Devagar!!!

Ontem, no Jornal Nacional, em uma matéria que falava da enorme crise que os Estados Unidos passam – e por conseqüência, o mundo – o professor de História de Economia Eduardo Gianetti da Fonseca falou algo que considero de extrema importância. O economista, que vocês já devem ter visto em alguma matéria por aí, já que é relativamente famoso, nos passou o seguinte recado, que talvez tenha ficado escondido:

“Eu acho que ela pode ser uma pausa para a reflexão e colocar certos valores nos seus devidos lugares. Colocar as finanças no centro da existência humana não é um bom caminho para a nossa realização, para a nossa felicidade”.

Achei tão óbvio que chega a ser genial. Será que ninguém desconfia que nosso mundo está atolado de idéias que visam o lucro incessante? Posso até gostar do Capitalismo, mas há limite para tudo. Nossos recursos naturais estão sendo assassinados, nossas propagandas exaltam os mais novos modelos de tudo: celular, carro, imóveis, televisões. A cultura do instantâneo, do descartável. Não temos tempo nem de aproveitar, de fruir aquilo que compramos, e já nos empurram mais.

A bolha estava sendo alimentada, engordando, se enchendo de gordura inútil, saturada. E estourou. Estourou, talvez, para mostrar que não devemos dar tanto valor a essa instituição de difícil definição chamada Mercado.

Há alguns anos, pensadores como Domenico de Masi, só para citar um, já afirmavam a importância do ócio criativo e do relaxamento na vida das pessoas como fundamental para uma vida saudável e feliz. Atualmente, o escritor Carl Honoré escreveu “Devagar!”, livro que ratifica a mesma idéia: a pressa para lugar nenhum, o trabalho incessante em nome do “progresso da humanidade”.

Ouço a seguinte frase quase toda semana: hoje em dia as pessoas trabalham cada vez mais e ganham cada vez menos.

Bom, esse tipo de argumento (se é que essa frase pode ser considerada um argumento) reflete a mediocridade de algumas pessoas que estão gerindo suas empresas. Trabalhe, trabalhe, se lasque, deixe a família de lado, deixe a leitura, o lazer e produza para o bem da empresa e dos clientes. Engordem minha conta com seu suor e receba seu troco no final do mês.

Parece até que eu sou de um partido de esquerda ou coisa parecida, não é? (lembrem que disse que gosto do Capitalismo). O fato é que já não cabe tanto anacronismo, tanta falta de visão, de humanidade, de percepção do que realmente importa. E o que realmente importa? Já receberam um beijo de quem se ama? Já viram sua filha (o) sorrir? Já caminharam debaixo do sol da manhã? Já leram um livro e se perderam em sua fascinante história? Já abriram a geladeira à noite para comer um doce? Já correram da chuva?

Creio que chegamos ao topo da montanha. E quando isso acontece, é hora de descer. Não há mais para onde ir.

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3 pensamentos sobre “Devagar!!!

  1. Eu sou mais adepto do ócio pura e simplesmente. As pessoas não fazem isso mais; é uma pena.
    Um bom exemplo do que você falou foi a venda do youtube ao Google: o site de vídeos não gerava 1 centavo sequer, muito embora fosse sucesso mundial. Hoje, os executivos lucram bastante…

  2. Quando vi essa matéria no Jornal Nacional é como se tivesse levado uma sacudida. Como você disso, o economista disse o óbvio e, por isso, foi tão genial. Eu sou completamente contra essa idéia estagnada que é repetida como se fosse um mantra. “Cada vez mais as pessoas trabalham mais e ganham menos”, quando escuto isso, chego a pensar que estou no filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin. Será que em pleno século XXI essas idéias vão continuar se propagando???

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