Pílulas

mjConfesso que relutei, mas não tem jeito, vou ter que dar o meu pitaco sobre a morte prematura de Michael Jackson.  Nada do que eu diga aqui vai ser de grande valia para o entendimento dessa personalidade, mas vá lá…

Nunca fui grande fã de MJ (apenas fã), apesar de buscar suas músicas e adorar muitas. Até os anos 80 seus discos são bons e interessantes. Lá pelos idos dos anos 90 até hoje, já não faziam a minha cabeça. Intérprete de talento, dançarino magistral, bom compositor e homem de visão, que revolucionou o mundo pop com seus clipes inovadores (não preciso nem citar Thriller). Essa é a parte de MJ que devemos lembrar e reverenciar. O lado pessoal talvez seja uma incógnita eterna, com seus traumas, seu embraquecimento, as dívidas e as acusações de pedofilia.

Pedofilia? Sim, ele foi acusado, mas nada foi provado. E se ele tinha o prazer de dormir com crianças, não necessariamente precisava molestá-las. Mas a sociedade puritana e medonha, nao aceita determinados comportamentos em nome de uma decência tosca e acrítica. Se realmente abusou dessas crianças, merecia uma punição, mas se apenas sentia prazer (talvez até um prazer sensual), não podemos condená-lo. Esse assunto dá muito pano pra manga!

Enfim, seu legado continua mais vivo do que nunca e a ironia é que talvez ele consiga se livrar das dívidas, já que sua obra e os milhares de produtos ligados à sua imagem vão vender muito, mas muito!

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vvNão podia esperar para comentar um livro que comecei a ler: Vampes e Vadias (1994), da sempre maravilhosa Camille Paglia (não adianta, sou fã dos seus pensamentos). Ela destrona o puritanismo babaca que assola as sociedades ao construir ideias pungentes sobre pedofilia, estupro, assédio sexual, felação, sodomia, homossexualidade e por aí vai, sempre com uma erudição fabulosa, relacionando esses assuntos com a história da arte e conhecimento sobre antropologia, psicologia, biologia e outras áreas.

Para quem quer revirar do avesso sua visão sobre esses assuntos ou simplesmente deixar sua argumentação mais consistente, recomendo fortemente esse livro.

 

 

 

 

 

 

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ccO Brasil venceu a Copa das Confederações, mas tem muitos torcedores que ainda estão com o pé atrás com a direção de Dunga. Como não entendo muito de futebol, não posso me deter em análises farsescas, mas o fato é que a seleção jogou bem. Mas jogou bem ou pegou adversários que não jogaram bem? Sei lá. Só sei que Dunga ganhou um certo fôlego depois desse título. Vamos em frente!

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Camille Paglia ao escrever sobre a princesa Diana em Vampes e Vadias, redigiu algo que se adequa perfeitamente a Michael Jackson ou a qualquer grande personalidade.

“A deificação tem seus custos. A megacelebridade moderna, suportando o fardo do simbolismo, projeção e fantasia coletivos,  é uma vítima ritual, canibalizada por nosso compadecimento e temor. Aqueles que estão no vértice da pirâmide são intocáveis, codenados a uma solidão horripilante”

O sabor de Zélia Duncan

zdZélia Duncan está entre as cantoras que mais gosto. Gosto de mulheres com vozes graves. Até hoje considero Cássia Eller uma das minhas intérpretes favoritas.

Com “Pelo sabor do gesto”, lançado no início de junho, a cantora continua trazendo boas letras e melodias pop bem feitas. Claro, apesar de ser boa letrista, Zélia está muito bem acompanhada por Zeca Baleiro, Chico César, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, Moska, entre outros. 

O disco foi dirigido por John Ulhoa, guitarrista do Pato Fu e traz, entre outras,  a participação de Fernanda Takai, a vocalista do Patu Fu e esposa de John.

Neste nono álbum da cantora carioca, ela continua trazendo para o seu repertório a obra do fantástico e pouco divulgado Itamar Assumpção. Acho isso muito legal, já que Itamar é completamente ignorado. Se não fossem os esforços de poucos, o artista continuaria no limbo e certamente seria uma tremenda burrice.

Gostei do disco. Ele é mais um ponto de valor na carreira dessa grande cantora.

Lista de músicas do álbum:

1- Boas razões

2- Todos os verbos

3- Telhados de Paris

4- Tudo sobre você

5- Sinto encanto

6- Pelo sabor do gesto

7- Ambição

8- Esporte fino confortável

9- Os dentes brancos do mundo

10- Se eu fosse

11- Aberto

12- Se um dia me quiseres

13- Duas namoradas

14- Nem tudo

Sandy e os rituais

Ser famoso ou anônimo são dois lados da mesma moeda. Quem nunca sentiu o gosto da fama, imagina como deve ser receber a atenção, os olhares e até os comentários maldosos daqueles que te observam. Uns com ódio, outros com desprezo e demais com admiração e amor. Não é à toa que milhares de pessoas se candidatam a uma vaga em reality shows como o Big Brother. Por outro lado, quem já desfruta da fama (merecida ou não), sonha em poder ir ao cinema ou passear pelas ruas da sua cidade sem ser abordado em troca de uma foto.

A personagem deste texto é Sandy Leah Lima, uma garota que desde muito pequena é famosa e já conta com 17 anos de carreira, se não me engano.

Sei que Sandy faz análise, mas não atribuo o casamento, a formatura e a festa de 15 anos a algum conselho profissional. Ela podia sinceramente não querer tudo isso, já que não precisa provar que é normal. Mas quis, justamente porque o é. Considero Sandy bastante madura e consciente das suas escolhas e atribuo à família que possui esta sólida formação de caráter.

Acho muito bonito como ela conduz sua vida e falo isso sem medo de parecer idiota. Admiro seu gosto aos rituais. Faz parte de nossa época, e isso não tem nada de ruim também, não prescindir de simbolismos como o casamento, a festa de 15 anos ou a formatura. Eu mesmo não fiz a mínima questão de me formar com solenidade e não dou tanta importância aos rituais de qualquer espécie, mas os acho bonitos e válidos.

15 anos

15 anos

 

 

Sandy realizou sonhos como a festa de 15 anos, com tudo o que tem direito. A menina virou mulher. Sandy se formou em Letras para ganhar mais conhecimento e melhorar como pessoa e artista. Sandy se casou com o homem que ama (sim, muitos se casam sem amar).  Passou por esses rituais humanos porque é humana como todos, apenas tem um emprego que coloca uma lente de aumento em sua persona e descarta sua falibilidade como mortal, seus anseios como mulher, seus medos e incertezas. Como diz em uma das letras que escreveu: o glamour não dura pra sempre, já que também vai ao banheiro.

Nada mais humano.

Vejo muitos artistas, alguns muito pouco artistas, transformarem suas vidas em lama diante do público. Atribuem a si mesmos uma importância que não possuem. Fazem-se de vítimas e atormentados (poucos são mesmo). Nada mais detestável do que um artista que se diz artista. Não vejo Sandy ser assim, diante de quase duas décadas de vida nos palcos.

 Casada

Sendo Sandy, a famosa cantora ou não, continua a olhar para o céu e não entendendo nada, como todos nós.

Casada

 

 

 Formada em Letras

Formada em Letras

O que jamais Alice vai esquecer

aliceAlice Howland é uma mulher com um intelecto invejável. Professora de Psicologia de Harvard e pesquisadora reconhecida, escreveu junto com seu marido um livro que se tornou referência no meio acadêmico. Alice é daquelas mulheres que guardam como um computador bibliografias inteiras. Mas, para a sua surpresa, vem esquecendo coisas básicas do seu dia-a-dia, como onde deixou o carregador de seu celular ou mesmo uma tradicional receita de Natal que é acostumada a fazer desde a infância.

 

A eminente profissional desconfia que seus surtos de esquecimento estejam ligados ao estresse ou à menopausa que está prestes a se instalar. Nada disso, Alice Howland é diagnosticada com o mal de Alzheimer e pouco a pouco vai deixando de ser quem ela é para se tornar uma sombra de si mesma. Mas é justamente neste ponto que página a página, embora não reconheçamos mais a brilhante profissional, nos deparamos sempre com Alice, pois ela nunca vai deixar de ser ela mesma e de amar sua família.

 

Lisa Genova

Lisa Genova

Lisa Genova é ph.D. em neurociência por Harvard e este é seu primeiro romance. Para Sempre Alice é uma história comovente, muito bem escrita, que revela a necessidade primordial a qual todos ansiamos: o amor. Não basta ser um prestigiado membro da sociedade, que tenha contribuído com um pensamento fértil e inteligente no desvendamento do ser humano. Necessitamos dos mais “fúteis” presentes que a vida nos dá. Seja tomar um sorvete ou assistir ao pôr-do-sol. E vivemos melhor essas pequenas grandiosas coisas se estamos ao lado da nossa família.

 

Talvez todas as famílias tenham problemas e suas desavenças, mas é nela que nos encontramos, que parte de nossa identidade está guardada e que mesmo com uma doença tão devastadora como o mal de Alzheimer, não nos esquecemos de quem somos. Alice sente essa certeza e no fundo do seu ser que já não lembra de tudo, há algo que grita que ela sempre será a Alice que tem um marido, três filhos e dois netos.

 

Lendo o romance percebemos que o texto parece ele mesmo ter o mal de Alzheimer. Por vezes lemos a mesma frase repetida em um parágrafo anterior. Isso nos dá a noção dos efeitos da doença de Alice e sua evolução.

Para sempre Alice é um livro muito delicado, que fala das pequenas alegrias, do valor da família e que a única verdade a ser descoberta e jamais esquecida é a verdade derramada pelo amor, mesmo que um dia esqueçamos nosso próprio nome.

 

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