Entrevista: Valdeck Almeida de Jesus

capa3Valdeck Almeida de Jesus, 43 anos, é jornalista, funcionário público, editor de livros e palestrante. Membro correspondente da Academia de Letras de Jequié e efetivo da União Brasileira de Escritores. Embaixador Universal da Paz. Publicou os livros “Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden”, “Feitiço contra o feiticeiro”, “Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia”, “30 Anos de Poesia”, “Heartache Poems”, dentre outros, e participou de mais de 60 antologias. Organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005, o qual já lançou mais de 600 poetas.

Nesta entrevista ele fala da poesia baiana, de suas influências, do mercado editorial brasileiro e muito mais.

Você pode conhecer mais sobre Valdeck, além de textos do autor pelo site: www.galinhapulando.com.

Se quiser entrar em contato com Valdeck, seu e-mail é valdeck2007@gmail.com.


1 – O concurso Valdeck Almeida revela muitos autores de poesia no Brasil. Algum desses autores já obteve alguma repercussão que ultrapassou as páginas da colêtanea organizada por você?


Sim… São muitos os participantes, cerca de 200 todo ano. Poderia citar, por exemplo, Leandro de Assis, que participou de uma oficina de poesias, em 2005, quando coloquei um estande na Bienal do Livro da Bahia. Ele foi um dos selecionados para o livro “Poemas que falam”, lançado naquele ano.


Após a publicação da antologia, Leandro me procurou para perguntar como se publica um livro. Dei várias dicas e meses depois ele me apareceu com poemas originais que mantinha guardados em gavetas. Fiz sugestão de correções ortográficas, prontamente aceitas. O sonho dele, de publicar um livro próprio, estava a apenas alguns passos. A insistência com que o poeta me escrevia me chamou muito a atenção. Ele me pediu para prefaciar o livro e encaminhar para editoração. Fiz e, algum tempinho depois, ele me apareceu, todo faceiro, com um exemplar produzido de forma independente por uma editora carioca. Foi o primeiro passo desse poeta.


Na época ele cursava História e não tinha muito tempo para dedicar à literatura. Após a conclusão do curso, sua sede de escrever e de promover arte o fez fundar o projeto Fala Escritor, que acolhe poetas inéditos e publicados. Todo segundo sábado de cada mês essa galera se reúne em um grande shopping da cidade pra recitar, declamar, lançar livros, cantar e encantar uma plateia cada vez mais heterogênea. A última edição do Fala Escritor foi durante o Fórum Social Mundial Temático, em Salvador, com lançamentos de vários livros e o encontro de poetas e cordelistas de vários estados.


Acho que este é o principal exemplo, mas tenho notícias de outros escritores que realizam concursos, lançam livros e elaboram projetos pelo país a fora, incentivados pela participação no Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia.


2 – Falando no prêmio, que vai publicar este ano 133 autores na sua coletânea, é muito difícil fazer a seleção? Dói deixar algumas pessoas de fora? Somente você escolhe ou tem uma equipe que avalia? Conte um pouco desse processo, Valdeck.


Doer, dói. Este prêmio não tem taxa de inscrição nem os participantes são obrigados a comprar exemplares do livro pronto, como ocorre em vários projetos de antologia que existem por aí.


Eu iniciei este prêmio para dar oportunidade a tantos poetas sonhadores que, como eu, ficam imaginando que um dia alguém dará chance à poesia e aos inéditos. Penei por mais de 20 anos, acreditando em promessas vãs, até que resolvi botar o pé na estrada e fazer acontecer.


Muita gente fica de fora, pois eu não tenho condições de bancar um projeto maior. Eu pago tudo, eu recebo os trabalhos via e-mail ou pelos correios, vou catalogando durante o ano inteiro. Em dezembro eu envio os textos para uma equipe composta por escritores, professores de língua portuguesa e literatura, um jornalista, um relações públicas e leitores. Depois da seleção, vem a pior parte: anunciar os vencedores e avisar àqueles que não puderam entrar no livro. Uma vez recebi uma mensagem de um poeta mineiro, que mais parecia um recurso para um evento grandioso. Ele implorava que o seu texto fosse revisto e que entrasse no livro. Infelizmente, por causa de espaço, não pude atendê-lo e chorei muito, em silêncio, no meu quarto, pois sabia que aquela poderia ser uma chance única para aquele poeta. Resolvi, então, fazer um livro separado, somente com os poetas que não tinham sido selecionados. Publiquei-o virtualmente, num desses sites da internet. Não somente ele ficou muito feliz e me agradeceu muito, como recebi um montão de mensagens me endeusando, me dizendo palavras belas, lindas e maravilhosas que me incentivaram a manter o projeto, apesar da falta de apoio.

Este ano resolvi continuar publicando o livro principal, com os textos escolhidos e um outro, secundário, onde entram todos os inscritos. O livro principal é lançado nas Bienais do Livro de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Os dez primeiros colocados no livro principal, recebem um exemplar da coletânea. Os demais, infelizmente, caso desejem obter o livro, devem comprá-lo, a preço de custo, pois o projeto não visa lucros. Até 2007 eu enviava exemplares gratuitos a todos os participantes, mas, a partir de então, não pude mais bancar isso, pois no ano seguinte foram 242 selecionados e uma edição grande como essa custa uma fortuna, o que não possuo.


3 – Valdeck, você saberia responder por que o mercado editorial para poesias é tão fraco no Brasil? Claro, podemos pensar em falta de estímulo nas escolas, etc. Você tem alguma teoria? As pessoas realmente se interessam pouco por poesia? Ou será que há poucos poetas de qualidade? Qual sua avaliação?


Há milhões de poetas no país. A maioria engavetada, por medo, vergonha ou falta de incentivo. Falta estímulo nas escolas, pois a educação atual é voltada para preparar pessoas para o mercado de trabalho, que é mecânico, mercantilista e que só visa a produção em larga escala.


Poesia é algo sublime. Arte é sensibilidade e precisa de tempo e espaço, o que hoje em dia custa caro. As pessoas querem resultado financeiro, querem comprar carro, morar em bairros “nobres” e isso toma o tempo todo, do trabalho para casa e vice-versa. Competir no mundo atual é algo insano. Você precisa matar uma manada de animais gigantes todos os dias, para juntar umas moedas. E o preço das mercadorias sobem vertiginosamente, obrigando aos operários a trabalharem cada vez mais para garantir, no máximo, a ração diária de comida… Não sobra tempo para reflexão, para pensar e criticar o processo de sobrevivência.


As pessoas que pensam, que revolucionam, precisam ser freadas pelo sistema. Então, a solução é não incentivar leitura, não incentivar a escrita, não incentivar pensadores, pois isso tudo é prejudicial ao sistema. Não publicar poesias ou literatura que abale os alicerces do sistema é benéfico para quem tem o poder. Fica mais fácil governar um estado com milhões de analfabetos funcionais do que abrir as portas para o debate… Então, eis a resposta…


4 – Gostaria que você citasse poetas baianos ou não que influenciaram sua escrita, se houver tais autores. Também gostaria que citasse alguns poetas ou escritores de romance da nova geração que você identifica como grandes talentos.


Eu leio de tudo, desde criança… De rótulos de shampoos a bulas de remédio, literalmente. Eu não tive condições para comprar livros, ter acesso a uma educação tradicional e de boa qualidade. Sempre frequentei escolas públicas e lia revistas e livros achados no lixo. Dentre os escritores que me influenciaram posso citar Augusto dos Anjos, Castro Alves, Gregório de Matos, Jean Wyllys, Domingos Ailton (Academia de Letras de Jequié), Jorge Amado, Guimarães Rosa, Machado de Assis, dentre outros. Não sei como classificar um escritor. Cada um tem um talento, uma forma peculiar de escrever e de enxergar o mundo, todas válidas… Cada um tem uma dimensão, um valor único.


Da nova geração de escritores que conheço de perto, posso citar:

Léo Dragone, um romancista que tem linguagem cinematográfica. O primero livro dele, “Diário de Rafinha: as duas faces de um amor”, é um sucesso entre os leitores. Quem pega não consegue largar até o final. Dragone prende o leitor, faz a pessoa ficar curiosa e instigada. Sua escrita encanta a jovens e adultos. Ele é uma das grandes promessas da Bahia nos últimos anos.


Renata Rimet, poeta também iniciante, que fala do cotidiano, das coisas simples e do dia a dia com um toque de magia. A poesia dela já invade o mundo literário via internet e faz sucesso também.

Leandro de Assism, poeta e cronista. Os textos dele falam do social. Ele é um observador crítico, que esquadrinha uma praça ou um feijão na rua com um escâner particular, ou seja, a visão de um homem sensato e sensível. Já está no segundo livro de poesias.


Carlos Conrado, natural de Jacobina-BA, que reside em Aracaju. Homem de letras, de pincéis e de eventos. Genial nas poesias críticas, muito bom em recitar. Promove a cultura em Sergipe e já invade a Bahia com seus textos ácidos e bem escritos.


Domingos Ailton, professor de duas universidades, membro da Academia de Letras de Jequié, jornalista, homem de mil talentos. A escrita dele varia de ensaios a poemas.


Grigório Rocha, poeta e sindicalista. Uma arte não inviabiliza a outra. Pelo contrário: Grigório consegue mesclar o melhor de seus dois dons, produzindo poemas de grande profundidade e sensibilidade marcante.

Carlos Alberto Barreto, tradicional na promoção de cultura e arte em Salvador, está à frente da revista Art Poesia, que comemora 11 anos em 2010. Produz antologias de poesias, escreve contos e crônicas. É membro da Academia de Letras do Recôncavo.


Carlos Souza, jornalista e poeta. Escreve artigos para jornais e incentiva a literetura baiana através do apoio na divulgação em jornais, revistas e sites de jornalismo.


Sandra Stabile, poeta e promotora de antologias de poesias. Seus temas preferidos são o amor e a paz.


São tantos que eu relutei muito em citar alguns, para não ser injusto com os que minha memória não me ajuda a recordar.


5 – O que representa em sua vida o ato de escrever? O que este ato significa para seu organismo? Clarice Lispector disse que seria impossível a vida sem a escrita. Para você é assim?


A escrita para mim já é um vício, um vício bom. Eu não consigo colocar os pensamentos em uma tela, fazer um quadro. Meus dedos, uma caneta, as teclas de um computador são como que parte de meu corpo. Escrever é uma válvula de escape, pois eu explodiria se não pudesse derramar no papel ou na tela de um PC tudo o que produzo mentalmente. Sou muito dinâmico e ansioso, produzo o tempo todo. Fico com tiques nervosos se não tenho uma caneta e um papel onde anotar ideias. Às vezes digito mensagens no meu celular e envio para mim mesmo, para não esquecer de algo. É uma verdadeira compulsão. Mas sempre preciso de um tempinho, entre uma produção e outra, para descansar, recarregar as baterias. Às vezes produzo um livro inteiro em um mês, ou fico anos tentando terminar um outro. Muitas vezes eu desligo o celular e o telefone fixo, saio pela cidade, andando, dirigindo ou de ônibus, apenas dando um rolé, olhando o movimento, e daixando a mente descansar… Acho que todo mundo precisa de descanso. Mas logo em seguida retomo o vício de produzir, produzir, produzir…


6 – Em minha opinião, a internet veio para ajudar muitas pessoas que sempre quiseram ver seus textos lidos por outras pessoas. O Recanto das Letras é um exemplo disso. O que você acha da internet para a atividade do escritor? Ela realmente ajuda? E no que diz respeito à qualidade dos textos, você encontra mais ou menos textos bons? Qual a sua avaliação do meio?


A internet é apenas mais um suporte. Não vai fazer ninguém ter fama ou cair no ostracismo, somente por ser um veículo novo, de muitas possibilidades. Há muita coisa boa na rede, mas também há muito lixo e coisas que não merecem publicação. Mas é um direito de todos expressarem suas ideias, dizerem o que pensam. Nesse sentido, a internet veio preencher uma lacuna, dar vez àqueles que jamais terão chance nos jornais impressos, na televisão ou no rádio. A principal qualidade que percebo, além da democratização da informação, é que a rede de computadores, quando bem utilizada, pode, sim, ajudar de forma positiva qualquer profissional, seja ele da linguagem da imagem, do áudio ou da escrita.


7 – O que te inspira, Valdeck? Existem temas mais recorrentes em seus textos ou você escreve sobre tudo? Realmente é um processo de escultor das palavras, com muito suor, ou vem com facilidade? Ou acontecem as duas coisas?


Comigo não tem aquela de “faz um poema pra mim”, pois só faço aquilo que me comove, que me faz sair do lugar comum. Eu jamais escreveria um livro por encomenda, mesmo que ganhasse milhões para isso. O que me incomoda em jornalismo, curso que estou fazendo, são os limites de letras para um título, ter que falar dessa ou daquela forma, seguir padrões e se encaixar num modelo preestabelecido.

Minha literatura é solta. Escrevo tudo o que me emociona, tanto positiva quanto negativamente. Eu não seria um bom assessor de imprensa, por exemplo, pois no dia que o patrão pedisse para fazer um release falando bem de uma ação dele ou inventando algo para “florear” um acontecimento, eu pediria demissão ou seria demitido sumariamente. Sou muito resistente a fórmulas.


Quando escrevo um poema, não faço rascunhos. O texto vem inteiro. E eu devo escrevê-lo assim que ele me vem à mente, caso contrário, se eu deixar para escrever mais tarde, não consigo mais lembrar de nada, não consigo mais rimar “casa” com “asa”.


8 – Uma pergunta que sempre faço: o que representa Deus pra você?


Deus é a natureza, sou eu, é cada um dos viventes, sejam os chamados “animais irracionais” ou os homens. Deus é tudo, é o comando, o leme, o horizonte, é a luz no fim do túnel e além do túnel. Sem Ele eu não seria nada.


9 – Fale um pouco das suas preferências musicais, cinematográficas, artistas plásticos etc. Estas outras formas de arte lhe ajudam a escrever?


Eu não tenho talento para outra coisa senão a escrita. Já tentei canto por seis meses, mas sempre me perdia nos compassos, tempos, essas coisas. No teatro eu sou um bom expectador (risos). No palco talvez eu servisse como comediante, ou num tipo de stand up improvisado. Não gosto de me esforçar para memorizar textos, recitar etc. Não tenho sequer um poema de memória. Frequentei um curso de teatro por um ano e meio e o máximo que consegui foi descobrir que a minha era literatura… Não posso lidar com tintas, por causa de uma alergia… Só me resta escrever.


Gosto de todo tipo de arte:

Músicas: da clássica ao pagode de péssima categoria, como alguns da nova geração; do axé ao rock, do arrocha ao bolero, do tango à lambada. Depende da ocasião e da companhia…

Cinema e TV: novelas, comédia, documentários, fimes de ação e aventura, policiais, ficção científica etc.

10 – E por último, quero que me diga o que um bom escritor deve possuir? Talento basta?


Talento é um dom. Muita gente tem talento e não desenvolve, não pratica. A solução seria escolas, treinamento. Escrever é uma arte que exige leitura, paciência, codificar e decodificar símbolos, ler textos e ler a vida, imagens e sons. E para tudo isso é preciso paciência, como já disse e muita dedicação. O sucesso e o reconhecimento virão com o tempo.

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10 pensamentos sobre “Entrevista: Valdeck Almeida de Jesus

  1. Valdeck para mim é mais que um amigo, representa a esperança, pela garra e o amor que investe nas letras. Um trabalho sério, voltado para apoiar e transformar o ser humano cada vez melhor. Só tenho que agradecer a existência de um ser assim.

  2. Muito boa a entrevista… eu nao conhecia este escritor… que bom que a Bahia ainda tem gente ligada em literatura e levando o nome do Estado para longe.
    A midia precisa conhecer melhor nossos produtores culturais, divulgar mais nossas joias e dar espaço para todos. A Bahia não é só Jorge Amado e João Ubaldo… Ainda bem!!

  3. É muito bom ouvir Valdeck Almeida de Jesus, que, por não deixar-se abater, é um guerreiro sempre vencedor!
    E, Sandro, parabéns! Teu site é um lugar muito legal para se navegar. Voltarei mais vezes.
    Um grande abraço.

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