uma razão mercadológica, está em fase de aperfeiçoamento, de discussão. Mas vai passar e o livro impresso coexistirá ao lado do seu parente eletrônico.

Sexualidade sem culpa

varandaUm dos livros mais importantes que li nestes últimos tempos chama-se ‘A cama na varanda’, da escritora e psicanalista carioca Regina Navarro Lins. E por quais motivos este livro é tão importante? Digo ‘quais’ porque são muitos os temas que ele trata sobre a sexualidade humana.

A primeira vez que me apaixonei por uma mulher foi aos 17 anos, ela tinha 14. Passei quase 7 anos da minha vida esperando uma chance, um beijo quem sabe. Nada. Durante sete anos sofri, criei dezenas de canções, escrevi contos regados a vinho, escrevi até um livro, veja só. Livro horrível, mal escrito, mas meu desabafo em 140 páginas.

Não me arrependo de ter amado esta pessoa. Foi de um importância fundamental em minha vida, me fez crescer, amadurecer, me fez criticar a paixão, o amor, o sentimento de dilaceramento que nos percorre. Eu acreditava fielmente no amor romântico, aquele em que duas pessoas passam a ser uma, aquele que afirma que duas pessoas vão se amar e se desejar eternamente. Existem casais que conseguem, na prática, viver o amor romântico? Creio que sim, embora ache que sempre exija sacrifícios pessoais.

A origem do amor romântico está muito bem descrita por Regina Navarro em seu livro. A busca frenética por um par que nos complete gera sofrimento, culpa, sensação de fracasso. Nossa alma gêmea está em algum canto desse planeta a nossa espera e basta encontrá-la para que nossos dias de tristeza cheguem ao fim. Mentira. Isso é falso, porque no amor romântico ama-se o fato de estar amando, não necessariamente ama-se a pessoa. Foi o que me fez sofrer tanto por aquela menina do segundo parágrafo. Eu amava a impossibilidade de tê-la.

A primeira história na literatura que descreve o mito do amor romântico é ‘Tristão e Isolda’, que no final das contas não se amam. Tristão e Isolda precisam um do outro para sentir paixão, mas não querem o outro como ele verdadeiramente é. E como a nossa cultura valoriza tanto o amor romântico, nos filmes, nas novelas, nas músicas, tem-se a impressão de que ele é o certo, de que ele é a única forma de amar. Não é.

O conjunto de valores da nossa cultura contemporânea, já devidamente impregnado depois de séculos de lavagem cerebral, diz que amar é amar uma única pessoa. Sexo e fidelidade se misturam (para que etendam: Regina Navarro defende a ideia – aceita por mim – de que infidelidade se separa da sexualidade. Ser infiel é passar a pessoa pra trás, não querer seu bem etc. O mesmo para a palavra ‘trair’). Trair é moralmente errado. Homossexuais são discriminados. Homens são fortes, mulheres são frágeis. Homens fazem sexo, mulheres fazem amor. Homens são naturalmente infiéis, mulheres são vítimas da descaração masculina. Sem ciúme não há amor, etc, etc!

Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Regina Navarro prova, utilizando nossa própria história, que homens e mulheres não viviam em guerra de gêneros, que homens e mulheres viviam sua sexualidade sem tratar o outro como sua propriedade. Que homens e mulheres eram parceiros. Infelizmente essa realidade data de um período milhares de anos antes de Cristo.

Atualmente vivemos sufocados por culpas religiosas, fruto de uma cultura judaico-cristã que inferioriza a mulher e transforma o sexo em algo pecaminoso quando não vivido dentro das grades da moral estabelecida.

Quero que chegue o dia no qual ninguém sinta ciúme, que ninguém deposite no outro a culpa da sua infelicidade, que qualquer um possa viver sua sexualidade sem se sentir culpado, que uma pessoa possa amar várias sem precisar escolher com qual ficar. Ou seja, quero que qualquer ser humano seja livre para escolher seu modelo de felicidade. Claro, para chegarmos a esse nível leva tempo, reflexão, mudança de costumes. Mesmo para quem concorda com tudo que eu disse aqui, não é fácil, precisa-se de coragem. Mas o primeiro passo é ler e refletir.

Já li obras de autores que me abriram muito os olhos para o erro que estamos vivendo quando assunto é sexo, quando deixamos de exercer nossa capacidade de seduzir para corresponder aos ideais de uma cultura que mais despreza o amor do que o valoriza. Mas foi a leitura do texto de Dra. Regina que retirou o último véu que cobria meus olhos. A cada livro, seja de Camille Paglia ou de Mirian Goldenberg, um véu escorregava pela minha face e caía no chão. As coisas iam ficando claras, límpidas. Mas foi ‘A cama na varanda’ que me deu a consciência máxima de que um dos motivos para o sofrimento humano vem de uma cultura que nos tiraniza, que não nos deixa brincar com a mais poderosa energia presente em nosso ser: a sexual.

Para ir além:

‘Por que homens e mulheres traem?

mirian

‘Personas sexuais’

personas-sexuais

Beba mais brancos!

 

Foto: Sandro Caldas

Foto: Sandro Caldas

 

Neste domingo, primeiro dia de agosto, resolvi sair da hibernação. Foi necessário. Ler mais, ouvir mais, ver mais, e trazer coisas interessantes (espero que seja interessante pra quem ler).E aí, parece que vem tudo de vez!

Nesse texto, que retira o urso polar, resolvi falar sobre vinhos brancos. Eu nunca tinha feito um texto sobre vinhos, uma das minhas paixões. Embora não seja nenhum sommelier, acho que tenho o direito de escrever sobre essa bebida tão apreciada, cheia de segredos e magias.

Durante o período em que estive ausente do blog, li um livro muito interessante chamado ‘Superdicas para entender de vinho’ (Editora Saraiva, R$ 12,90), da sommelier Lis Cereja. E digo uma bobagem aqui: Lis estudou Gastronomia na Universidade Anhembi-Morumbi, em São Paulo, onde estudei Comunicação por dois semestres.

Mas, quem sabe o que significa ser sommelier? Este profissional é o responsável pelo serviço do vinho, por eleger os rótulos de uma carta de vinho, saber harmonizá-los, saber serví-los à mesa corretamente.

Bom, mas apesar de todas as 60 dicas desse pequeno e precioso livro serem maravilhosas, uma me chamou a atenção: por qual razão ou razões, em um país como o Brasil, tropical, quente quase o ano todo, as pessoas consideram os vinhos brancos inferiores? Criou-se o mito de que vinho bom é vinho tinto e a verdade está muito longe disso.

Eu mesmo, sempre que compro um vinho, escolho um tinto. Não por não gostar dos brancos, mas por puro vício. Confesso que gosto mais dos tintos, mas resolvi mudar meus hábitos e comprar um branco.

Comprei um Concha y Toro, chileno, sauvignon blanc (uma uva mais ácida). E quem disse que vinho bom é vinho caro? Vinho é uma bebida abstrata, que depende muito do paladar de quem a bebe. Então, nao adianta ter uma garrafa de R$ 1000 na mão. O vinho pode ser excelente tecnicamente, mas não agradar a todo mundo. Meu veredito: adorei.

Conclamo: bebamos mais brancos. Há uma infinidade de rótulos!

É como diz Lis em seu livro: a vida é muito curta para nos restringirmos a um só tipo de vinho.

Para saber mais:

http://www.sitedovinhobrasileiro.com.br

Dica de leitura:

Superdicas para entender de vinho, de Lis Cereja

livro