Ao mesmo tempo Deusa e milagre


Resolvi escrever sobre esse tema, porque ele me causa muito medo.

Sempre quis ter uma filha chamada Sarah e tive. Há cinco meses sou pai. Meu Deus, quanta responsabilidade, quantas preocupações. Penso no presente, no futuro, em tudo: segurança, alimentação, educação, saúde. Se ela espirra, já olho preocupado. Se tosse, arregalo os olhos. E quando engasga? Chamem os bombeiros!!!

Como disse, sempre quis ter uma filhinha, mas, também, sempre relutei em colocar um ser em um mundo como esse. Eu era muito pessimista em relação à humanidade. Com o passar do tempo, fui percebendo que estamos muito impregnados por medos disseminados, como assaltos, seqüestros etc. Mas creio que vivemos até em uma relativa paz. Claro, não estou de olhos fechados para os problemas sociais, como as guerras pelo mundo, mas penso que a *cultura do medo faz com que adquiramos muitas paranóias infundadas. Paranóias que ajudam a vender blindagens de carro e condomínios fechados.

Apesar de me sentir mais tranqüilo em relação às atitudes humanas, nunca vou deixar de ser superprotetor (meu próprio nome me define: Alessandro). A minoria dos irresponsáveis do mundo ainda me preocupa. Vejo a canalhice e o desrespeito diariamente (no trânsito, nas filas, nos ônibus) e isso me dá nos nervos. E conseguirei afastar minha filha disso? Não de tudo, simplesmente porque ela vai se tornar uma pessoa capaz de viver por conta própria, gerindo suas escolhas e convivendo com pessoas de variadas personalidades.

Ela vai querer viajar, vai querer ir a festas, vai (valha-me Deus) namorar, vai trabalhar, cursar uma faculdade e por aí vai. Ou seja, vai viver e se desenvolver. Como pai, espero poder prover tudo que ela precisa, criando um ambiente no qual ela possa confiar e sempre ter como referência afetiva, cultural etc.

Um sentimento que me invade é o de “anulação”. Explico. Hoje em dia, sou menos importante do que minha filha. Embora pense em mim, claro, ela sempre está em primeiro lugar. Pergunto-me: como pude fazer parte da criação de um ser tão perfeito, terno, doce, que é a materialização do amor? Acho que nada se compara a sentir isso. É como se ela fosse uma Deusa e o próprio milagre.

Minha princesa sorri tão lindo, balbucia sons incompreensíveis e mexe as perninhas fortes como se fossem um motorzinho em alta velocidade. Confesso a vocês que é fácil ficar emocionado quando olho para ela.

Sabe aquela frase que diz que ser mãe é padecer no paraíso? Acho que serve para os pais também, não é? E digo mais. Você nunca pode ser o mesmo depois de ter um filho. Aí, aqueles velhos e eternos valores dos seus pais entram em ação. No fundo todos querem o bem máximo para os seus filhos (e não precisa ser repressor ou trancafiar em casa, pelo contrário). O “não” é tão importante quanto o “sim”. E por ser mais difícil de dizê-lo, acho que tem um caráter mais educativo. Nada pior do que dizer “sim” para tudo o que seu filho pede e faz.

Será que um dia vou acabar dizendo aquilo que ouvi muito? “Quando você tiver um filho, vai entender”. Acho que sim.

Sarinha, fique tranqüila! Papai vai estudar e fazer a lição de casa.

*Se tiverem oportunidade leiam o livro “Cultura do Medo”, de Barry Glassner

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8 pensamentos sobre “Ao mesmo tempo Deusa e milagre

  1. Boa sorte!! Te desejo muita sorte, calma, paciência e tranquilidade para encarar o crescimento de sua filhotinha. Não seja ciumento e deixe ela viver, viu? hehehe..
    Bjs

  2. Eu hoje tenho as mesmas preocupações que você teve há algum tempo. Na minha cabeça de hoje, se você pra escolher, eu não escolheria ter filho(a), muito embora eu tenha certeza dessa sensação maravilhosa.

  3. Finalmente achei seu blog – você não deixou o link quando comentou lá no meu.

    No DVD do filme “Filhos da Esperança” tem um documentário onde vários cientistas sociais, filósofos e pesquisadores falam sobre o futuro da humanidade, e um deles é muito sensato ao dizer que se todos pensarem que não querem colocar um filho no mundo para ele não sofrer, como o processo de seleção natural irá agir, já que não vai existir pessoas o suficiente? Não nessas palavras, claro, mas eu apreendi isso do que ele falou.

  4. Vc escreve muito bem, parabéns… cheguei aqui, por coincidência e, vejam só: não consegui terminar de ler o artigo, sem me emocionar.
    Parabéns, a fofinha é linda… e vc, um ótimo pai.
    Tudo de bom.

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