Esta é minha cidade

Salvador foi a primeira capital do país durante 214 anos, de sua data de fundação em 29 de março de 1549 até 1763. Para muitos, talvez isso seja apenas um dado, mas é bom pensarmos que fomos os primeiros a dar os passos para a criação dessa nação, mesmo num contexto colonizador como o da época e mesmo isso soando um pouco bairrista. Mas esse texto, afinal, pretende ser bairrista, embora não seja cego para os problemas e nem despreze a cultura de outras regiões. Que fique clara tal afirmação. Disso, me surge a pergunta: como é minha cidade?

 

Pierre Verger, antropólogo e fotógrafo francês veio para Salvador em 1946 e nunca mais voltou para a terra da Torre Eiffel. Foi um grande estudioso do sincretismo religioso e um dos principais divulgadores de sua cultura. Outro artista importante que tem seu nome ligado à cidade é o escultor Carybé, argentino que desde 1938 até 1997, ano de sua morte, morou em Salvador. Estrangeiros que eram soteropolitanos e adotaram esse pedaço de terra baiana com amor, dedicando suas vidas à tradução da realidade cotidiana desse lugar. Minha cidade, então, é o farol que ilumina a expressão artística de quem a acolhe como mãe.

 

Tenho em mente que até boa parte de nós, soteropolitanos de nascença, pensa que mestres como Jorge Amado, Castro Alves e um dos articuladores do Cinema Novo, Glauber Rocha, são autênticos seres dessa cidade. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Castro Alves em Muritiba e Glauber Rocha em Vitória da Conquista. Romance, poesia e cinema fazem dessa terra o leito onde nomes geniais não morrem, eternizam-se. Esta é minha cidade.

 

A cidade de Salvador possui mais de 80% da sua população constituída de negros e negras que trouxeram do passado escravagista sua herança cultural perpetuada em lutas como a capoeira; em comidas como o acarajé e o caruru; na música com sensualidade rítmica da percussão; na tradição religiosa do candomblé e seus orixás etc. Os retratos de Sérgio Guerra, que um dia foram espalhados pela cidade, estamparam a face real da metrópole, que infelizmente ainda é obrigada a conviver com a cretinice do preconceito disfarçado e da miséria que é estratégia política para ganho de votos e que nunca é solucionada. Se Salvador fosse uma cor, seria iluminada de preto. Esta é minha cidade.

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5 pensamentos sobre “Esta é minha cidade

  1. Estive em Salvador há 5 anos. E não fui a passeio, mas para resolver alguns problemas pessoais. A lembrana que tenho de Salvador, mais do que arquitetura, pontos turísticos e afins, é a das pessoas. Eu era uma desconhecida, e me senti acolhida por amigos, amigos que nunca me aviam visto mas que me receberam como se eu fosse uma velha e estimada conhecida. E, quando retornei para a minha cidade, alguns se despediram com lágrimas dos olhos acompanhando os conselhos e os votos de boa sorte. Alguns mantêm contato ainda hoje. Não sei se é realmente assim ou se fui abençoada, mas acredito mesmo que a hospitalidade do povo seja o maior bem de Salvador, e isso talvez não seja tão raro mas eu nunca havia visto com tanta força e desprendimento como vi aí. Essa, querido, é a sua cidade.

    Beijos =)

  2. Essa é a nossa cidade. Iluminada, musical, dançante e fervilhante de cultura. Cultura que já nasceu misturada. Nossa cultura é vinda de todos os continentes e sempre é reinventada. É isso que torna fascinante.
    Bjs

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