A maldade pode ter algo de bom?

Ontem à noite comecei a assistir Match Point, de Woody Allen, mas acabei não terminando. De qualquer forma, já tinha visto em DVD. O que me chamou atenção para que eu escrevesse este texto foi a narração de um dos personagens principais, Chris Wilton, vivido pelo ator Jonathan Rhys Meyers. No discurso ele fala algo como a capacidade ser humano em utilizar sua maldade. Ou algo parecido com isso.

 

Rousseau, filósofo suíço, acreditava na bondade inata do ser humano, e que esta era corrompida pelo meio. Esse argumento já caiu por terra, em parte, já que sabemos que muitos crescem em ambientes pérfidos e nem sequer chegam perto do pior. Embora tantos outro se envolvam no crime justamente por crescerem em um ambiente no qual essa realidade é normal e aceita como meio de vida.

 

Nietzsche, filósofo alemão, afirmou que a bondade que praticamos nada mais é do que uma forma de ganhar poder e controlar o outro. Quase aceito isso. Porque no fundo precisamos de atenção. Somos todos carentes. Mas creio também na bondade sem intenções, sem trocas, que no fundo é amor. Não é?

 

O fato é que também nascemos com a maldade, mesmo que não nos tornemos homicidas ou genocidas. E esses são apenas dois aspectos do que de ruim o ser humano pode provocar. Não podemos esquecer a maldade dos pequenos gestos, do assédio moral, da indiferença ao sofrimento do próximo, da indiferença ao meio ambiente em troca de umas moedas. E o mais interessante (se é que isso é interessante) é que até um criminoso como Hittler amava sua família – a despeito das atrocidades que cometeu contra milhões de outras.

 

Mas a maldade que devemos ter, penso eu, deve ser utilizada para nossa sobrevivência, nosso trato nas relações diárias. Porque os seres humanos sabem espezinhar. Sabem pisar quando estão em uma posição hierarquicamente superior. E vou mais longe. Temos o direito de proteger quem nós amamos (ou mesmo um desconhecido) e em casos de extrema impossibilidade de contar com a segurança (?!) que o Estado nos fornece, utilizar as garras mortíferas que temos contidas dentro do nosso ser.

 

Tirando aqueles que não possuem sistema límbico (grosso modo, aquele que nos injeta empatia pelo outro), as maldades de todos os tipos só entristecem a vida. Há remédios para as diferentes maldades? Não sei, mas posso afirmar que um bom repelente contra a maldade é minimizar nossos preconceitos e até eliminá-los de vez. Sabemos que somos preconceituosos, mas isso é um outro meio de defesa do ser humano. O que não dá para aceitar são os preconceitos raciais, contra as orientações sexuais e religiosas e por aí vai. Não há cabimento em matar por esses motivos!

 

Raskolnikov, personagem principal do clássico Crime e Castigo, de Dostoievski, matou. Foi preso e sofreu com a mente atormentada pelo seu ato. Ele sentiu na pele as conseqüências, porque sabe que fez algo errado. Raskolnikov era um bom rapaz, mas utilizou sua maldade de forma torpe: tirando a vida de uma senhora.

 

Usem a maldade de forma construtiva. E por favor, mais EMPATIA. 

 

 

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7 pensamentos sobre “A maldade pode ter algo de bom?

  1. Eu não acredito que exista um ser humano inteiramente bom. Todos temos um lado maldoso, não existem santos. Mesmo esses ditos santos da mitologia cristã fizeram algo de errado e foram perdoados e redimidos. A maldade faz parte da humanidade, só dever ser contida e dosada. É como o livro do ítalo Calvin, O Visconde Partido ao Meio: uma metade irritantemente bondosa e a outra incrivelmente má entram em conflito, mas juntas formavam um homem comum.

  2. Eu sei, tenho tendência a simplificar demasiadamente as coisas. Mas, para mim, essa questão bondade/maldade sempre recai naquele batido clichê do LIVRE-ARBÍTRIO. Somos o que escolhemos ser. Somos, sim, falhos, estranhos, sádicos, masoquistas, imprevisíveis, assustadores desconhecidos até para nós mesmos – mas somos o que escolhemos ser, ao menos na maior parte do tempo – e é o que somos a maior parte do tempo que, querendo ou não, nos define. Eu, na maior parte do tempo, escolho não ser tão ruim quanto poderia ser. Conseguir me olhar no espelho todos os dias e dormir o sono dos justos (quase) todas as noites talvez sejam bons indícios de que tenho tido êxito nesse exercício diário.

    Beijos!

  3. Flavinha e Rodrigo. No fundo,acho que posso resumir: somos bons (talvez boa parte das pessoas), mas precisamos lutar diariamente para suprimir nosso lado menos elogioso.

  4. Ser bom , Sandrinho, não é, nem nunca foi pra quem quer, é pra quem pode. Carregar o mundo nas costas não é fácil, a consciência pesa, o peito aperta, a leveza do ser é insustentável.

    É como diz a Ana Carolina, moço, quando canta “Só de Sacanagem”

    beijas

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