Eu: antes e depois de São Paulo

Passei dois anos de minha vida em uma cidade que muitos, por não conhecerem, acham fria (metaforicamente falando) com pessoas apressadas que não prestam atenção às outras na rua. Cidade de concreto, de coração de granito. Posso dizer, enfaticamente, que São Paulo é muito mais que o preconceito que existe sobre ela. Aliás, tudo é muito mais que um simples preconceito. Os baianos são mais do que o bobo mito da preguiça.

 

Com esse texto revelo um pouco das minhas experiências em São Paulo. Experiências estas que me mudaram profundamente.

 

Voei de Salvador para São Paulo no ano de 2000, para fazer faculdade. Passei em dois vestibulares. Escolhi a Anhembi-Morumbi, que fica no Brás. Era metrô e ônibus todos os dias. Comecei a fazer Comunicação Social, mas voltei definitivamente em 2002 e me formei em jornalismo por aqui.

 

Entre esses dois anos houve as linhas abaixo.

 

Quando o avião desceu no aeroporto de Congonhas, sabia que não tinha como voltar. Confesso que chorei e quase desisti de tudo. Foi difícil. Sozinho na garganta do monstro. Um táxi me levou para uma pensão. A partir daqui mudo o nome de todo mundo. A pensão de dona Margarida. Lá conheci suas duas netas. Loucas. Uma loira, outra morena. Pais presos por estelionato.

 

Conheci Rogério, um mato-grossense gente boa. Seu sonho era ser tripulante da TAM.  Rogério era amigo de Karla, uma mineira atraente que trabalhava no Hotel Pathernon. Tinha o Lucas. Também mineiro. Muito apreciador da banda Gênesis e de certa erva. Essa erva, muitas vezes ficava guardada em meu quarto. Não sei por que ele insistia em guardá-la em meus aposentos! Sorte que todos os amigos e amigas das netas de dona Margarida não resolveram fumar maconha em meu quarto. Não sou adepto da fumaça. Mas o melhor foi ouvir de Michele, a neta loira, que ela não curtiu mais a “farinha”. Farinha? Sim, cocaína. Ainda bem!

 

Na casa, ainda havia espaço para um casal que se separou pouco tempo depois de ter chegado à pensão. Ela ficou lá, ele partiu. Os dois faziam muito barulho depois de certa hora da noite. Algo com gemidos e sussurros. E por fim, dois gaúchos: Carlos e Murilo. Caras tri legais que me apresentaram um famoso cantor e compositor das bandas de lá. Poxa, não me recordo o nome agora. Carlos era apaixonado por Karla e Murilo tinha uma namorada, a Joice, que também estudava para ser tripulante da TAM.

 

Todas essas pessoas curtiram juntas alguns momentos bons em Sampa. Bienal do Livro, shows no Parque do Ibirapuera, boates, bares, luais, conversas. Foi bom. Foi ruim. Sentia-me só. Briguei com a neta loira – entrava no meu quarto e pegava minhas coisas sem permissão. Beijei Karla, em uma noite de vinho e Marisa Monte. Nossa amizade ficou diferente. Carlos já tinha ido embora da pensão. Ufa!

 

***

 

Caminhei muito só pelas ruas de São Paulo. Queria descobrir as coisas.

 

Um dia, voltando da Exposição dos 500 anos do Brasil, no Parque do Ibirapuera, a chuva começou a cair. Andando sem guarda-chuva, logo estaria encharcado. Eis que um táxi parou ao meu lado. Eu olhei para dentro e disse ao motorista que não queria. Ele abaixou a janela e pediu para eu entrar.

 

– Te dou uma carona, rapaz.

 

Mesmo completamente surpreso com a situação, resolvi entrar. Meus preconceitos diziam: “Esse cara é suspeito”. Mas não, ele foi apenas gentil. Não era bicha. Me deixou na porta de um shopping e seguiu sua rotina de trabalho.

 

***

 

Na faculdade, consegui meu primeiro emprego. Era na Livraria Horizonte.

 

Minhas aulas começavam às 18:10, mas eu chegava tão cedo que dava tempo de ficar horas na internet, além de fuçar toda a livraria de minha futura amiga Márcia Neuber (nesta parte todos os nomes são verdadeiros). De tanto andar por lá, conquistei sua amizade e fui chamado para trabalhar.

 

Márcia confiava em mim. Chegou a me emprestar a sua casa no Guarujá, para que eu pudesse me encontrar com uma possível namorada. Josy (vulgo Afrodite) não se tornou minha namorada.

 

Foi lá na Livraria Horizonte que comecei a montar minha biblioteca. Comprava livros a preço de custo, aí já viu, adquiri muitos!

 

Foi também na Anhembi-Morumbi que conheci Ivan Garro. Ficamos amigos. Ivan era músico, tocava baixo e bateria. Montamos uma banda de rock e blues, basicamente. Gravamos vídeoclipe de uma de nossas músicas. Quase fomos contratados por uma gravadora, mas a dona achou que o nome Chave Mestra era numerologicamente ruim. Só mandando tomar na bunda!

 

Me apaixonei por Letícia, que amava Janis Joplin e por Fernanda, que era tão simples que não tinha a mínima vergonha de dizer que ia ao banheiro fazer cocô e já voltava. Achava isso bonito. As duas eram lindas.

 

Na minha faculdade tinha vampiros e bruxas. Uma bruxa era minha colega. Ela dizia poder fazer coisas que eu nunca presenciei. A irmã confirmava tudo.

 

Uma japinha chamada Flávia se apaixonou por mim. Escreveu muitos poemas em minha homenagem e me deu uma pedra vermelha de presente. Infelizmente os seus traços nipônicos não me atraíram.

 

Fiz curta-metragem. Minha primeira experiência como roteirista e diretor. Achei o máximo. Elogios de alguns professores. Ego inflado!

 

***

 

O que foi mais difícil na minha passagem por São Paulo foi o fato de morar sozinho, logo depois de sair da pensão. A casa de dona Margarida já não me agradava mais. Era gente demais, com hábitos muito díspares. Viver sozinho foi muito interessante, mas foi desolador.

 

Na primeira noite que passei no apartamento, que eu mesmo pintei de pêssego, faltou luz. Agora penso que a falta de luz foi simbólica, porque me sentia apagado, embora estivesse enriquecendo minha vida como em nenhuma outra fase. Até fui chamado para dar entrevista à revista Istoé, mas a matéria não saiu.

 

Um dia, passeando pelo shopping Paulista, que fica na Av. Paulista, resolvi almoçar. Era um restaurante a quilo. Caro, muito caro. Comi muitos camarões. Mas não reparei que estava sem um centavo no bolso.

 

– A senhora espera um momento? Vou retirar dinheiro e já volto.

 

Não voltei. Só tinha dinheiro em casa. (vergonha!)

 

***

 

Conheci de perto a Paulicéia Desvairada. Muito menos do que eu gostaria, porque não é possível conhecer São Paulo em 100 anos. Fiz amigos que entro em contato até hoje. Vivi momentos que nem em sonho presenciei em Salvador. Cresci culturalmente. Me tornei mais maduro. São Paulo foi um divisor de águas em minha vida. Existe um “eu” antes e depois de São Paulo.

 

Não sou Caetano Veloso, mas cruzei a Ipiranga com a Av. São João – literalmente. Senti emoção. Nunca mais fui o mesmo.

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5 pensamentos sobre “Eu: antes e depois de São Paulo

  1. As histórias de Sampa são incríveis. Já tive fetiche de morar lá, não mais agora, embora goste muito de lá.
    Como é incrível!
    Sobre taxista paulista, eu também já fui ajudado por um. Após sair do show do Oasis, em 2006, completamente enxarcado de chuva, todos os taxis que eu parava pediam R$200 na corrida. Não tinha nem metade disso. O tempo foi passando e nada… Até que um filho de Deus me aceita, mesmo molhado, e com menos dinheiro na carteira do que daria a corrida. Ele ainda me esperou 20 minutos no aeroporto até que eu achasse (aquela porra é gigante!!) um caixa eletrônico e tirasse o resto. Bom homem.

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