A pornografia da morte

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Há muitos séculos, lá pela Idade Média (bem antes disso, também ,claro, com as lutas com Gladiadores, por exemplo. Mas vou começar a argumentação na Idade Média), o ser humano considerava a morte um espetáculo público, o que equivale a uma sessão de cinema com pipoca e guaraná. Naquele período, bruxas e hereges de todos os tipos eram queimados, enforcados ou decaptados sob aplausos e caretas do público espectador. É fácil sabermos como era, basta ver filmes ou séries que retratam ou lembram essa época. 

Com o passar dos anos e o avanço da medicina e dos costumes, a morte se tornou caseira, restrita aos lares. Parentes, amigos e o padre esperavam o último suspiro que representava o ser nesta Terra de meus deuses. Lágrimas, rezas e adeus.  Tudo muito discreto e silencioso. A morte começava a ser escondida. Falava-se nela, mas sem estardalhaço.

Hoje em dia, século XXI, temos medo de falar da morte, como se não pertencesse ao ser humano e só fizesse parte dos outros serem animados deste planeta (nosso descaso com o planeta, talvez seja um sintoma). Pois é justamente quando temos mais recursos tecnológicos, mais eficácia nos tratamentos e o ser humano chega com facilidade (cuidando-se, claro) aos 80, 90, até 100 anos, a morte vira tabu e para negar sua existência o ser humano a torna ponográfica, evento escatológico. Vou explicar!

Essa introdução foi apenas para dizer que a existência de programas que se dizem jornalísticos, como Bocão e congêneres, quando não nos próprios jornais ditos sérios, prestam um serviço ao escatólogico e à informação inútil, puramente sensacionalista. Jornlalismo, no meu simples modo de ver, não é isso nem de longe. Abordar um assunto como a guerra em um país africano, não significa mostrar pessoas sendo mortas ou estupradas, para deleite dos nossos olhos ávidos pelo terror. Um terror alheio, que nos causa atração, como se precisássemos comprovar sua existência.

“Sim, mas se dá audiência é porque funciona”, diria alguém pronto a justificar a existência de tais programas, jornais impressos (tem um jornal daqui de Salvador, que é fo…tribuna do sangue!). Sinto muito por negar essa afirmação, dando um exemplo. Quando passamos por um acidente de carro, no qual duas jovens garotas estão destroçadas pelas ferragens, sentimos o impulso de ver, de comprovar sua existência, como disse acima. Olhamos porque gostamos ou porque somos atraídos pela quebra da normalidade que essa tragédia traz, pela sua pornografia? Pornografia da morte, tão explícita, tão sedutora. Olhamos tapando os olhos, pelas fendas dos dedos, mas olhamos.

Hoje, avançamos tecnologicamente, mas consideramos a morte um tabu. E por isso mesmo, nos sentimos atraídos pela pornografia da morte, com suas dilacerações, queimaduras, facadas, estupros e suicídios em tempo real. Retornamos à Idade Média, mas somos muito mais medievais do que pensamos.

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