Entre a simbiose e a liberdade


Estou lendo um livro maravilhoso. Ele se chama “História Sexual da MPB”, de Rodrigo Faour. Mas não é sobre o livro que venho falar agora (em um outros post, pretendo falar de forma geral sobre ele). Venho expor minha opinião sobre um dos temas tocados pelo jornalista: viver entre o desejo de simbiose e o desejo de liberdade. E o que seria isso? Quem é mais tradicional, ainda voltado exclusivamente para os valores monogâmicos e herméticos, talvez se choque. Mas acho que não cabe mais pensarmos que o amor deva ser lacrado dentro da idéia do romantismo: parceiro ideal para a vida toda.

Todos sabemos que a humanidade evoluiu em suas idéias a respeito do sexo e das fantasias ligadas a ele. Embora aceitem com mais respeito os homossexuais e que a mulher já possa ter prazer na cama e até “trair” como homem, ainda somos uma sociedade bastante arcaica quando assunto é sexo. Mesmo que tenhamos um vulcão prestes a explodir.

Transcrevo abaixo um trecho do livro de Faour:

“Para um número ainda restrito mas não invisível de pessoas, já foram dados passos mais largos. Os clubes de suingues são uma realidade nas grandes capitais, ainda que poucos divulgados e funcionando às vezes de forma irregular. Lentamente o sexo grupal, a troca de casais, os casamentos abertos, onde eventualmente um ou outro parceiro podem ter sexo com outras pessoas, e a contratação de profissionais de programa para incrementar uma relação são práticas que começam a deixar de ser tabu. Os brinquedos sexuais (que a própria mídia estimula vez por outra em filmes, novelas e programas de variedade em geral) gradativamente entram no imaginário do brasileiro, e de alguma maneira já não são uma ficção, como em outros tempos. Finalmente, as relações extraconjugais nunca foram tão intensas (de ambos os sexos) – muitas das quais ajudadas pelo advento da internet, terreno farto para a exposição das fantasias mais secretas das pessoas – e vários relacionamentos já não acabam definitivamente por causa de uma ‘traição’”.

Você pode não concordar com determinadas práticas ou gostar de uma mais do que de outra, mas é inegável que o desejo de liberdade sempre esteve presente. É o que atesta as letras das canções, que sempre fizeram a crônica das relações amorosas em todos os tempos. E esse desejo de liberdade sempre entrou em conflito com as aspirações românticas que sempre nos foram estimuladas. Ou seja, temos que encontrar um parceiro ideal, nossa cara-metade que vai nos acompanhar para a vida toda. Temos que amá-lo e não desejar mais ninguém. Isso não condiz com nossa realidade humana, nossos sentimentos mais básicos. Esse tipo de amor, no qual duas pessoas vivem juntas para sempre, existe e é fabuloso, mas não podemos nos esquecer de que é uma entre muitas possibilidades.

Leia o que diz a sexóloga Regina Navarro Lins. Trecho também retirado do livro de Faour:

“O mundo oferece muitas possibilidades, e com o tempo esse tipo de amor gera grande frustração, afinal, ninguém consegue preencher o outro em todos os momentos da vida, inclusive o sexual”.

Estar ligado de forma tão simbiótica e exclusiva a alguém, pode não ser alcançado pela maioria dos mortais. E mesmo que alcancemos tal entrosamento, ainda assim podemos desejar a amar outra pessoa. Acredito que podemos amar eternamente um outro ser, mesmo não estando vinculado a ele formalmente (casamento, por exemplo). Chico Buarque disse:

Prometo te querer
Até o amor cair doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado teu

Podemos, como diz Chico, amar alguém para sempre, sem esperar o “felizes para sempre”.

Pode ser doloroso ter que aceitar que nossos parceiros desejam outras pessoas, que fantasiam com outras mãos e pernas e órgãos. O fato é que também fazemos isso e até nos servem de inspiração para nossos relacionamentos atuais. Flávio Gikovate, psicanalista presente no livro, afirma que “sexo se faz e amor se sente”. Acredito que sexo e amor podem conviver juntos, com certeza, mas nem sempre. Homens e mulheres sabem disso muito bem.

Defendo aquela liberdade na qual a pessoa escolha a melhor forma de viver e ser feliz, com ou sem parceiro definido para a vida toda. Gozando sua sexualidade de forma saudável, respeitando os seus limites e dos outros.

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2 pensamentos sobre “Entre a simbiose e a liberdade

  1. Esse é tema polêmico e por isso muito interessante. Me chama atenção o fato de que casamento por amor e monogâmico é uma “invenção” do século passado somente, diria mais: a partir da década de 60 e a revolução sexual da mulher. Não sei se tem analogia com o que você falou, mas me veio à mente essa reflexão quando li seu texto. Mas, de qualquer modo, eu ainda tenho uma cabeça liberal para os outros, mas fechada em relação a mim.

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