A MPB reflete a vida

Este texto pretende fazer uma ligação entre o livro “História Sexual da MPB”, de Rodrigo Faour (livro que já citei em outro post) e o trágico episódio de uma garota seqüestrada por “amor”. Todos sabem que Eloá, de 15 anos, foi vítima da posse e da não-aceitação de um homem que só pretendia controlá-la.

 

***

A música feita no Brasil sempre foi a crônica perfeita dos costumes da sociedade. E a sociedade nos idos do século XVIII era de um machismo cruel. O primeiro compositor de que se tem registro é Domingos Caldas Barbosa (1740-1800). Em sua música pode se ler o perigo que a mulher representava para o homem: “Fuja do bicho mulher/ Rói por dentro/ Bem como a traça/ É quem motiva nossa desgraça”. Forte, não é?

 

O tempo foi passando e nada de aliviarem para o lado do então sexo frágil. O pensamento patriarcal reinante produzia pérolas machistas como “Cabocla Tereza”, de Raul Torres e Serrinha. Não satisfeito com a decisão da mulher em trocá-lo por outro, os autores revelam: “Senti meu sangue fervê/ Jurei a Tereza matá/ O meu alazão arriei/ E ela fui procurá/ Essa cabocla matei/ É minha história doutô”.

 

A cabocla da atual história não o trocou por outro. Apenas não queria voltar a um relacionamento inseguro, cercado pelo ciúme. E por conta disso, foi morta com um tiro na cabeça. O que faz um jovem tido como equilibrado perder as estribeiras desse jeito é o sentimento de posse que inunda a maioria dos relacionamentos amorosos e que ainda não deixou de fazer parte da cartilha machista e patriarcal. Raul Seixas criou alguns versos para a letra de “A Maçã”, que são a síntese do que acredito como sendo amar alguém: “Amor só dura em liberdade/ O ciúme é só vaidade/ Sofro, mas eu vou te libertar/ O que é que eu quero/ Se eu te privo/ Do que mais venero/ Que é a beleza de deitar”. Para mim é isso aí!

 

Ao contrário do que disse alguns psicólogos nos jornais que li e vi, aquilo não era amor, era uma outra definição que continha obsessão, posse, controle etc. Não sei se estou sendo superficial demais, já que não tenho formação em psicologia. Mas acredito fortemente que amar alguém é deixá-lo inteiramente livre para ser o SER que ele deseja e tem vontade. Teorias psicológicas que ainda ligam o amor a algum tentáculo que contenha possessão, não me servem mais. É preciso aceitar a liberdade sexual e intelectual de cada um. Se não está preparado para isso, melhor não se relacionar amorosamente. Ou seja, um dia alguém pode “traí-lo”, deixá-lo ou “traí-lo” e não querer deixá-lo, porque ama você.

 

Como disse lá em cima, nossa música sempre foi e sempre será a arte que mais consegue traduzir nossas relações cotidianas, nossa maneira de pensar. Embora consigamos aceitar e viver novas formas de amar, nossa sociedade pode ser considerada muito machista. Esse rapaz tirou a vida de Eloá, porque não aceitava que ela vivesse sob suas correntes emocionais. A queria exclusivamente para ele. “Acho que isso não é amor”, disse Renato Russo.

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2 pensamentos sobre “A MPB reflete a vida

  1. A questão é muito profunda, eu acho. Só vi um psicólogo tratar o assunto com sobriedade. Ele disse que não existe esse dito padrão de agressor e assasino, e sim um jovem massacrado pelo que todos nós fazemos: cobrar, cobrar, cobrar, sem trabalhar nele a frustração e a perda.

  2. O debate sobre esse assunto é inesgotável. São muitas as teorias, as respostas, as culpas e desculpas. A única coisa que tenho certeza é que Linderberg não amava Eloá. Ele se achava dono dela, como afirmou comandar o local em que morava. Acredito que Eloá também teve sua parcela de culpa, quando em outra ocasião, tentou se matar caso Linderbg não voltasse para ela. Quando colocamos nossa vida de escanteio damos autorização para que o outro faça dela o que quiser.
    Agora, não interessa muito o certo ou o errado. O que importa é que inteligência emocional deveria ser disciplina nas escolas e universidades. Essa seria uma tentativa de solucionar alguns problemas sociais e psicológicos que ficamos sabendo pelos jornais todos os dias.
    Bjs

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