Alicia Silverstone

E Deus criou Alicia

E Deus criou Alicia

Antes das “Patricinhas de Beverly Hills” (1995), eu vi Alicia Silverstone em três clipes, todos da banda Aerosmith: “Cryin”, “Crazy” e “Amazing”. Não preciso dizer, mas vou, que Alicia fez parte do meu imaginário libidinoso! Achei aquela loira absolutamente linda e quando vi filmes como Patricinhas  e séries como “Miss Match” (2003), bati o martelo: Alicia unia beleza extrema e talento dramático.

Fato é que ela não tem uma filmografia digna de elogios e empreitadas como “Excesso de Bagagem” (1997), que a atriz produziu, e que contou com a participação de Benicio del Toro,  se tornaram um fiasco.

Hoje, ao 32 anos, Alicia continua linda e torço para que ela volte com algum trabalho, em televisão ou cinema, para que eu possa me deleitar com seu talento…dramático e estético!!! O último trabalho dela no cinema foi “Elektra Luxx,” que deve chegar em 2010 por aqui.

Deixo vocês com um clipe que conta um pouco da carreira da atriz e ao fundo traz a música Amazing:

O futuro da internet e um curta como exemplo

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Professor André Lemos

Nesta terça, 15, às 22h, assiti ao TVE Debate, que trazia o tema “O Futuro da internet”. Na mesa, os professores André Lemos e Nelson Pretto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um terceiro convidado que, me desculpem a falha, não me recordo o nome, embora o conheça.

Não consegui o programa no you tube, mas creio que em breve ele estará disponível. Caso algúem queira ver a reprise pela televisão, vai ao ar aos sábados, às 21:30 e aos domingos, às 21h.

Questões como direito autoral, novas tecnologias da informação, convergência das mídias, produção de conteúdo, segurança na rede, entre outros temas, foram discutidos com inteligência e clareza pelos convidados. Um tópico que me chama sempre atenção é do direito autoral.

Vemos muitos artistas reclamarem do download, da ilegalidade desse tipo de ação. Mas eles (logo eles!) e o senador Eduardo Azeredo (autor do Projeto de Lei da Câmara dos Deputados nº 84 de 1999, a chamada Lei Azeredo, que “dispõe sobre os crimes cometidos na área de informática e suas penalidades”) ainda não comprenderam que temos que nos livrar das anitgas formas de mercantilização.

Sim, mas como os artistas vão sobreviver? O Mercado, com letra maiúscula, sempre encontra um meio. O artista precisa sobreviver, assim como qualquer outro ser humano, mas seria um retrocesso pensar que a internet é a vilã do ganha-pão do artista. Ela dissemina sua obra com uma velocidade e permite que milhares e milhares, quando não milhões, tenham acesso à sua produção.

O pensamento já não deve ser comercial, mas artístico de fato: fazer arte para ser vista, ouvida, lida e não como um mero produto vendável. O artista tem de ter hoje menos a preocupação de vender, e sim de mostrar.

Não há na internet espaço para coibições desse tipo. É de sua natureza a troca de informação, a não triagem das grandes corporações do que devemos consumir.

Penso que devemos ter meios legais para impedir e punir os crimes digitais, mas a sociedade e quem faz as leis devem estar atentos para que as possibilidades que a internet nos oferece não acabem nos mesmos moldes do passado. A arte, dentro do universo cibercultural, está sendo democratizada, levada a um número cada vez maior de pessoas.  Claro, não devemos esquecer a exclusão digital, que é um outro problema que deve ser combatido para que cada vez mais cidadãos tenham acesso ao que está disponível na web.

Dentro desse contexto de troca de informações, de twittadas, de downloads e uploads, ofereço a vocês o curta “Ziriguidum de amor”,  de um rapaz chamado Fábio Uchôa, que estuda Cinema e Animação (ele não disse onde estuda nem de onde é) e que colocou seu filme no youtube. Eu mesmo fiz um curta chamado “Casados, mas infelizes”, que está em VHS e ainda não tive como passar para o meio digital. Mas assim que o fizer, postarei meu curta no youtube, sem dúvida.

Seria muito difícel para Fábio fazer com que seu trabalho fosse visto de forma tão ampla e de forma rápida se não existissem sites como este. Quando vi o filme de Fábio, as visualizações já estavam próximas de 800!

Este exemplo remete ao que o professor André Lemos falou no TVE Debate. Hoje a questão não é tanto a produção do conteúdo em si, porque mesmo dentro de um ônibus você pode escrever um poema ou criar uma canção com seu violão, em um banco de praça. O que é fantástico na internet é poder espalhar sua obra pela rede, sem que executivos de gravadoras ou editoras, por exemplo, não gravem ou publiquem e divulguem seu trabalho.

Independente da qualidade, o fato é que a internet possibilita a disseminação da cultura sem fronteiras e sem cortes. Sabemos que ações estão sendo tomadas para restringir o uso da internet, inclusive com servidores que dificultam a navegação por um site que julgam não ser “apropriado” para o internauta, ou seja, um site que não é economicamente interessante para esse mesmo servidor.

Abaixo, “Ziriguidum de amor”, de Fábio Uchôa.

O fim de uma saga

amanhecerk2Acabei de ler o 4º volume da série Crepúsculo, da autora americana Stephenie, que se chama Amanhecer, e confesso que me decepcionei com o último livro. Na minha análise é o pior dos quatro. Penso que se a autora condensasse em uma trilogia, poderia tornar a história de amor entre Bella Swan e Edward Cullen um pouco menos arrastada.

Stephenie abarrota Amanhecer de páginas e mais páginas de pura enrolação. E sabem qual o nome do último capítulo? “Felizes para sempre”. Nada mais clichê, não? Ela estica tanto a massa, que quase cria buracos.E por falar em buracos, os livros estão cheios de falhas narrativas. Vou citar uma de Amanhcer, que afinal está mais fresco em minha memória. Antes, uma aviso: quem ainda não leu o livro e pretende fazê-lo, não leia as linhas abaixo. Mas caso você seja um leitor que não se importa com spoiler, siga em frente.

Qual pai e mãe não se dariam conta da estranheza de um casamento que foge aos padrões católico? Falo nesse caso específico. Será que uma mãe e um pai não perguntariam a sua filha o motivo de não casar na igreja, mesmo por mínima curiosidade? Não, Charlie e Renné, respectivamente pai e mãe, apenas deixam o barco seguir, sem nenhum tipo de questionamento. Assim também o fazem todos os convidados humanos: ninguém questiona em nenhum minuto a escolha de Bella em prescindir dos rituais católico.

Bom, a série é um fenômeno de sucesso no mundo e claro, como todo produto da cultura pop, arregimentou fãs enlouquecidos. Quem encontra falhas narrativas nos livros ou os acha escritos de forma medíocre (eu, por exemplo), no mínimo não entendeu a história ou não conseguiu compreender a “linguagem” da autora. Li isso em comentários em outros blogs.

Para mim, o que fica dessas quase 2 mil páginas dos romances é uma história previsível, cheia de furos, com poucos coisas interessantes a acrescentar na mitologia dos vampiros, como por exemplo o fato deles não queimarem ao sol, mas irradiarem pontos de luz que os tormam brilhantes. Desa forma, suas identidades seriam reveladas. Isso achei legal. Agora, vampiros sem presas? Ficam muito menos assutadores. Isso eu não gostei! Outra coisa que eu não gostei é que os livros são quase assexuados, sem tesão. Vampiros e sedução andam juntos; sempre há um forte apelo erótico. Coisa que não li e nem senti, talvez pela formação religiosa da autora.

Os livros de Stephenie Meyer já começaram a ganhar os cinemas. Crepúsculo foi adaptado em 2008. Fui ver na esperança de quê a narrativa cinematográfica tornasse a história melhor. Não aconteceu. Achei o filme chato, ruim, bobo. Lua Nova, segundo volume da série, está programado para estreiar em novembro deste ano. O diretor foi trocado. Será o começo da salvação da saga cinematográfica. Veremos.

Entrevista: Malu Fontes

Sempre leio com atenção o que Malu escreve. Independente de se concordar ou não com as suas ideias, gosto da maneira como ela desenvolve seus argumentos, sempre de forma apaixonada, o que me lembra outra mulher que admiro: Camille Paglia. Nesta entrevista, um pouco de artes, política, televisão, jornalismo, Internet, Deus e Carnaval.

 

maluJornalista, mestre e doutora em comunicação e cultura contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da UFBA; professora adjunta da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. 44 anos, dois filhos. Foi repórter de política do Jornal da Bahia e do jornal A Tarde, assessora de imprensa da Rede Sarah de Hospitais em Salvador, Assessora de Imprensa da Reitoria da UFBA, professora das faculdades Jorge Amado, FTC e FIB. É ainda comentarista free lancer de cultura noticiosa da Rádio Metrópole e colunista free lancer do jornal A Tarde. É pesquisadora associada em direitos humanos e gênero do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero/Anis, sediada em Brasília.

 

1 – Quero começar a entrevista com uma análise sua sobre o ensino de Jornalismo em Salvador. Suas deficiências, seus triunfos, seus vícios, o que pode ser melhorado etc.

 

Em virtude da explosão das redes de ensino privado em todo o país nos últimos anos, vários cursos de jornalismo foram abertos e é fato que não havia professores de excelência em número suficiente para dar conta dessa demanda de professores que surgiu. Do mesmo modo, muitos dos alunos que acorreram para esses cursos não o fizeram movidos exatamente pelo talento, pelo interesse em ser jornalista, sob o ponto de vista do desejo de traduzir o mundo, de transformar fatos em notícia. Muitos o fizeram movidos pelo glamour que o cinema, os meios de comunicação, a literatura, de certo modo sempre associaram ao jornalismo e aos jornalistas. Os profissionais de imprensa da televisão, apresentadores famosos, jornalistas que vivem na fronteira entre a carreira e aparições como celebridades, como ocorre com Ana Paula Padrão, o casal Fátima Bernardes e William Bonner, Glória Maria, entre outros… Muita gente escolheu e escolhe fazer jornalismo pensando em se tornar famoso, celebridade, em ser apresentador de TV, viver em festas de gente famosa, quando, na realidade, sobretudo no Nordeste, em Salvador mais ainda, a realidade dos profissionais de imprensa, com raras exceções, não tem nada de glamour. O mercado é exíguo, os salários são péssimos. Depois do boom de cursos, o que se vê hoje é a maioria deles em processo de decadência, com muitas faculdades há vários semestres não recebendo o número mínimo de alunos para uma turma sequer. É difícil apontar os vícios e virtudes de instituições que a gente conhece só de nome, mas acho que a principal dificuldade é o número insuficiente de professores de fato competentes e bem formados para dar conta do número imenso de cursos que foram abertos. Tudo sempre pode ser melhorado, mas agora que o Supremo decretou o fim da obrigatoriedade do diploma, qual faculdade particular vai se dispor a investir ainda mais para tornar seus cursos, já esvaziados antes mesmo dessa mudança, mais qualificados? O que deve acontecer é que apenas pouquíssimos cursos, além do da UFBA, devem sobreviver. Ficarão os melhores, mais estruturados e esses não mais terão turmas grandes.

 

2 – E, por falar no ensino de Jornalismo, não posso deixar de citar a decisão do Supremo Tribunal Federal, que no dia 17 de junho deste ano, derrubou a exigência do diploma. Você acha que o canudo é fundamental ou é apenas um resquício da ditadura militar? O que pensa da afirmação do ministro Carlos Ayres Britto, que disse que bastam “olho clínico” e “intimidade com a palavra” para ser um jornalista? Que importância tem a formação acadêmica?

 

Uma coisa é o papel burocrático do diploma, ao qual sou favorável, mas sempre admiti flexibilidade, sem fundamentalismos, como é a tese daqueles que queriam impedir que até mesmo um fotógrafo que não tivesse diploma trabalhasse em redações, que profissionais de outras áreas não pudessem ser articulistas, colunistas, comentaristas. Outra coisa é a importância da formação, do investimento intelectual em uma carreira construída a partir de uma grade curricular específica de uma graduação. Não se deve confundir o diploma com talento e garantia de boa formação. Mas a boa formação e a construção da carreira numa faculdade eu considero fundamental para um jornalista que vai atuar nos veículos de imprensa, fazer a cobertura da vida da cidade, do país. A formação acadêmica é essencial, pois produzir informação é uma atividade específica. Sempre digo aos meus alunos que a vida não produz notícias, produz fatos, fenômenos, acontecimentos e que transformá-los em notícia exige uma técnica específica, um talento para a construção de uma narrativa que não é literária nem linear, descritiva. O discurso jornalístico não é uma mera descrição do mundo, é um modo específico de narrar os fatos. Nesse aspecto, considero as pessoas que passam por um curso de jornalismo as mais habilitadas para produzir informação. Canudo, para mim, é um papel, apenas. A questão mais importante não é o canudo, mas o simbolismo que ele pode conter. Digo pode porque há quem saia de um curso de jornalismo com um canudo na mão, mas é completamente desprovido de capacidade de narrar bem o mundo. Costumo dizer que há gente que passa pela faculdade, mas não consegue fazer com que a faculdade passe por si.

 

3 – Quem faz o melhor webjornalismo no Brasil? Gostaria que você citasse quem, na sua visão, produz bom webjornalismo. Aqui em Salvador, no geral, ainda somos vítimas da mera transposição do papel para os bits ou há alguma menção honrosa? Ainda restarão jornais e revistas táteis? Como deve ser um bom jornalismo on-line?

 

Acho que os bons profissionais da TV, do impresso, de jornais e revistas ou vindos desse universo, são os melhores da web. Se você me perguntar quem eu admiro, jornalista, que despontou diretamente na web, que não veio de outros suportes, não sei, não conheço nenhum. Leio com prazer na web as mesmas pessoas que já respeitava antes. É difícil citar nomes, sob pena de ser injusta. Adoro Bob Fernandes, Ricardo Noblat e muitos jornalistas do impresso, como os da Folha, do Globo, que mantêm blogs.

 

4 – Barack Obama tem Facebook e você tem Twitter. Para quem pode desfrutar da Internet, ela abre muitos caminhos para informações que antes estavam pouco acessíveis. Um oceano de cultura a poucos cliques. Quero uma análise sobre esse fenômeno e um exercício de futurologia: o que ainda podemos esperar da Internet?

 

Impossível apontar expectativas para a Internet, pois é da natureza do fenômeno não ter limites. Os jovens viciados em tecnologia a cada dia surpreendem com fenômenos que se tornam avalanches no mundo. Literalmente há tudo a esperar da Internet e dos usos que se fará dela. Certamente nossos modos de sociabilidade vão ser cada vez mais radicalmente alterados, e não digo isso com nenhuma melancolia. Não tenho nenhuma resistência a mudanças, acho que tenho um nível praticamente ilimitado de adaptação ao que é novo e tenho alergia de conservadorismo, estagnação. A Internet faz parte da minha vida tanto como almoçar, ter amigos, dormir, ler jornal, livros, revistas. Não vivo sem e não me considero uma dependente tecnológica. Apenas gosto muito de informação e das possibilidades que encontro na Internet. Paradoxalmente, tenho desprezo pelas pessoas que parecem viver em função dela. Conheço pessoas que não têm vida social, redes de relacionamento afetivo reais e vivem brincando de serem felizes e descoladas na Internet, com nenhum equilíbrio emocional, do ponto de vista afetivo, sem uma rede de apoio formada por gente de carne e osso que possa ser encontrada pra um café, um cinema. Há pessoas que parecem viver como se o Orkut, o Facebook, o Twitter fossem uma dimensão da vida, e a mais importante. É como se dá também com muita gente em relação à televisão. Gosto de quem vê a vida na TV, mas acho doentio quem vê a vida pela TV.

 

5 – Como este blog trata basicamente de assuntos ligados às artes e sendo um jornalista que sonha em ter uma revista sobre cultura (no papel ou on-line), quero saber: existe bom jornalismo cultural em nossa terra? Qual sua visão sobre o conteúdo crítico feito sobre arte em Salvador?

 

Como pode haver bom jornalismo cultural se vivemos numa cidade, hoje, com uma monocultura, um axé/pagode de uma nota só, com um dos piores sistemas educacionais do país? Sem um leitor com alguma formação cultural, sem a formação de público, de platéia, quem faz jornalismo cultural em profundidade vai falar para meia dúzia de pessoas. O que predomina no cenário cultural de Salvador é a cultura do apelo sexual, a musicalidade que remete aos instintos mais primitivos, com todo um conjunto de artistas que fazem diferente sendo condenado praticamente a guetos, a públicos reduzidos. Aqui se vive uma cultura cotidiana do carnaval. O nosso cenário cultural é o pior possível. O que predomina é uma cobertura cultural ligeira, realiseira, oca, descartável, de consumo imediato.

 

6 – Ainda na seara das artes, o que você consome? Quais suas preferências nas artes plásticas, na música, na literatura e no cinema? Qual o significado da arte, caso haja, para você?

 

Sou eclética, gosto de muita coisa e costumo dizer que meu gosto é meio vira lata, meio verso do Kid Abelha: eu tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim. Minhas listas são infindáveis. Tenho um pouco de preguiça com grande parte do que se produz hoje em nome das artes plásticas contemporâneas. Essa coisa pós-moderna de dizer que tudo é arte pode ser muito bacana sob o ponto de vista multiculturalista e antropológico. Do ponto de vista artístico, é uma desgraça. Sou metida a besta em meus sonhos de consumo artísticos. Daria um rim para ter em casa qualquer coisa de Fernando Botero. Em Salvador, adoro Bel Borba, as esculturas de Tati Moreno, as gordinhas de Eliana Kérstesz e as cores de Maria Adair. E, óbvio, acho um deslumbre o traço de Carybé, as fotografias de Mário Cravo Jr. Em cinema, tenho náuseas do cinemão hollywoodiano mainstream, ágil demais e tão barulhento que não se deixa ver. Sou fascinada por Almodóvar, Tarantino, Lars Von Trier, Gus Van Sant, Iñárritu, além dos classicões, como Bergman, Fellini, Visconti, Scolla, entre outros. Gosto muito do cinema asiático e de filmes de arte de um modo quase geral. Gosto muito de documentários nacionais e do novo cinema argentino. Na literatura, de muita coisa. Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Milton Hatoum, Pedro Juan Gutierrez, Guilermo Arriaga, Rubem Fonseca, Inês Pedrosa, Antônio Lobo Antunes, Saramago, Eduardo Agualusa, Efraim Medina Reiz, Mia Couto, Rosa Montero e de mais uma arca de Noé de gente. Hors concours são Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Jorge Luis Borges.  Música? Outra arca de Noé. Costumo brincar que não moro numa casa, mas num depósito de CDs, DVDs, revistas e livros, pois minha casa é pequenininha e não tarda faltará lugar para mim, ocupado por objetos de desejo cultural. Hoje, agora, os primeiros que me vêm à cabeça são Maria Gadú, John Mayer, Moby, Nouvelle Vague, Vanessa da Mata, Trash Pour 4, Fernanda Takai, Lenine, Jorge Drexler. Odeio axé, samba, pagode, sertanejo, arrocha e companhia. Dos novíssimos baianos, gosto apenas e imensamente de Daniela e Carlinhos Brown. E para a trilha sonora da vida, Caetano. Não concebo a vida sem música e informação. Arte? Para mim, é tudo aquilo que alguém faz, mostra e diz que emociona, desperta pulsões e fala por muitos.

 

7 – A televisão é um aparelho eletrônico desprezado por muitos pseudo-intelectuais, que a julgam como um brinquedo das massas. Claro que há muita bobagem sendo transmitida, mas há muita coisa boa também. Sou um amante da televisão e fico ao lado de Arlindo Machado. E você, o que acha desse meio? Vivemos o Império do Grotesco, como disse Muniz Sodré? O que tem de pior e de melhor na nossa televisão?

 

Adoro televisão. E quando digo televisão não digo o conteúdo da televisão, mas o veículo em si como elemento de ressonância, formação ou deformação de gostos. Sou movida pela curiosidade e acho a televisão brasileira, para o bem o para o mal, uma espécie de aleph da sociedade. Há coisas abomináveis, mediocridade a dar com o pau, coisas deliciosas de ver, enfim, tudo o que se tem na realidade do país. Acho, sim, que o país tem a televisão que merece e, para mim, a TV é uma janela privilegiada, entre muitas outras, claro, para se observar a realidade brasileira. Acho de um pedantismo que dá dó esse povo que empina o nariz, fede a bolor e arrota que não vê TV. Não ver TV não deixa ninguém mais inteligente. Do mesmo modo que quem a vê não é sinônimo automático de alienado ou aculturado. Há quem pense que vejo TV por obrigação, porque escrevo sobre. Ao contrário, escrevo sobre porque vejo. Não sou crítica de TV, não vivo de escrever sobre TV. Minha profissão é professora de jornalistas. Escrevo sobre TV porque tenho prazer em vê-la e mais ainda em tentar descrever alguns dos seus conteúdos, sobretudo os mais nonsense. E que fique claro, conteúdos muitas vezes produzidos pelo mundo das ruas e não nos estúdios. Vejo TV com o mesmo interesse com o qual leio revistas, livros, ouço música ou vejo filmes. Sou um ser do meu tempo, me relaciono criticamente com tudo o que consumo e não gosto de nada incondicionalmente nem tampouco acriticamente. Gostar incondicionalmente, só da Mafalda, a personagem dos quadrinhos.

 

8 – Política nacional. Você acha que o Congresso Nacional ainda pode ser chamado de “A Casa do Povo”? Depois de tantos episódios lamentáveis, podemos confiar nesses homens? O Presidencialismo ainda serve para o Brasil? Não seria a hora de tentarmos o Parlamentarismo, por exemplo?

 

Acho a cena política brasileira deplorável, mas ao contrário do que diz o senso comum, acho que essa cachorrada toda representa, sim, a média do comportamento hipócrita do brasileiro. O brasileiro médio é corrupto e corruptor, quer se dar bem sem esforço e escolhe gente muito parecida com ele. Ninguém surge no Congresso de geração espontânea. O Brasil inteiro manda para Brasília, para as Assembléias Legislativas, para as Câmaras de Vereadores, um monte de representantes culturalmente estúpidos, descomprometidos e que, nas eleições, dizem meia dúzia de frases feitas que a claque adora ouvir. O problema da representação política não é o sistema de governo, é o caráter do povo, das classes dominantes e de seus representantes. Não acredito nessa tese do povo bom e honesto que elege, enganado, monstros corruptos. Povo e representantes são farinha do mesmo saco de falta de caráter, educação, formação.

 

9 – Algo que eu sempre quis saber de você: o que é o Carnaval de Salvador? É uma vitrine para as celebridades? É a mais fabulosa festa de rua do mundo? O Carnaval é do povo mesmo ou dos camarotes? Camille Paglia esteve aqui e adorou. Para ela, Madonna já era, só dá Daniela Mercury.

 

É uma festa popular onde o povo é mero coadjuvante para dar consistência ao mercado do axé, movido por engrenagens poderosas e muito bem azeitadas por interesses políticos privados em consonância com os poderosos políticos de plantão. A visão do estrangeiro não pode ser lida fora do contexto do estranho que desembarca no cenário exótico. Quanto a Daniela, para além e aquém de Camille, acho-a uma artista extraordinária entre tantos medíocres.

 

10 – Por fim, quero saber sua relação com Deus. Ele existe, não existe ou tanto faz? Se existe, que imagem tem dele? Deus é o mais fantástico mito produzido pelo homem?

 

Deus é uma invenção humana, para lidar com o medo da morte. Quando o assunto é Deus, meu oráculo é Nietzsche. Mas percebo cada vez mais que minha sinceridade sobre a religião é insultante diante da média das pessoas. Em respeito à sensibilidade muitas vezes hipócrita dos religiosos, e por preguiça de lidar com isso, nunca discuto religião. Acho idiotizante o modo como as pessoas lidam com a existência de Deus e me espanta o quanto dizem coisas que estão há anos-luz do que praticam. Odeio essa ideia nefasta e maniqueísta de pecado/perdão divino, do erro e do acerto.