O despertar de uma paixão

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despertar

Os atores Pierre Baitelli e Malu Rodrigues

Posso contar nos dedos das mãos o número de vezes que fui ao teatro. Não que eu não goste, pelo contrário, mas a facilidade em ver filmes e ouvir discos é muito maior para mim, principalmente com o advento da internet, que possibilita o contato com milhares de opções e de forma gratuita. E claro, tanto a música quanto o cinema são as formas de arte pelas quais sou apaixonado.

O Submarino, A Bofetada (2 vezes), Novíssimo Recital da Poesia Baiana (2 vezes), Suburbano Coração, Casas de Cazuza e Quem Matou Maria Helena foram os espetáculos que vi até hoje.

Ontem, 21, antes de dormir, resolvi passar alguns canais e me deparei com o programa da TVE chamado “Arte”, apresentado pelo ator Sérgio Britto. Deixei rolar e simplesmente adorei o que vi: O Despertar da Primavera. Foi a primeira vez que tive vontade de viajar para ver um espetáculo teatral. Tenho esperança da peça aportar por aqui..estou rezando para isso! Temos o Teatro Castro Alves, oras!

Charles Möeller no lançamento do seu livro Os Reis dos Musicais

Charles Möeller no lançamento do seu livro "Os Reis dos Musicais"

A peça é dirigida por Charles Möeller com supervisão musical de Cláudio Botelho, dois veteranos dos musicais, com 22 encenações no currículo…e os caras são novos! Graças a Deus e a eles o mercado de musicais no Brasil cresceu e pode ser considerado algo respeitável, a ponto da Broadway liberar os direitos da peça para que os dois brasileiros fizessem as modificações que achassem cabíveis.

Letícia Colin é Ilse

Letícia Colin é Ilse

Eu sempre fui fascinado pelo universo dos jovens, dos adolescentes em particular, porque é uma fase muito estranha, de modificações extremas, que provocam maremotos internos, tornados de hormônios. E durante esses anos vi a maioria dos textos sobre este universo descambar para o clichê vergonhoso.

Imagine a repressão da Alemanha do final do século XIX? Pois é, nesse cenário onde questionar era obsceno vem o excelente escritor Frank Wedekind e coloca em seu texto, de forma crua e genial, questionamentos a respeito do incesto, da masturbação, da virgindade, do estupro, do aborto, da homossexualidade etc etc. Por conta disso a peça só pôde ser encenada de forma profissional 83 anos após ser escrita!

Rodrigo Pandolfo (Moritz), Pierre Baitelli (Melchior) e Malu Rodrigues (Wendla)

Rodrigo Pandolfo (Moritz), Pierre Baitelli (Melchior) e Malu Rodrigues (Wendla)

Eu fui atrás de tudo a respeito dos atores, dos diretores, das músicas, e de fato tudo que ouvi e li só me fez ficar mais apaixonado pela montagem brasileira da peça de Wedekind. Saí hoje para comprar o livro, mas não achei em lugar nenhum. Nem na Estante Virtual, que costumo encontrar tudo, o livro estava disponível! Decepção!

Bom, abaixo retirei um texto do site do diretor, que explicar melhor a peça, seu contexto histórico etc. Clicando aqui você pode ver o site completo, com muitas fotos, ficha técnica e outras histórias sobre a montagem. Clicando aqui você pode fazer de forma gratuita o download das músicas que fazem parte do espetáculo.

O Despertar Original e seu autor

Frank Wedekind

Frank Wedekind

‘O Despertar da Primavera’ se passa na Alemanha no final do século XIX e conta a história de Melchior Gabor e Wendla. Ele, um jovem brilhante e rebelde que ousa questionar os dogmas vigentes. Ela, integrante de uma família de classe média alta, educada por uma mãe com rígidos princípios morais e religiosos. O encontro dos dois irá provocar a explosão do desejo, da vontade de conhecer o sexo e o amor. A história deles se cruza com a de vários outros jovens, como o oprimido e trágico Moritz ou a bela Ilse, que tem a coragem de usufruir de sua liberdade e se aventurar pelo mundo. Todos têm que enfrentar o peso da repressão e do conservadorismo, nos mais diversos estágios da sociedade. Questões como abuso sexual, violência doméstica, gravidez na adolescência, prostituição e suicídio e homossexualismo, entre outros, vêm à tona na vida desses jovens.

A peça original denunciava os preconceitos e o conservadorismo das três principais instituições que regem a educação do homem: a família, a igreja e a escola. É considerada um dos precursores do expressionismo, movimento artístico que se caracterizou por uma oposição ao naturalismo. O teatro expressionista é anti-realista, utilizando-se, quase sempre, de uma dramaturgia combativa com ênfase nos conflitos sociais e de um estilo de cenografia que optava pela fantasia, com espaços que não são mero fundo para a ação teatral, mas interagem e atuam como um novo personagem.

O original de Wedekind causou imensa polêmica na época de seu lançamento por tocar em tabus e levantar a bandeira da liberdade, questionando a repressão tanto no seio da família quanto no sistema de ensino alemão. Sem encontrar editores que bancassem o projeto, o próprio autor financiou a publicação, em edição limitada. A primeira montagem foi apenas em 1906, tendo o jovem Peter Lorre no papel de Moritz e Lotte Lenya como Ilse, mas logo o espetáculo foi proibido, e em 1908 foi vetada qualquer manifestação sobre ‘O Despertar’, com punições que poderiam levar os infratores para a prisão.

Em 1912, Wedekind conseguiu novamente montar o texto na Inglaterra, mas somente em alemão e com portas fechadas.  Nos Estados Unidos, a autorização para uma versão em inglês foi obtida apenas em 1917, mas um dia antes da estreia, em Nova York, o espetáculo foi novamente vetado. Com a mobilização da classe artística local, foi possível uma única apresentação. No ano seguinte, Wedekind faleceu e não pôde assistir ao renascimento da sua peça, que, com o apogeu do nazismo, ficou esquecida durante anos.

A filha de Wedekind, Kadidja, se exilou na América e conseguiu montar o espetáculo na Universidade de Chicago, em 1958. Logo, ‘O Despertar da Primavera’ se tornou obrigatório nas escolas norte-americanas e virou um hino entre os jovens, com uma série de encenações ao redor do mundo.

A primeira montagem profissional e não adulterada de ‘O Despertar da Primavera’ se deu apenas em 1974 na Inglaterra, 83 anos após o texto ter sido escrito. A produção foi extremamente incensada e reverenciada pela crítica, e muito de sua força vinha da brilhante tradução de Edward Bond, “escrupulosamente fiel à poesia e ironia de Wedekind”, segundo o London Times. Esta versão inglesa foi a base de todo o trabalho de adaptação para o musical.

Wedekind foi, sobretudo, um feroz inimigo da hipocrisia social e combateu dogmas da sociedade, especialmente na sua negação dos instintos sexuais. Escreveu espetáculos polêmicos como ‘O Espírito da Terra’, ‘A Caixa de Pandora’, e ‘A Morte e o Demônio’, que compunham a trilogia ‘Lulu’. “Ele pagou um alto preço por ter coragem de desmistificar os tabus e celebrar a vida. A cultura ocidental reverencia a morte, mas recusa o ponto de partida, que é o sexo. Ele sabia que a informação era uma arma poderosa. A ignorância leva ao extermínio”, finaliza Charles.

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