Iansã ou Santa Bárbara?


Será que alguma religião ou sentimento religioso responde às perguntas que tanto nos afligem? Ou é a salvação para algum coração perturbado? Provavelmente não, mas penso que qualquer religião é uma cultural que tenta nos mostrar um pedaço da existência, nos fazer ter certeza de coisas que certamente não conseguimos provar, e nos conforta. E isso eu acho que se chama fé. O lado ruim disso é quando uma cultura religiosa tenta, por meio do proselitismo ou da força, impor a sua verdade como a única.

Dito isto, vim falar de um culto afro-brasileiro que até os próprios baianos têm preconceito: o candomblé. Culto que passou a ser professado no país em meados do século XIX (1850), de acordo com Mãe Márcia D’Oxum. E que teve e tem forte influência entre os nossos artistas: Jorge Amado, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa etc. Outro grande nome ligado ao candomblé, é o do fotógrafo francês Pierre Verger Fatumbi, que veio para a Bahia em 1946 e nunca mais saiu. Verger foi um profundo estudioso da cultura africana.

Pierre Verger

Pierre Verger

Quem teve a oportunidade de entrar em contato com um pouco da história, sabe que essa religião sofreu muito com a dominação do catolicismo. É mais do que conhecido que suas divindades (Orixás) tiveram que trocar de nome para que seus praticantes tivessem um mínimo de liberdade. E assim, por exemplo, Iansã virou Santa Bárbara.

Muniz Sodré, jornalista e teórico da comunicação, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, afirmou em uma entrevista para a revista Muito e eu concordo com força extremada:

O candomblé não responde ao global da situação (falando sobre problemas como a violência). E qualquer religião que disser que responde está mentindo. O candomblé não é culto universal, é uma religiosidade forte, um sentimento, mas tem elementos de pensamento. Quando Roger Bastide disse que havia um pensamento sutil nos culto afro-brasileiros que ainda não tinham sido decifrados, eu acho que, efetivamente, uma das melhores frases que eu já ouvi sobre o candomblé foi essa. Há coisas ali sutis, que deviam ser pensadas à luz da pós-modernidade. Eu acho que é um culto pós-moderno. Eu acho que é um culto pós-moderno; não é moderno, nem tradicional. O candomblé é o mais moderno dos cultos porque é um culto não-violento. Uma das características da pós-modernidade é a não-violência, a verdade absoluta é violenta. Toda violência vem da pretensão. A modernidade tinha pretensão de impor a verdade pela ciência, pelo consenso. Eu acho que nós devemos recusar a pretensão da verdade ser absoluta. Candomblé não tem verdades sobre o cosmo, nem sobre Deus, tanto que são vários os deuses, para evitar a tentação do um. Ele pressupõe a localidade, a diversidade, pressupõe apropriações diversas dos seus próprios símbolos. O candomblé não tem televisão, não tem império de rádios, não tem jornal, por que continua de pé? É a força da crença, dos orixás, e não tem nenhuma superstição de ter orixá não, porque o próprio candomblé pensa sobre isso e diz: sem homem não tem Deus, e sem Deus não tem homem. Porque o homem precisa de transcendência, é interdependência entre homens e Deus. Não conheço nada mais pós-moderno que isso.

A base do preconceito é a ignorância e a preguiça em tentar compreender uma outra cultura, um outro povo. Foi assim que mataram milhões de judeus. É assim que continuam todas as guerras étnicas e é por isso que os pensamento e ideais de extrema-direita, como o nazi-fascismo, ainda respiram.

Imagem de Iansã: Vagner Vargas

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2 pensamentos sobre “Iansã ou Santa Bárbara?

  1. A gente vive o tempo das grandes liberdades. E, paradoxalmente, nesse tempo de grandes liberdades ainda não se compreeendeu que o ápice da liberdade e igualdade não é se encaixar no padrão, e sim respeitar as diferenças e aprender essa coisa fantástica que é cultivar a própria individualidade sem agredir ou julgar a do outro. Isso se aplica a todas as facetas do comportamento humano, mas provavelmente o maior foco recaia mesmo sobre a sexualidade a a religião. Tratando especificamente do candomblé, talvez a raiz do preconceito esteja fundamentada em dois pilares: um, o fato de ser um culto trazido ao país por escravos e ter sido tão veementemente coibido pelos cultos “cristãos”; e o outro, intimamente atrelado ao primeiro, o fato de ser um culto politeísta em tempos de monoteísmo politicamente correto e globalizado.

    E eu não sei por que, nesse tempo de grandes liberdades, a gente teima em martelar a tal tecla do padrão e continua reverenciando o reinado do preconceito – seja contra a mulher, contra o homossexual, contra o negro, contra o índio, contra o praticante do candomblé. Até concordo que ninguém é obrigado a compreender ninguém, porque o ser humano é tão complexo que foge à capacidade de compreensão. Mas ACEITAÇÃO, isso a gente tem que praticar. E RESPEITO, acima de tudo. E respeito, ética relacional, é algo de que esse tempo de grandes liberdades precisa urgentemente.

    Tentei nos últimos dias acessar seu blog, mas a página não abria – problemas com o servidor?

    Quanto ao seu comentário no meu blog, eu tenho aprendido a não ter medo de mostrar que eu sou – e tenho aprendido a me ver com mais carinho também, rs. 🙂

    Beijos!

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